Sáb, 25/Out/2003, 22:19
Por: Daniel Caetano
Post de Aniversário | 1 Voto |
E não vou falar disso mesmo! (^=
Esse post é o primeiro (e talvez único) post escrito a partir de uma festa de aniversário... a festa de aniversário da Pati (do blog Odds and Ends).
Tá, é bizarro escrever um post de uma festa, mas aproveitamos para ligar a câmera no micro e descarregar as fotos, permitindo que mais fotos sejam tiradas.
Pro pessoal ter um... Leia mais!
Seg, 4/Mar/2013, 15:25
Por: Daniel Caetano
O Amor nos Tempos do Consumismo | 1 Voto |
Muitos estão familiarizados com o problema do "consumismo" e dos efeitos deletérios que ele tem para o indivíduo, sociedade e natureza. Segundo alguns, trata-se de uma tentativa de "tapar" um buraco, uma ausência, através da aquisição de bens materiais supérfluos e desnecessários, ocasionando redução da poupança1 e desperdício de recursos2.
Entretanto, o "conceito" de consumismo, me parece, está indo muito além de problemas psicológicos estimulados por publicitários sem ética; o consumismo parece estar se tornando um espécie de paradigma, de modo de vida da socidade atual.
O comportamento consumista é marcado pelo imediatismo: a busca do prazer imediato, talvez como uma forma de aplacar o tal vazio, decorrente da ausência do que é realmente importante à vida de um dado indivíduo. É similar a esfregar o local onde se tomou uma pancada: momentaneamente a dor é reduzida devido à confusão em nosso sistema nervoso, causada pela sensação tátil.
Até algum tempo atrás eu acreditava que este comportamento fosse um efeito de agentes externos sobre o indivíduo; recentemente mudei de opinião, passando a crer que este comportamento seja efeito de um fator interno, uma espécie de senso-comum egocêntrico da sociendade moderna: uma histérica busca pela suposta "felicidade".
Em nome de falsos "merecimentos" que as pessoas criam, mentem para si mesmas, como uma maneira de afastarem a culpa, de calarem seu superego. A partir daí, passam a usar estas justificativas para se permitirem fazer coisas que julgam "erradas", mas que criam um "atalho" à tão esperada e desejada "felicidade fácil".
Não é difícil tecer uma linha de argumentação que derrube tal pensamento; ele pode ser até mesmo considerado um sofisma, dado que supostamente o merecimento3 advém também do esforço e, doravante, é pouco provável que atalhos levem ao merecimento4. Por outro lado, é importante ressaltar que o simples esforço não garante merecimento, já que há outras questões envolvidas.
Esse comportamento não é de causar espanto, apesar da carência de lógica, uma vez que o já citado consumismo é uma manifestação clara e até mesmo corriqueira no período da história em que vivemos. O que tem me surpreendido, entretanto, é como este comportamento tem se alastrado para muitas das ações humanas, incluindo o ensino/estudo, pesquisa, trabalho, lazer... e até mesmo os relacionamentos humanos.
Sobre este último caso, de uma maneira perversa, pode existir uma conexão entre este fenômeno da busca pelo atalho que leva à felicidade e o crescente número de separações e divórcios prematuros. A forma como muitos membros de nossa sociedade lidam com as relações e parceiros parece ser muito similar à maneira com que estes mesmos membros têm lidado com as coisas que adquirem.
Em nossa época, é muito comum que as pessoas digam "é mais barato comprar outro" quando alguma coisa quebra. Na verdade, as pessoas até mesmo se convencem de que merecem um outro produto, mais novo e cheio de recursos; esse auto-convencimento é importante para a consumação do ato, dado que o custo de aquisição de um produto novo é, em geral, significativamente superior ao custo de manutenção do equipamento já existente.
Dessa mesma forma muitas pessoas têm agido com relação aos relacionamentos e, em especial, com os casamentos. Quando um casamento não vai bem, passou-se a considerar que é mais "barato", mais "simples" finalizá-lo e simplesmente partir para outra. As pessoas até mesmo desprendem alguma energia se convencendo disso, já que em geral consideram que é mais prático começar a procurar outra pessoa e reiniciar todo o processo e todas as complexidades e riscos de falha que isso envolve. Como embasamento, criam-se potenciais falsas premissas5: "antigamente as pessoas só ficavam juntas - e tristes - a vida toda porque não existia/não era tolerada a separação".
Tanto no caso dos produtos quanto no caso dos relacionamentos humanos, há uma aparente falha de julgamento; no primeiro, ela é evidente se as duas alternativas - comprar um novo e consertar - estiverem disponíveis; basta comparar o preço. Em geral, as supostas novidades que o produto novo traz... são apenas truques mercadológicos, já que 99% das pessoas jamais usou o Karaoke de seu DVD Player, por exemplo.
No segundo caso, entretanto, a falha de julgamento não é tão aparente; é uma situação mais complexa, como tudo que envolve relações humanas. Mas será que é realmente mais simples abandonar anos de investimento em uma pessoa, em uma relação ... por algo totalmente novo e desconhecido? O novo e desconhecido tem atrativos mil, mas seriam esses atrativos realmente interessantes? Não seriam novas soluções para problemas que não temos?
Vejo frequentemente pessoas abandonando suas relações "fracassadas" de anos, ignorando o fato de que, se a relação durou anos, certamente há algo de bom nela - algo de muito bom... caso contrário, não teria passado de uma ficada, de um namorico. Se durou anos, tem amor envolvido no processo, não há como negar. Pessoas que se consideram tão diferentes - a ponto de justificar o fim de uma relação - não ficariam juntas por tanto tempo se não se houvesse um sentimento bom que as unisse.
É fato que alguns defeitos dos parceiros podem ser toleráveis por algum tempo, e com o passar do tempo a tolerância a eles vai diminuindo, turvando a mente de tal forma que se deixa de ver e valorizar as qualidades do companheiro... mas essa é a luta, esse é o desafio de uma relação duradoura: paciência.
Mas aí vem o atalho. Vem a consideração de que se "merece" algo melhor, que "ninguém merece" essa dificuldade... que é preciso buscar a felicidade a qualquer custo - e de maneira rápida. E a justificativa pode ser descrita por jargões publicitários manjados como "o que importa é ser feliz".
A sociedade atual age de maneira curiosa: ao invés de construir a solução para um problema, confia no acaso. Ao invés de trabalhar e melhorar o que tem, joga tudo para o alto e recomeça praticamente do zero.
É, deveras, um comportamento curioso para uma espécie que se entitula homo sapiens-sapiens.
Daniel Caetano
(1) Poupança, no sentido usado pelos economistas, é "capacidade ociosa", isto é, o indivíduo trabalhou e armazenou seu trabalho.
(2) O consumo de bens desnecessários leva ao consumo de recursos naturais de maneira desnecessária.
(3) Sem tentar aqui, é claro, entrar em questões filosóficas ainda mais profundas sobre "o que é a felicidade" e "o que é merecimento".
(4) É claro que isso é uma generalização e eu tenho a consciência que em situações específicas é possível haver merecimento devido a encontrar um atalho; mas não há necessariamente merecimento por se seguir o caminho mais fácil.
(5) Será que antigamente as pessoas morriam no sofrimento de ter aturado uma situação insustentável a vida toda... ou será que no passado as pessoas gastavam suas energias para fazer funcionar, ao invés de gastá-las tentando se convencer de "trocar por um novo"?
Seg, 21/Jan/2013, 3:01
Por: Daniel Caetano
A Liberdade | 3 Votos |
Há muitos anos, quando me mudei para meu apartamento, abriguei duas gatinhas lindas - também conhecidas como monstras, embora pouco tenha falado delas por aqui. Por causa dessas gatinhas, as janelas e sacada ganharam telas de proteção; o objetivo era evitar que, durante as incríveis caçadas das felinas, elas realizassem um salto mortal - literalmente.
Passados os anos, me habituei às telas e, mesmo depois que os gatos se foram, as telas ficaram... em parte porque tenho um sobrinho pequeno, em parte porque algumas vezes considerei ter um novo bichano. A despeito da razão, as telas eram o fato.
Poucos meses atrás foi tomada a decisão, em meu condomínio, de pintar a fachada dos edifícios. Veio em boa hora, até porque os últimos apartamentos (sétimo e oitavo andares) de meu prédio pegaram fogo e a fachada está parecendo a de uma churrasqueira velha. Neste mês veio a solicitação para que tiremos as redes de proteção, de modo que a pintura possa ser feita.
Inicialmente tentei desamarrar os cordões com uma chave de fenda, mas depois de uns 10 minutos desisti. O serviço de colocação da tela foi bem feito, não me restando alternativa além do estilete para cortar o cordão e, assim, poder removê-la. Removido o cordão - já preto, pelos anos de convivência com a fuligem do trânsito da avenida - e desentortados os ganchos que o seguravam, a tela saiu com facilidade.
Desde muito tempo sou contra o cativeiro de pássaros, em especial se for em gaiolas diminutas. Tenho dó e acho que o lugar dos passarinhos é nas árvores - quer algum passarinho cantando bonito perto de sua casa? Plante árvores ao redor! De qualquer forma, depois de tantos anos com a janela "entelada", a visão que tive foi libertadora. Me senti como o passarinho que fica enjaulado por anos e, um belo dia, vê a porta da gaiola aberta.
Não sei voar e, no entanto, foi como se soubesse. Senti a brisa no rosto, como há muito não sentia.
Ter, 18/Dez/2012, 3:08
Por: Daniel Caetano
Cronologia das Decisões do STF | 5 Votos |
Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade... é uma grande temeridade!
A seguir, a cronologia das decisões - passadas e futuras - do STF. As datas foram omitidas para evitar pânico:
- STF decide que "a Constituição é o que o STF decidir".
- STF decide que os deputados são corporativistas e que, sendo assim, o STF pode e deve cassar mandatos de deputados.
- Câmara e Senado criam Emenda Constitucional limitando o poder do STF.
- STF, acusando o congresso de corporativismo, não reconhece emenda.
- STF decide que o congresso é um desperdício de recursos, cassando o mandato de todos os parlamentares.
- Após as eleições presidenciais, STF decide que o Presidente do STF deve acumular o cargo de Presidente da República.
- Indignado, o povo vai às ruas e questiona sua participação na eleição, já que o presidente do STF não foi candidato.
- O STF decide que o cidadão comum do Brasil é ignorante e não merece votar. "Se fossem cidadãos dos Estados Unidos, jamais votariam em quem votaram", afirmou o Presidente do STF, ao dar posse a si mesmo.
- Respeitáveis "empresários da organização de eventos criminosos" (vulgo: líderes do PCC) denunciam corrupção nas eleições.
- Toda a grande mídia repercute a notícia, indignada com o absurdo que são as corrupções nas eleições.
- Em pronunciamento na TV, de posse de um exemplar de "Veja" e o dedo em riste, o Supremo Presidente decide abolir as eleições e nomeia novos governadores e prefeitos. "A política está podre!"
- Diante dos rumores sobre o processo sucessório à presidência, o STF declara que o cargo de Presidente do STF/República passa a ser vitalício e hereditário.
- Pesquisador/Ativista Inglês é preso na Amazônia, ao comparar Presidente do STF a Henrique VIII.
- Alegando ameaça de invasão da Amazônia, STF decreta o investimento maciço na construção de bombas nucleares. "Henrique VIII era muito feio", declarou o presidente do STF, em pronunciamento.
- A ONU manifesta repúdio à proliferação de armas nucleares no Brasil, mas o STF considera o repúdio improcedente e divulga nota repupiando o repúdio.
- Diante da permanente crise econômica na Europa e EUA, além do agravamento da crise na China, o STF destitui as equipes econômicas destes países, fazendo o presidente do STF acumular também a função de "Equipe Econômica dos Países Amigos Unidos".
- Como medida para ampliar as receitas de exportação dos países em crise, STF decreta que todos os Países Amigos Unidos devem produzir armas, ameaçando de invasão os países que não importarem produtos.
- Diante de protestos mundiais, o STF declara que seu poder é supremo, e o presidente do STF deve assumir a liderança de todos os países do mundo, destituindo seus governantes, eleitos ou não.
- Revoltas surgem de todos os lados e, usando armas produzidas pelos Países Amigos Unidos tentam invadir países "administrados" pelo STF.
- Diante do desafio ao seu poder divino, o STF declara guerra aos insurgentes.
- A revolta cresce e, diante da falta de controle, o STF declara uma medida moralizadora mundial: detonar todas as ogivas nucleares simultaneamente. "Essa gentália não merece ter um corpo governante como o STF. Na verdade, eles não merecem a minha benevolencia divina."
- E essas serão as últimas palavras ouvidas no pronunciamento mundial, antes que o mundo vire pó.
Daniel Caetano
Seg, 17/Dez/2012, 3:18
Por: Daniel Caetano
Realidade e Responsabilidade | 1 Voto |
O Brasil, como se sabe e é propalado aos quatro ventos, é um país com enorme potencial hidrelétrico e, de uma certa forma, com potencial de energia elétrica limpa para seu próprio sustento por um bom período de tempo, ainda.
No entanto, nos recentes meses, temos visto uma onda de problemas e apagões de pequena magnitude temporal que têm ouriçado muitos "especialistas" do setor, servindo de munição para um acalorado debate político acerca da capacidade de gestão do governo. Não sou especialista, mas vejamos alguns detalhes sobre o setor elétrico.
Primeiramente, a maior parte do sistema de geração e distribuição está nas mãos de algumas poucas empresas há mais de 20 anos. É possível verificar, também, que projetos de expansão neste setor possuem uma maturação longa, não raro superiando os cinco anos.
Por outro lado, sabemos que a implementação de uma nova usina hidrelétrica leva um periodo ainda mais longo, desde a sua idéia até o início das operações. Um período que frequentemente é ampliado e esticado por inúmeras manifestações de ONGs e pessoas ligadas a interesses internacionais e que usam de povos indígenas, fauna e flora como justificativa para atrapalhar tais empreendimentos.
Diante do cenário crítico do sistema - em um ano especialmente seco, diga-se - imagina-se, portanto, que há, por parte das empresas gestoras das hidrelétricas e linhas de transmissão, inúmeros projetos de expansão de geraação de hidrelétricas em andamento e diversas hidrelétricas em construção, de sorte que o problema atual não venha a se tornar crônico.
A realidade, porém, é outra. Apesar de existirem grandes hidrelétricas em fase de execução, os atrasos são maiores do que os esperados - mas não por conta de má gestão, e sim por um excessivo ativismo nacional e internacional, apoiado por opositores ao governo (incluindo aí a "grande mídia") e inocentes úteis, como o pessoal do PV e do PSOL. Nesta frente, não há - no meu entender - o que o governo fazer além de enfrentar e forçar a barra. Venho falando há anos que "é muito bonito defender o tatu bola da casca malhada, mas quando faltar energia pra usar o microondas, todo mundo vai chiar igual"1.
No caso das empresas gestoras de hidrelétricas, o problema é ainda mais grave. Os projetos de expansão (em execução, ao menos) de contratos de mais de 20 anos são poucos ou inexistentes. Alguém que tivesse passado os últimos 20 anos em Marte poderia perguntar: "provavelmente essas empresas tiveram uma rentabilidade muito baixa nos últimos 20 anos, o que explica um baixo índice de investimento". Obviamente esta pessoa estaria errada; nos últimos 20 anos as empresas de geração e distribuição de energia elétrica, com seus lucros "tunados" por taxas de retorno de épocas com inflação mensal de 2 dígitos e dívidas com o FMI, sempre estiveram entre os empreendimentos mais lucrativos e que mais distribuiram dividendos para seus acionistas. Com ou sem crise de 2008, diga-se.
Nenhum destes dois fatos parece ser abordado por "especialistas", que enxergam na MP579 a única razão para a "crise energética" atual. Para quem está vivendo em Marte, a MP579 é uma medida provisória que visa a redução nas contas de luz, cortando contribuições ao goveno e renegociando a renovação da concessão de geração e distribuição dos contratos que vencem de 2012 a 2015.
Qual é o problema que os especialistas vêm na medida? Bom, dizem que é intervenção do Estado no setor privado, que é o fim da estabilidade jurídica, já que o governo está rompendo contratos. Será que está?
Vejamos: os contratos finalizam até 2015 (alguns já estão finalizados) e o governo propôs uma renovação antecipada, por mais 30 a 35 anos, sendo que o governo se dispõe a pagar uma indenização pela parte do investimento não amortizado (e que se amortizaria nos próximos 2 a 3 anos). A contrapartida: reduzir a rentabilidade prevista do negórcio, com o objetivo de "rachar" com o governo as perdas pela redução da tarifa de energia. O governo propôs: é pegar ou largar. Pegar significa aceitar os termos, largar significa abrir mão da concessão, que seria relicitada no fim do contrato.
A proposta do governo veio porque o governo não tinha o interesse em relicitar as concessões; esse é um processo lento e que, ocorrendo em muitas regiões simultaneamente (como iria acontecer) causaria potenciais instabilidades. Daí a proposta do governo. A questão é: por que essa proposta não interessaria aos concessionários?
Essa proposta não interessa porque, como os opositores do governo gostam de dizer, eles inventaram uma jabuticaba: uma vez que o contrato de concessão prevê a possibilidade de uma renovação, as empersas se acham no direito de ter sua concessão renovada... mantendo os lucros abusivos por mais 20 a 25 anos2. E a justificativa: alguns contratos com algumas empresas foram renovados no passado, então é obrigatória a renovação. E que, como isso não está ocorrendo, é uma quebra de contrato.
Essa teoria tem duas falhas. A primeira é que cada contrato é independente. O que aconteceu em um não tem que acontecer em outro. Seria o mesmo que você ter duas casas alugadas e, se em um momento decidir não atualizar o valor de um dos aluguéis, tivesse que dar o mesmo benefício ao outro inquilino, do outro imóvel, também. A segunda falha é que, pelo contrato, existe a possibilidade de renovação, não a obrigação. Você renovaria o contrato de um inquilino que não está cuidando direito de seu imóvel e, ainda por cima, paga um aluguel que você considera injusto?
Pois então. Eles rebatem o segundo problema dizendo que "não podem investir sem saber se a concessão será renovada". Ora, talvez a concessão tivesse sido renovada se estivessem investindo!
Mas não, a discussão não é: "Estamos investindo uma grana preta, por favor, renovem"... mas sim "Olha, nós 'dormimos no ponto' nos úlitmos 25 anos, porque sabíamos que íamos exigir a renovação para poder 'dormir no ponto' por mais 25 anos!". E é nessa hora que surgem as tentativas desesperadas: dizem que a indenização do governo é baixa, que a empresa deles vale, na contabilidade, muito mais. Vamos entender isso com uma metáfora.
Imagine que você vai na Caixa Econômica Federal pegar 100 de empréstimo para comprar seu apartamento. Você recebe, compra seu apartamento e religiosamente paga 1 por mês. Depois de 140 meses, acredita ter pago a maior parte do principal da sua dívida, restando alguns 10 a 15 de dívida para ser quitados. Você pega, então, algumas das suas reservas e se dirige à CEF para quitar seu apartamento mas, quando chega lá, eles lhe dizem: "Não é só isso não! Você deve pelo menos umas 3 vezes esse valor, visto que seu imóvel agora vale 200 no mercado!
Ou seja: (bem) grosso modo, as empresas não querem ser ressarcidas pelo valor do investimento que fizeram (ainda não amortizado), mas pelo valor contábil ("de mercado") da hidrelétrica, que inclui todas as ineficiências e bobagens que fizeram com o dinheiro ao longo dos últimos 25 anos. É com se a sua dívida para pagar sua casa aumentasse conforme o preço dela aumenta no mercado3.
Como essa objeção veio de empresas que estão nas mãos de Estados cujo controle partidário é de oposição ao governo federal, a disputa foi para o campo político e o governo federal argumentou que a não renovação não é técnica, mas sim política. Isso é um pouco de exagero, na minha opinião. Não tem a ver apenas com criar problema para o governo federal, mas sim em defender o que é dos acionistas - no caso, associados ao poder vigente em cada um desses estados. É aquela velha história: campanha financiada por empresas (seja caixa 1 ou 2...), compromissos assumidos são dívida paga... ou o político acorda com a boca cheia de formiga. Trata-se, pois, mais de uma questão de sobrevivência (física ou política) do que uma questão puramente ideológica4.
Tudo isso é compreensível: empresas particulares lutando para manter enormes lucros com o mínimo de trabalho, os governos que são eleitos por essas empresas lutando por elas. E, as ONGs internacionais, por sua vez, defendendo o interesses no Brasil dos países estrangeiros que as financiam. Tudo dentro da normalidade e, claro, com o apoio da "grande mídia".
O que não é compreensível, no entanto, é que se jogue a culpa de um problema que se arrasta há décadas em uma medida provisória que tem 3 meses e que, ademais, fazia uma proposta que as empresas poderiam aceitar ou não.
No fim, não se trata de instabilidade institucional, mas sim o fim da mamata. Acabou a grana fácil. Para fazer funcionar e gerar lucro, agora vai exigir trabalho de verdade: eficiência, que muita empresa gosta de cobrar, mas não gosta de implementar (e nem de ser cobrada a respeito).
É claro, porém, que as empresas vão espernear. Filho mimado é assim mesmo.
Mas educar é responsabilidade do país5.
Daniel Caetano
(1) Caso se pergunte o que as ONGs teriam a ganhar com o atraso nessas obras - ou a sua não execução - pense em quem são seus financiadores. E pense que a maioria dessas obras "discutidas" estão na região amazônica, a região com menor presença do Estado brasileiro e cujo interesse internacional é o maior possível.
(2) A "jabuticaba" é exatamente a "possibilidade obrigatória" (similar ao conceito de "provisoriamente permanente"); eles querem inventar o primeiro contrato de 25 anos com duração obrigatória de 50!
(3) Na verdade, esse é um exemplo bem rudimentar para transmitir a ideia de "o governo quer pagar uma coisa, mas as empresas querem receber outra". Na realidade, o procedimento de cálculo é bem mais complicado que esse, mas a ideia permanece.
(4) O governo do estado de São Paulo, na pessoa de José Aníbal, chegou inclusive a defender sua posição dizendo que o governo do estado quer abaixar a tarifa de energia e que, em SP, baixou o ICMS para 12%... Balela: pegue sua conta de luz e me diga se, NA SUA conta de luz o ICMS é só esse... Faça a conta e você vai descobrir que ele é de quase 3x esse valor informado. A despeito do que diz o site da Eletropaulo, deve haver 5 ou 6 pessoas no estado de SP inteiro que pagam 12%; eu não consegui encontrar nenhuma delas, entretanto.
(5) Desculpem o trocadilho pra lá de infame! :)
Seg, 10/Dez/2012, 6:25
Por: Daniel Caetano
Emigração | 1 Voto |
Por onde vá, vejo pessoas sorridentes. Carregam, dentro de si, mais felicidade do que podem conter, muito mais do que supunham possível. Veem bons motivos em cada pequena coisa, alegria em cada detalhe, lembranças queridas em cada nota da sinfonia da vida.
Acostumamos a pensar na felicidade como um estado, algo momentâneo, que se faz e se desfaz... talvez. Como em uma orquestra, podemos ouvir o todo... ou podemos nos esforçar por ouvir a contribuição de um único instrumento. E podemos dizer que uma floresta acabou porque a árvore que observávamos foi cortada. Até certo ponto, cada um faz a escolha que julga mais adequada, qual fato ou lembrança valorizar mais do que outro.
Busca-se tanto a felicidade e, ao mesmo tempo, deixa-se de ver que ela está ali mesmo, bem ao lado. Ela faz parte de nós... mas, assim como os olhos fechados não podem ver a luz, nem sempre optamos por senti-la.
Momentâneamente, vou deixar de lado tudo de bom que tem acontecido; opto por fechar meus olho, deixar a tristeza chegar, me tomar e ir embora.
É o momento de o presente se tornar uma boa lembrança e dar espaço para as alegrias de uma nova realidade.
Seg, 2/Abr/2012, 20:51
Por: Daniel Caetano
20 Anos Atrás... | 2 Votos |
Acabou passando despercebido, mas há poucos dias fez 20 anos do "release" da versão 2.0 do OS/2, o sistema operacional "bizarro e desconhecido" que eu uso. Curiosamente, isso coincide mais ou menos com o tempo que eu uso PC e o OS/2. E coincide com uma série de mudanças e reviravoltas que fizeram minha vida vir parar exatamente no ponto em que se encontra hoje. Posso dizer, seguramente, que se não fosse pelo OS/2 minha vida seria completamente diferente, por uma série de razões, a maioria delas ligadas a pessoas que conheci por meio dele e, em especial, por causa dele.
Em 1992 eu chegava em São Paulo, voltando do interior depois de 10 anos longe daqui. Já programava à época, mas meu MSX tinha um drive interno bichado e meu drive externo - um drive de 5,25" Racidata - já estava para lá de Bagdá - inclusive me fazendo formatar um monte de discos bons e com muitos programas desenvolvidos ao longo de 7 anos usando o MSX, por achar que eram as gravações dos discos que estavam defeituosas.
Durante o desenvolvimento de um clone de MegaMan para MSX, o Racidata deu seu último suspiro. E então fiquei sem computador, sem modem, sem videotexto... sem nada do que era legal. E comecei a jogar videogame nas madrugadas sem sono... e a torrar a paciência de meu pai.
Conheci, naqueles meses, meu primeiro amigo de São Paulo, o Everson (que Deus o tenha). Esse cara foi quem me vendeu o meu primeiro PC (o último computador que meu pai me comprou na vida, como meu pai fez questão de frisar) e também acabou por ser "cupido involuntário" em um desdobramento de eventos dignos de nota, mas que ficam para um outro momento.
Enfim, foi no final daquele longínquo 1992 que eu ganhei, de aniversário de 15 anos (completos em janeiro de 1993) o meu 386DX-40MHz, com processador da AMD, 4MB de RAM, HD de 80MB, Sound Blaster 2.0, placa de vídeo SuperVGA OAK de 512KB, um monitor SuperVGA SyncMaster 3... e um modem de incríveis 2400bps!
Nesta máquina, que veio carregando MS-DOS 5.0 e Windows 3.1, eu fiquei conhecendo o OS/2 2.0, que instalei e usei como sistema secundário até meados de 1994. Foi neste ano de 1994 que, por intermédio de um colega de escola, consegui uma cópia do "Warp 3", que finalmente se tornou o meu sistema operacional principal (com um boot secundário para jogar no DOS... naquele tempo, uma boa parte dos jogos só "rodavam" bem em DOS).
Deste PC vieram o Cyrix DX2-66MHz, o Cyrix 5x86 133MHz, o Pentium 166MHz, o Pentium MMX 233MHz, o AMD K6-II 300Mhz, o K6-II 500MHz, o Athlon XP 2100+, o Athlon XP2600+ e, finalmente, o i7, quando, depois de tanto tempo, não faz mais sentido falar em MHz.
Embora ainda tenha esses dois últimos funcionando e em uso - um com o "OS/2" (agora com um nome bizarro: eComStation) e o outro, provisoriamente, com o Windows 7 - foram aqueles primeiros que representam um divisor de águas. Foi usando aquele primeiro IBM-PC - com o OS/2 e um modem - que, acessando o SPOnline (depois STI-BBS) e o VideoTexto, acabei conhencendo um monte de gente... e vivendo uma época ao mesmo tempo insana e pra lá de divertida... um tempo cheio de aprendizados que trago até hoje comigo.
Ao longo de todo este tempo - e entre diversos outros estudos - acabei me tornando programador "por conta", algo que exerço até hoje com muito carinho, seja nos meus hobbies, seja em minha profissão. Aliás, foi por causa da programação que fui parar na faculdade em que estudei, em primeiro lugar... e o curso, bem... a escolha do curso foi influenciada por muitas conversas no VideoTexto.
Curiosamente, estes computadores mais modernos me levaram de volta ao MSX, que hoje é uma parte importante da minha vida, na forma de hobby, e através do qual conheci uma boa parte das pessoas incríveis que se tornaram meus amigos... alguns ainda próximos, outros tantos nas mais diversas paragens.
No "post" passado escrevi que cresci com tecnologia e comunicação de dados. Neste aqui acho que a interferência da tecnologia em minha vida fica um pouco mais evidente; nesta vida, muitas coisas vieram e se foram. Algumas poucas ficaram...
Mas um outro tanto - infelizmente algumas das mais importantes - se tornaram apenas boas lembranças.
Qua, 21/Mar/2012, 8:27
Por: Daniel Caetano
A Doença do Novo | 4 Votos |
Tenho visto com frequência pessoas reclamando do excesso de atualizações de programas nos computadores. Também tenho visto com frequência pessoas trocando seus computadores por smartphones e tablets... e com mais frequência ainda pessoas trocando de smartphones e tablets.
O que começou com uma necessidade aparentemente legítima (atualizar anti-vírus... trocar o computador porque ele realmente estava defasado...), tornou-se um monstro e agora somos escravos de um eterno ciclo de atualização. Se antes gastávamos nosso tempo com coisas divertidas, batendo papo na varanda, descansando na rede (aquela que fica pendurada na parede) ou mesmo lendo ou livro ou vendo TV, hoje gastamos atualizando software e hardware. Até nos vemos obrigados a pagar uma conexão internet mais rápida (e cara), porque facilita as atualizações1!
Tudo isso me faz pensar naquela grande engrenagem que move o mundo moderno: o consumismo.
Eu sempre fui uma pessoa ligada em inovações tecnológicas; sempre achei divertido ver o que estão criando como novidade. E esse "sempre", posso afirmar, remonta aos tempos das minhas primeiras lembranças da vida... há cerca de 30 anos.
No entanto, de uns tempos para cá tenho questionado o que tenho chamado de "pseudo-avanços" tecnológicos. Pseudo porque, na verdade, a maioria deles são, ao meu ver, uma falácia. Por que digo isso? Pela simples razão que a cada 6 meses lançam um produto novo, da mesma marca.
Analisando pelo aspecto de pesquisa e desenvolvimento, é muito pouco provável que a empresa de fato tenha uma "grande ideia" a cada 6 meses. O mais provável é que se tenha uma grande idéia a cada conjunto de anos (4, 5...?) e se faça um programa de obsolência programada. O que é isso?
Obsolência programada é assim: você tem uma grande idéia, e poderia colocar o produto hoje no mercado, com todas aquelas novas features. Mas, ao invés disso, você divide aquela novidade em 6 ou 8 pequenos incrementos de inovação, e implementa um de cada vez. Em outras palavras: ao invés de lançar uma grande inovação e manter o produto por 3 ou 4 anos, você lança partes daquela inovação a cada 6 meses, lançando 6 a 8 produtos diferentes em 3 ou 4 anos.
Qual a vantagem? Bem, além de gerar mais emprego, gera mais lucro, pois obriga um exército de lemmingues a trocar todos os seus equipamentos de 6 em 6 meses. Obriga como? Bem, de tempos em tempos você "planta" algo que vou chamar de incompatibilidade programada, e criando uma situação em que novas melhorias e softwares só sejam produzidos para a versão mais recente (e incompatível com as anteriores). Pronto, está feita a mágica.
Mas isso não é novidade... isso ocorre há cerca de 2 décadas (ou mais, dependendo do tipo de produto que você considerar). O que mudou?
Mudou que a propaganda (no sentido pejorativo, como a de Goebbels, do Terceiro Reich), ao longo de muitos anos, criou um "frenesi" pela atualização: se você não estiver atualizado, não está "antenado"... e se não estiver "antenado", ficou pra trás, é desatualizado e, como tal, será desprezado pela sociedade... É como se todos olhassem para você e pensassem: "Coitado... tão novo e já pensa como um velho decrépito".
A questão é... será que questionar a utilidade de toda porcaria que se lança é ser velho decrépito? Ou será que quem não questiona a novidade está cumprindo um papel de ingênuo útil?
A missão dos publicitários é, na essência, nobre: permitir que quem tem um problema específico tome conhecimento de uma solução já existente. Entretanto, como tudo, o trabalho do publicitário pode ser usado para o bem ou para o mal... e, no caso, o mal é você convencer as pessoas de que elas precisam de um produto, pois quem não tiver aquele produto "terá um problema". É a tal da "moda", a complexa e desconcertante necessidade que o ser humano tem de se sentir parte do grupo.
O problema é que, acredito, o ser humano "batalhou" muito para aprender a pensar, ser questionador e deixar de "seguir a manada" como um imbecil irracional. Foi um longo caminho para construir esse "status" de "ser racional"... mas, como tudo, destruir é muito fácil. Mas do que é que estou falando?
Por trás deste discurso todo da publicidade e de apresentações apaixonadas do Steve Jobs, o que nos temos na verdade é uma necessidade anti-natural de crescimento eterno das empresas e de seus lucros. Anti-natural porque praticamente nada na natureza cresce eternamente2.
De qualquer forma, se olharmos aqui em volta, no nosso planeta, a única coisa que cresce é a desordem, a bagunça e a destruição. Por trás de um discurso de que é preciso ampliar as vendas para gerar empregos (o escudo usual adotado para esconder o real objetivo, que é o de aumentar os lucros), o que as empresas têm feito, na realidade, é provocar destruição.
Quando, ao invés de produzir 100.000.000 de aparelhos que duram cinco anos as empresas produzem esta mesma quantidade de aparelhos por semestre, após 5 anos elas terão gasto o material para produzir 1.000.000.000 de aparelhos. Mais vendas, "mais empregos" e, mais importante: mais lucros3. O que todo mundo está esquecendo... é que isso também significa: menos recursos disponíveis, mais poluição, mais propaganda estimulando ainda mais gente a comprar... alimentando esse ciclo vicioso que está levando nosso mundo à ruína.
Do lado humano, consagrou-se uma ideologia dominante de que é importante não apenas "ter", mas "ter o que há de mais novo". Essa mentalidade é sustentada à base da criação de um "buraco" na vida dos seres humanos. Antigamente as pessoas sentiam um vazio, elas iam procurar uma companhia. Hoje, quando elas se sentem vazias, elas compram produtos... afinal, parece que até para encontrar uma companhia se tornou obrigatório ter algum tipo de produto (para poder usar facebook, twitter e outras ferramentas divertidas de "perda de tempo"). E quando ela encontra alguém, em geral ela apenas encontrou outro buraco ambulante e, ambas, juntas, vão consumir em dobro.
É óbvio que não sou contra o consumo. Ele não apenas é necessário como faz parte da vida. Eu sou a favor do consumo. O que sou contra é à "compra sem consumo", isto é: comprar para não usar (consumir = usar, gastar). O consumismo (= comprar sem necessidade, comprar e não usar... comprar livro para a estante ler, comprar MP3 para empoeirar no iPod etc) é uma doença, um vício que faz um mal incomensurável para o ser humano.
Neste aspecto, a mídia e a sociedade, ao impor um padrão de "comprar o novo pelo novo" - sem a contrapartida necessidade que justifique a compra, agem como alguém "pondo para baixo" uma pessoa com problemas, levando-a à depressão, para que ela recorra às drogas para aplacar a depressão. O único problema é que recorrer às drogas não cura a doença, cuida apenas da febre. Mas o que é a doença?
Bem, como as pessoas sempre terão seus problemas - eles fazem parte da vida -, eles não podem ser a doença. A doença, então, é o comportamento da mídia e da sociedade perante as novidades, como se elas fossem a solução para todos os problemas. O ser humano precisa voltar a ver a novidade como seus ancestrais: com mais receio do que alegria. Ter curiosidade, sim... mas com cautela. E esse é um comportamento que precisa ser valorizado.
É com urgência que a sociedade precisa rever seus conceitos, parafraseando a propaganda de uma famosa montadora de veículos. E não vou usar aquele velho argumento "Que mundo queremos deixar para nossos filhos?", já que hoje em dia a cultura do consumo é tão arraigada que ninguém quer deixar nada para os filhos. Aliás, muitos nem filhos querem ter, para não ter que dividir nada com os filhos (nem tempo, nem dinheiro, nada).
O argumento que vou usar é outro: até quando vamos permitir que nos aborreçam para comprarmos a felicidade? Qual é a qualidade de vida que queremos? Você quer continuar trabalhando 16 horas por dia para, no horário em que devia estar dormindo, comprar para tentar substituir o tempo de lazer que lhe roubaram4?
Está na hora de voltarmos a ser pessoas e deixarmos de ser marionetes.
Está na hora de acordarmos para a vida.
(1) Alguém imagina o tempo que demoraria para baixar uma atualização de 150MB do Windows ou do Office usando uma conexão discada de 28.8kbps?
(2) A única coisa que parece se comportar assim é o Universo como um todo, mas a ideia é tão estranha que a grande maioria dos físicos do mundo não se sente confortável com isso (e, acredito, secretamente a maioria deles nutram uma expectativa de que a "prova" de que o universo está em eterna expansão seja falha).
(3) Como gerar mais empregos é incompatível com a sede por crescimento nos lucros - já que empregos geram novos custos -, o que se vê, em geral, é um aumento "extra-oficial" da carga horária dos trabalhadores. E, na mesma linha do que nos é "imposto" como padrão de comportamento para consumo, o funcionário que quer sair do trabalho no horário de seu contrato (e pelo qual é pago) é enxergado como "vagabundo, folgado... a empresa não pode contar com ele". E se o funcionário disser que não vai ficar porque não recebe por isso, ainda será chamado de "mercenário, não veste a camisa etc.). O que não se leva em conta é que, em geral, o funcionário que reclama que não vai receber a mais para ficar mais tempo... não quer receber a mais... ele não quer é ficar além do horário do expediente, porque tem mais o que fazer com a vida dele! Mas por que alguém aceita ficar mais no trabalho? Vejam que maquiavélico... se for para ganhar mais, obviamente é para poder consumir (comprar) mais(!)... e se não for para ganhar mais, é para ser reconhecido, subir na carreira e... ganhar mais... para poder consumir (comprar) mais! Ou seja: sempre é para ganhar mais. Para ganhar dinheiro ou, em algus casos mais patológicos, para ganhar "poder". A questão é: como as empresas podem usar golpes tão baixos, se aproveitar das fraquezas humanas desta forma? É como roubar carteira de bêbado... Que raio de empresas "escravocratas" são essas da atualidade?
(4) Para que você trabalhasse para produzir mais...
Ter, 28/Fev/2012, 5:40
Por: Daniel Caetano
Hotel Califórnia | 1 Voto |
Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!
Edilene trabalhava em um pequeno hotel, há muitos anos da mesma família. Ela e cerca de cinquenta outras faxineiras todos os dias se alternavam em turnos de 3 horas.
Apesar de seu tamanho, o hotel era bastante movimentado, pois seu público era de viajantes que apreciavam o serviço - quartos pequenos com uma única cama e bastante privacidade - e também a forma de cobrança: o viajante pagava pelo tempo que ficava no quarto.
Como a maioria deles usava o hotel apenas como uma parada para dormir, o quarto podia ser alocado para duas ou três pessoas no mesmo dia - obviamente com um período de limpeza entre cada hóspede - o que permitia manter os preços abaixo da média dos outros hotéis da região.
É claro que, com a preferência dos viajantes, o nome do hotel era bastante conhecido e foi assim que, em uma tarde de verão, os funcionários do hotel ficaram sabendo que ele havia sido vendido para uma grande rede hoteleira.
Edilene, preocupada, não faltou em nenhuma das reuniões com os novos donos. E aí vieram as primeiras mudanças:
- O hóspede passará a pagar pelo dia todo (diária) e não mais por hora de uso.
- Os funcionários farão turnos de 4 horas, ao invés de 3, mas trabalharão 2 dias a menos na semana. Isso, explicaram, seria possível porque não é necessario mais limpar um mesmo quarto duas ou três vezes por dia. O salário por hora, frisaram, permanecerá o mesmo.
Edilene não entendeu muito bem o que isso significava, mas achou que seria bom trabalhar menos dias e ganhar o mesmo valor. Só ficou triste porque descobriu que algumas de suas colegas, que estavam há muito tempo trabalhando no hotel e tinham salários maiores - foram demitidas, "para manter os custos de operação".
Mas as mudanças não pararam por aí. Para compensar a redução de carga horária e não prejudicar outros serviços, algumas tarefas, como arrumar a cama e lavar suas roupas de banho e cama serão tarefas dos hóspedes que, no entanto, devem ser orientados pelas faxineiras. Além disso, os hóspedes também são responsáveis por informar quais itens consumiram do frigobar.
Edilene desconfiou que isso não fosse funcionar, mas começou a fazer como fora orientada. O tempo foi passando e algumas consequências ficaram visíveis.
Como agora a cobrança era feita por diária, como os outros hotéis, esse hotel passou a não chamar mais tanta atenção e o número de hóspedes começou a cair. Outra razão para isso é que, com a redução do número de dias de trabalho dos funcionários, os hóspedes começaram a se ressentir porque, em alguns momentos, precisavam de algum serviço e não havia funcionários para atendê-los.
Além disso, como nem todos os serviços se reduzem proporcionalmente à redução de hóspedes (limpeza das áreas comuns, cozinha, manutenção) com o menor número de dias de trabalho, alguns desses serviços começaram a não ser tão bem feitos, já que os funcionários tinham menos tempo para realizá-los.
Por outro lado, é claro, muitos hóspedes não arrumavam sua cama e nem lavavam suas roupas de cama e banho, pois achavam isso um absurdo - completamente diferente de qualquer outro hotel. Mesmo que o hotel fizesse um discurso de que isso era importante para que os hóspedes tivessem a certeza de que as roupas eram bem lavadas e também para que eles adquirissem uma independência que o "mundo" cobra, a grande maioria não fazia o serviço.
As coisas começaram a não funcionar, então os gerentes chamaram os funcionários e apresentaram suas soluções.
Para combater o problema dos serviços não realizados pelos funcionários, uma lista de tarefas diárias semestral foi proposta, e o funcionário teria que dia-a-dia entrar em um sistema de computador criado especialmente para isso. Cada funcionário teria que cumprir exatamente o que estava na lista, para que fosse possível trocar funcionários entre filiais do hotel e nenhum deles ficasse sem saber o que deveria fazer em que dia.
Além disso, os funcionários ficaram incumbidos de verificar o consumo dos hóspedes, informando-os no sistema, além de arrumar a cama e lavar os lençóis e roupas de banho quando os hóspedes não o fizessem.
Temendo a impossibilidade de cumprir a quantidade de tarefas no tempo disponível, alguns funcionários protestaram, mas os diretores garantiram que seria possível, pois se bem orientados a maioria dos hóspedes faria seu serviço e os funcionários teriam apenas que executar as tarefas daquele pequeno número de hóspedes que não seguissem as orientações.
Já bastante preocupada, Edilene começou a se esforçar batante e a tentar cumprir todas as suas tarefas. Inicialmente começou a chegar uma hora mais cedo e ir embora uma hora mais tarde, mas depois de poucos dias tomou uma bronca, pois estava batendo ponto fora de horário. Por mais alguns dias tentou chegar mais cedo e bater ponto apenas na hora da entrada oficial, mas por algumas vezes, envolvida no trabalho, acabou esquecendo... e teve um desconto em seu salário.
Resignada, começou a colocar um despertador para tocar na hora de bater o ponto, mas mesmo assim, chegando e saindo mais cedo, não era possível fazer tudo aquilo, em especial o lançamento no sistema. Como os quartos não tinham nenhum tipo de equipamento, ela tinha que anotar tudo que fizera e tudo que o hóspede havia consumido em um papel e, depois, sentar e lançar no sistema.
Para manter as coisas em dia, Edilene começou a deixar para lançar as informações no sistema a partir de sua casa, mas o trabalho de sua casa muitas vezes a impedia de lançar rapidamente as informações e, obviamente, tomou uma bronca da chefia: "As informações têm de ser lançadas no sistema imediatamente para que possamos cobrar dos clientes! A informação de consumo tem de estar no sistema no mesmo dia!"
Sendo assim, Edilene passou a usar as horas que tinha a mais (por chegar mais cedo e sair mais tarde) para fazer lançamentos no sistema e começou a levar os lençóis e roupas de banho do hotel para lavar em sua casa, nos dias em que não trabalhava no hotel, sem se preocupar em gastar sua água, sabão, energia elétrica e tempo com isso.
Entretanto, nem tudo isso resolvia os problemas dos hóspedes, que continuavam em número decrescente. Com isso, os custos se mantinham, mas as receitas não. E a diretoria do hotel não sabia mais o que fazer.
Então, eles tomaram uma decisão: vamos colocar uma segunda cama nos quartos e alugar cada quarto para mais de uma pessoa. "Se elas se hospedam no mesmo horário, é porque têm algo em comum", foi a argumentação. O que parecia uma boa idéia, virou um pesadelo quando colocaram um colchão entre as duas camas, para acomodar um terceiro hóspede em quartos que mal cabiam dois.
Isso acelerou a queda dos hóspedes e, em uma medida desesperada, os diretores pegaram as planilhas dos funcionários que mais ganhavam e, excluindo os 10 funcionários mais bem remunerados - aqueles que iam decidir quem demitir - cortaram da folha os técnicos de manutenção, cozinheiros, jardineiros... todos os funcionários especializados. Restaram apenas as faxineiras que, apesar de especializadas, recebiam as menores remunerações.
Mas foi apenas depois da demissão que os diretores se deram conta de que alguém precisava fazer a comida, a manutenção etc. E, sendo assim, escolheram algumas das mais eficientes faxineiras e as promoveram, com um aumento de 10% em seu salário - o que ainda ficava bem abaixo do salário dos técnicos especializados anteriores - e lhes orientaram com relação às novas funções: "vocês precisam fazer essas tarefas... mas vocês não podem deixar de cumprir suas tarefas como faxineiras também".
Edilene, por exemplo, foi promovida a técnica de manutenção. Inicialmente ficou toda feliz porque ia ter um aumento de 10% em seu salário e, sendo assim, ao invés de começar a chegar uma hora mais cedo e ir embora uma hora mais tarde, começou a vir também nos outros dias vagos, fazendo jornadas de 6 horas todos os dias, ao invés de 4 horas em três dias da semana. Mas valia a pena, afinal, ela havia sido promovida... e ganhava 10% a mais!
Infelizmente, Edilene começou a perceber que, para exercer o cargo de técnico de manutenção não bastava boa vontade e vir mais vezes. Faltava-lhe o conhecimento. Sendo assim, ela começou a se esforçar muito e fazer o melhor que podia, mas os resultados não vinham. E o mau desempenho na nova atividade fizeram seu desempenho cair também na faxina... e com isso veio a depressão e os problemas de saúde.
Ninguém entendia como uma funcionária que havia sido promovida poderia estar em depressão tão profunda e tão mal de saúde. De qualquer forma, como todos os funcionários eram avaliados segundo uma planilha no sistema, seu fraco desempenho rapidamente foi percebido e, após uma longa discussão sobre como ordenar a planilha pelos funcionários de pior desempenho, ela foi demitida.
Seg, 23/Jan/2012, 7:26
Por: Daniel Caetano
Sherlock Holmes: A Game of Shadows | 1 Voto |
Na semana passada fui assistir ao novo filme de Sherlock Holmes: Um Jogo de Sombras. Não diria que me decepcionei - o filme é divertido e faz bem o papel de entretenimento ao que se propõe, mas diferentemente do primeiro, tenho algumas reservas com relação ao resultado.
Primeiramente, a forma de contar a história, me parece, deixa um pouco a desejar; aquele "feeling" do livro que existe no primeiro, em que os raciocínios de Holmes são desvendados aos poucos, simplesmente não existe. Em alguns momentos as decisões de Holmes parecem absolutamente arbitrárias; adianto que não o são. Em todos os casos percebi elementos sutis no cenário ou em algum diálogo que embaram as decisões dele... mas não é característica do personagem ou de suas histórias deixar de explicitar as coisas.
Apenas para citar um exemplo: em um momento Holmes pensa que uma bomba estará em um local. O que leva a essa conclusão é um pedaço de cenário que está em um depósito e que aparece de relance. De acordo com o contexto da cena, faz sentido a conclusão dele. Pouco depois, já no local, ele descobre que se enganou, e que a bomba está em outro lugar... e não há explicação clara também de como ele identificou o local correto, embora alguns diálogos anteriores forneçam esses elementos.
Isso, para mim, descaracterizou um pouco a forma de contar a história. As histórias de Holmes tem um elemento fundamental que é justamente de ele mostrar o quão triviais são as observações dele, como não há outra alternativa, e que portanto qualquer um poderia ter feito o mesmo que ele.
De qualquer forma, eu tenho a impressão de que isso é resultado de uma montagem "ruim"... provavelmente para encurtar o tempo de filme (já que haveria espaço para quel Holmes fornecesse as supracitadas explicações, mas elas tomariam tempo e prejudicariam a cadência de ação do filme). Seria divertido ver uma possível futura versão do diretor (já que o Guy Ritchie mostrou, no primeiro filme, que entende muito bem como contar uma história de Holmes).
A segunda ressalva que tenho se refere ao argumento escolhido. Diferentemente do primeiro filme, que conta uma história que se insere com perfeição entre outras histórias canônicas de Holmes, o segundo filme optou por contar uma história de impacto já existente (Memórias de Sherlock Holmes: O Problema Final).
Primeiramente, acho que não é uma escolha interessante para um segundo filme, em especial por apresentar a morte de um dos melhores vilões de Holmes - e que certamente poderia ser melhor explorada em um filme com história diversa daquelas dos livros. Mas, a despeito disso, é uma história relativamente curta, com muita conversa entre Holmes e Watson e pouca ação. Isso poderia ser bom: como a história do livro começa depois de muita disputa entre Holmes e Moriarty, o filme poderia contar estes elementos e finalizar com a história do livro (encontro com Watson, flashback do encontro de Holmes e Moriarty, viagem de trem e luta com Moriarty em Raichenbach Falls)... mas o filme não se aproveitou disso.
Preferiram escrever uma história nova misturando diversas bolas... o que pode complicar um pouco futuros roteiros (que talvez tenham que sair mais da linha da história canônica): nos livros, o casamento de Watson ocorre muito tempo antes do confronto com Moriarty; além disso, Watson já não participa das aventuras de Holmes há um bom tempo... e é simplesmente convidado - e aceita - a participar da caçada final ao Professor Moriarty.
Para complicar ainda mais a situação, o filme vai além do fim da história "O Problema Final" (que não vou contar para evitar spoiler), sendo que, pelo cânone, Mary morreria no período (longo) entre o confronto com Moriarty e os eventos que aparecem no final do filme... Quando então Watson voltaria a viver com Holmes.
Kudos para os escritores/roteiristas do primeiro filme, reprimendas para os escritores/roteiristas do segundo, que zoaram com a linha do tempo dos personagens de forma absolutamente desnecessária!
No geral, porém, é um bom filme e renderá boa diversão aos fãs de Holmes.
Seg, 5/Dez/2011, 14:41
Por: Daniel Caetano
Por Quem os Sinos Dobram: Parte Final | 6 Votos |
Atenção! Este artigo não se inicia aqui! Caso você tenha perdido, veja a primeira parte!
Nos artigos anteriores foram levantadas as razões pelas quais a elevação da taxa básica de juros é considerada ruim... assim como os interesses que fazem com que "os especialistas" do setor defendam tanto a elevação dos juros.
Neste artigo será apresentada a posição um tanto incômoda do governo bem como algumas das medidas que podem ser tomadas ao invés da elevação da taxa SELIC para controle da inflação. Finalmente, será feita a conclusão desta série de artigos econômicos, ressaltando a importância do tema tratado.
E Se o Governo Segue a Cartinha do "Mercado"?
Quando, a despeito de todos os aspectos apresentados nesta série de artigos, o governo resolve seguir a cartilha "ortodoxa" do "mercado", o resultado é, frequentemente, devastador. Não se trata aqui de elocubrações e hipóteses: trata-se de mera observação. Aqueles com mais de 30 anos certamente devem se lembrar das consecutivas crises pelas quais nosso país passou, até 2002, com pequenos períodos de tranquilidade.
E o que ae via naqueles momentos? Empresas quebrando, aumento da taxa de desemprego, corrosão do poder de compra dos salários (o famoso arroxo salarial)... e nada se resolve enquanto o governo não vai pedir dinheiro ao FMI, como já comentado.
Neste momento, o FMI e os analistas sugerem que o "estado seja enxugado"... isto é: privatizar empresas, demitir funcionários, reduzir o atendimento ao público... todas aquelas coisas que o "mercado" chama de "aumentar a eficiência", desligando completamente o conceito de eficiência do conceito de qualidade.
Os gênios do mercado dizem, nesta situação, que com uma redução dos gastos do governo haverá desaquecimento da economia (sem pesar demais sobre o cidadão), já que o governo é um grande consumidor. Com isso, supostamente, os preços cairiam, já que a oferta se manteve, mas a demanda caiu.
Entretanto, apesar disso, a razão que os motiva a pedir para que o governo faça tudo isso, garantindo a tão propalada "austeridade fiscal", é fazer sobrar mais grana pra pagar juros!
Observem que lindo! Vamos ferrar ainda mais o país para garantir que os responsáveis pelo desastre sejam bem pagos e remunerados!
Qualquer semelhança com o que vem acontecendo nos EUA e Europa não é mera coincidência!
Quais São as Alternativas do Governo?
Pela forma com que foram conduzidos estes artigos pode parecer que o governo está em um mato sem cachorro... isto é: pode ficar parecendo que o governo tem de aceitar a inflação e pronto.
Mas não é bem por aí. Na verdade, o governo não precisa aceitar essa situação pacificamente.
Antes de mais nada, entretanto, é importante ressaltar que alguma inflação sempre será esperada em um país em desenvolvimento: um país que tem demanda crescente, isto é, que sua população está melhorando de condição de vida, sempre terá alguma inflação14.
Essa observação se faz necessária porque o senso comum diz que, se inflação é ruim... deflação deve ser bom... mas isso não confere com a realidade. A deflação é, normalmente, resultado de um país em que a oferta é maior que a demanda... ou seja: as pessoas não estão consumindo, e isso é a "morte" no sistema capitalista. Usualmente as pessoas deixam de consumir quando temem não conseguir honrar seus compromissos, uma sensação que identifica períodos de crise. Em outras palavras, a deflação é, usualmente, um reflexo de que as pessoas não estão melhorando seu padrão de vida... o que é a contra-mão do que um governo deve buscar.
A inflação, assim, não é exatamente um fenômeno ruim. A inflação descontrolada - ou a hiperinflação - é que é problemática. E, para evitar essa situação, o governo tem diversos instrumentos para lutar. Não tenho conhecimento para citar todos, mas alguns podem ser evidenciados.
Um primeiro exemplo é a redução do IPI (Imposto sobre Produto Industrializado) para estimular a produção e queda de preços dos produtos, mesmo com aumento do consumo. Em paralelo a um aumento de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que corrói os ganhos de aplicações financeiras, a redução de IPI pode incentivar alguns investidores que estavam "sentados" em títulos públicos a investir em produção, aliviando a pressão inflacionária (lembre-se: aumentar a produção reduz inflação tanto quanto reduzir o consumo! O que importa é o equilíbrio oferta-demanda!)
Por outro lado, caso exista um risco de grande fuga de capital investido por estrangeiros (o que inundaria o mercado de reais, que se desvalorizaria muito rapidamente... ou seja: agravando a inflação) o governo pode optar por reduzir o IOF - estimulando a entrada de capitais.
Um outro exemplo de medida que pode ser adotada pelo governo é o combate à parcela da inflação "importada" (isto é: produtos cujo preço sobe no mercado internacional, como é comum com o açúcar e petróleo) ajustando (para baixo) "impostos" de consumo (que são aqueles impostos e contribuições cobrados sobre os produtos comercializados, como a CIDE - Contribuição de Intervenção sobre Domínio Econômico - dos combustíveis).
Se houver a necessidade de reduzir o consumo, o governo pode aumentar o Empréstimo Compulsório15, reduzindo o capital que os bancos possuem para emprestar e, assim, conseguindo o mesmo efeito de um aumento de juros, porém sem os custos adicionais para o governo.
Quando o governo percebe que há apostas na valorização do Real (como a citada aquisição de dívidas em Dólar para realizar investimentos em Real), há algumas taxações que o governo também pode fazer para reduzir a atratividade deste tipo de negócio, como de fato o governo fez recentemente.
O cabedal de medidas que podem ser adotadas pelo governo é amplo, compondo o que são chamadas, no jargão, de "medidas macroprudenciais". O taxa de juros básica é apenas um dos instrumentos - e um dos mais delicados, pois facilmente produz resultados indesejados.
Conclusões
Economia não é um assunto fácil de digerir: tudo é interrelacionado e, ainda por cima, as consequências de qualquer mudança em um parâmetro dependem não apenas da lógica, mas também da expectativa e do comportamento das pessoas.
Por outro lado, é importante saber que, nesse mundo, ninguém dá ponto sem nó... os grandes investidores menos ainda. Os grandes investidores fazem lobbies no palácio do planalto, "compram" matérias de analistas econômicos, plantam boatos... tudo que for necessário para ganhar mais. Eles não estão preocupados com você ou com o Brasil pois, depois de ganhar muito dinheiro, eles sempre podem ir para Genebra ou qualquer outro lugar do planeta.
A única forma de não ser ludibriado a torcer pelo próprio fracasso é conhecer o mundo que nos cerca, quais são as forças envolvidas e quais são as ações que regem o universo. É complicado, mas vale o esforço.
Finalmente, ainda que dioturnamente se diga que o governo "não pode baixar os juros" ou que ele "tem que baixar, mas não agora"... ignore, meu caro leitor. Juros muito altos significam remuneração sem merecimento e, portanto, não devem existir. Vez ou outra o governo precisa fazer um ajuste para cima, mas essa não deve ser a regra e muito menos a primeira alternativa para controle de inflação.
Daniel Caetano
(14) A razão para isso é que as empresas não gostam de correr riscos desnecessários: elas sempre esperam a demanda subir (fazendo os preços subirem) para então investir e produzir mais (equilibrando a oferta com a demanda), mas com os preços já em um patamar mais elevado. E isso não é errado, é natural e esperado: se a empresa investir (ou seja: gastar dinheiro) antes de existir demanda, além de correr o risco de que a demanda nunca apareça, ainda por cima isso inundará o mercado com produtos que não possuem (ainda) uma procura, fazendo com que o preço despenque. Essa é a razão pela qual um país em que a demanda está crescendo devido à melhora do padrão de vida terá de saber conviver com alguma inflação.
(15) O empréstimo compulsório é uma porcentagem dos recursos de um banco que o governo exige que sejam depositados no Banco Central. Esse empréstimo tem diversas finalidades, como garantir certa higidez dos bancos (isto é: esse dinheiro que está com o governo não pode ser emprestado... é um recurso de disponibilidade e liquidez garantida). Os bancos odeiam aumentos no empréstimo compulsório porque é um recurso que fica "travado", isto é, não pode ser emprestado e, portanto, não gera os lucros estratosféricos que são de praxe no mercado.


