Qui, 25/Set/2008, 5:31
Por: Daniel Caetano
Delivery Vai, Delivery Vem... | 1 Voto |
Vamos fazer um retrospecto: o tal "rodízio de caminhões", ainda que não seja uma medida realmente efetiva, foi criado para reduzir a circulação nas principais vias do centro da cidade de São Paulo, uma cidade cujo sistema de transporte ... Leia mais!
Dom, 7/Mar/2010, 11:39
Por: Daniel Caetano
Um Retrato da Depressão | 3 Votos |
Uma querida conhecida está passando por uma situação muito difícil e, em uma longa conversa com ela, eu tive oportunidade de relembrar um dos momentos mais difíceis da minha vida. Não sei quantos de vocês que me leem já passaram pela incomensuravelmente dolorosa experiência da depressão, mas espero que bem poucos de vocês tenham passado por isso... ou venham a passar.
Não é uma lembrança que me traga qualquer tipo de sensação ruim; em parte, até pelo contrário. Por quase dois anos eu travei uma luta infinita com a depressão e, sozinho, quase perdi a batalha para sempre. Tinha muito a agradecer ao médico que me ajudou a curá-la, não tivesse ele feito o que fez com meu pai, eximindo-se da responsabilidade de tratá-lo quando surgiram os primeiros sinais do diagnóstico de câncer.
Mas... defeitos todos temos. A contribuição dele para minha vida, porém, foi digna de nota e, assim, há gratidão. Se são as pessoas especiais que nos ensinam como viver, ele foi uma delas. Houve uma pessoa em minha vida que me mostrou um caminho para a mente, o corpo e a alma. E ele me mostrou que as coisas tinham de ser ainda um pouco diferentes do que eu havia imaginado.
O que aprendi com essas pessoas e com a experiência - isto é, quebrando a cara - é que a nossa vida é como um rio. Ainda que algumas pessoas pensem que o rio não tem um propósito específico, na verdade ele tem o propósito que nós lhe atribuímos. Com a nossa vida é a mesma coisa: nós atribuímos um sentido à ela, seja quando escolhemos nossa profissão, quando escolhemos uma namorada ou esposa, quando escolhemos uma vida de viagens ou enraizada1.
Cada pessoa faz o que bem entende com seu rio. Algumas pessoas escolhem construir uma represa, cultivar animais aquáticos... algumas resolvem até murar seu rio. Há, ainda, pessoas que decidem que seu rio serve para aplacar a sede de outrem. Cada uma dessas escolhas tem suas beneces e seus perigos e não há, em princípio, como falar em "melhor" ou "pior", "certo" ou "errado". Há apenas "diferente".
Hoje falarei sobre as pessoas que decidem que seu rio, sua vida, será uma vida de doação, ou seja, pessoas que colocam o bem-estar alheio acima do próprio, independente de ela conseguir o resultado que deseja - ajudar efetivamente - ou não. Ninguém precisa ser padre/freira ou ter uma entidade beneficente para ter uma vida de doação.
O fato é que essas pessoas possuem uma tendência natural de darem cada simples gota de energia de seu corpo e de sua alma, seja naquilo que fazem, envolvendo pessoas ou não. Essas pessoas se sentem bem com isso, com o fato de proporcionarem bem estar, de ajudarem alguém, ainda que na maioria das vezes não haja reconhecimento algum - o objetivo não é obter reconhecimento, é se sentir parte do processo.
O problema é que todo rio tem uma capacidade máxima para a tomada de água, isto é, existe um limite para a quantidade de água que se pode retirar de um rio sem comprometer sua perenidade, sem comprometer sua vida. Quando um rio é muito exigido, quando é retirada água além de sua capacidade, seu ciclo de vida é alterado, mudanças ocorrem nele e em seu entorno, que levam fatalmente ao esgotamento da capacidade do mesmo, podendo até secar a nascente.
A analogia com os seres humanos é direta. Existe um limite para o quanto podemos "nos doar", ainda que queiramos muito fazer o bem aos outros. Sentir que está fazendo o certo não é garantia da perenidade, assim como matar a sede da criança hoje não significa que será possível repetir o feito amanhã. A nascente pode ter secado até lá, se os cuidados devidos não forem tomados.
Se controlado, um indivíduo pode ter uma vida dedicada àquilo que lhe faz bem. Descontrolado, porém, suas energias se vão, rapidamente, e, no final, ele terá conseguido fazer muito menos do que seria possível se tivesse mantido o controle. Isso não é fácil de ver; é comum que o limite seja transgredido e, com o tempo, as alterações no ambiente começam a ser notadas. As alterações causam um ciclo vicioso que empurram a nascente ainda mais rapidamente para sua extinção. E isso acontece conosco também. A exaustão emocional pode causar o estado conhecido como depressão, que é um ciclo vicioso do qual é muito, muito difícil sair.
Erroneamente, no meu entender, muitos descrevem a depressão como uma tristeza profunda. Eu não a descreveria assim. A tristeza profunda existe, mas ela é apenas uma consequência: a depressão é como se o inferno se instalasse em sua alma. Você se torna parte do inferno e o sofrimento é incomensurável. Aquilo que seria besteira em qualquer outra situação se torna uma tábua de mármore fervente na qual você precisa se deitar. E, apesar disso, você não consegue ver razão para não fazê-lo. Não é que não parece haver alternativas... é que todas as alternativas parecem igualmente despropositadas e sofridas.
Toda a capacidade de dicernimento sobre o que é uma boa direção para a sua vida... se perde. Todos os caminhos são de chamas e dor, tudo é tristeza e o mundo que você vê reflete isso. Você está isso e o mundo se torna um grande espelho.
Cada pessoa precisa encontrar forças para caminhar; a parte mais difícil é saber, no íntimo, que estamos vivendo em uma "Evil Matrix", que aquilo não é o mundo de verdade e que, apesar de não parecer haver saída, ela existe sim. E o caminho para ela é o caminho que escolhermos se quisermos sair, seja ele qual for, desde que o mantenhamos até o fim. Quando chegarmos bem perto da borda da "bolha" em que estamos vivendo, será possível ver lá fora, e entender do que é feita... e assim ter condições de sair.
O caminho, entretanto, é árido. Cheio de sentimentos de dor e sem referenciais. É como andar por um deserto, após uma duna vem sempre outra duna... e aquilo parece que nunca vai acabar. E se não mantivermos a direção, não vai mesmo! É preciso manter a direção pois só assim, em algum momento, alcançaremos a borda do deserto. Essa é a parte mais difícil, pois o processo pode demorar anos - talvez boa parte da vida - e não há qualquer tipo de indicação de progresso, não há qualquer motivação, nada.
Por essa razão, os medicamentos são uma faca de dois gumes. Por um lado, eles permitem que se tenha uma visão um pouco mais "limpa" do mundo real - no fundo eles agem como filtros para a nossa mente, permitindo que notemos algum progresso e nos mantendo mais animados. Por outro lado, eles podem fazer com que a pessoa se disperse e não veja motivos para parar de vagar pelo deserto, para sempre, caindo num processo de dependência.
Assim como quem quebra uma perna precisa de uma muleta para caminhar, quando a nossa situação emocional é "feia", pode ser que precisemos da medicação. Mas, assim como ninguém quer andar de muleta para sempre, é preciso ter noção clara de que temos de achar nosso caminho para que não precisemos mais de medicamentos2.
É preciso ter esse desejo racional e bem arraigado, porque estes remédios afetam nossa capacidade de avaliação também. Se o efeito depressivo nos faz ver tudo horrível, eles têm uma tendência a nos fazer ver tudo "bom". E isso pode ser ainda mais perigoso, porque a falta de parâmetro continua, mas também podem sumir o instinto de sobrevivência, o amor próprio e, com isso, criar uma situação ainda pior que a original. É preciso muita responsabilidade para receitar tais medicamentos e, ainda mais, para tomá-los.
Eu passei por isso do meio de 2003 até o início de 2005; consumi medicamentos do meio de 2004 até o fim de 2004, quando juntamente com o médico decidi que já tinha forças para continuar adiante mesmo sem ainda ver a luz no fim do tunel. Foi um momento difícil, onde as pessoas de fora não podiam me ajudar e preferia ter podido estar longe delas, para não tê-las machucado.
Apesar de todas estas lembranças difíceis, eu fico feliz de poder olhar para trás e ver que eu superei tudo isso. E serei eternamente grato à força de uma lembrança, que me impulsionou adiante, e ao médico, que me ensinou que vez ou outra é muito importante não apenas olharmos o mundo por um outro prisma, mas aprender a vivê-lo também desta outra forma.
(1) Na verdade, nós podemos atribuir um sentido em nossa vida e este sentido nortear as nossas escolhas... ou fazer escolhas sem pensar muito e elas definirem o nosso norte. A ordem em si não importa muito.
(2) Obviamente existem casos em que os remédios são necessários numa base contínua, isto é, nunca poderão deixar de ser tomados, mas esses são casos diferentes dos que estou colocando aqui!
Sáb, 6/Mar/2010, 10:11
Por: Daniel Caetano
Pensamentos | 2 Votos |
Às vezes me encontro em mar revolto, envolvido nas ondas do tempo; ao sabor das correntes me abandono, pela mera curiosidade de saber onde irei me encontrar.
Nestes momentos uma avalanche atinge meus pensamentos, me alimenta de maneira inesperada, encurta as noites de sono, faz o tempo parar.
Minhas mãos se tornam pena e as letras são minha alma... necessidade de extravasar, drenar o mar. E tudo que se drena são pensamentos... completos, indiscretos, impublicáveis.
Daniel Caetano
Qua, 3/Mar/2010, 11:46
Por: Daniel Caetano
Papo de Camarada | 1 Voto |
- Vai, vai! A mina tá dando mole, cara!
- Dando mole uma pinóia, Zé.
- Tá sim, cara. Olha lá! Ela já te olhou três vezes.
Rafael fez uma cara de quem não acredita no que está ouvindo, olhou sério para a mulher em questão e respirou fundo. Baixando a cabeça e movendo-a de um lado para o outro em negação, pensou por três segundos e olhou sério para seu amigo.
- Ô animalzinho, ela não me olhou. Ela olhou pra cá. Não percebe que tem um caminhão de diferença?
- Percebo que você vai furar de novo.
- De onde você tirou que ela tá afim? Não tô vendo um só sinal.
- Cara, ela olhou pra cá três vezes. TRÊS vezes.
- Isso. Três vezes em três horas. Uma ótima média.
- Mas olha que gostosa! Não vale uma investida?
- Dinheiro na bolsa é investimento... isso é perda de tempo, pura e simples.
- Tá, tá... mas olha que rostinho! Ah, eu perdia um tempo com isso!
- Rostinho? Cara, a mulher tá com cara de quem comeu romã verde... provavelmente brigou com o namorado, no máximo tá querendo fazer ciúmes... e, se você tá tão a fim de perder tempo, por que não vai lá?
- Porque ela tá olhando pra você, não para mim.
De repente Rafael se sentiu em um dilema. Seus olhos perderam o foco e ele começou a pensar no que estava acontecendo... E se ele estivesse amargo mesmo? E se a moça estivesse dando mole e ele simplesmente brincando de avestruz? Uma porção de interrogações começaram a aparecer sobre sua cabeça.
- Ahá! Eu conheço essa cara. Você está em dúvida.
Rafael focou lentamente o olhar em seu amigo e viu ele ali, vermelho, rabo pontudo, chifres, e o copo de cerveja já se transformara num afiado tridente em sua mão.
- Zé, me deixa em paz. Você fica me tentando... só quer ver eu quebrar a cara pra depois ter história pra contar. Faz tempo que não levo fora... e tá ótimo assim.
- É, é verdade. Você não vai sempre, mas quando vai... cata.
- Isso, e está ótimo assim. É assim que eu gosto.
- Faz assim não, cara. Você tá tratando caviar como arroz com feijão.
A cada conversa mole, a cada comparação absurda que Zé fazia, Rafael se repetia a pergunta clássica: por que ele ainda saía com esse cara?
- Zé, é por isso que você só se dana. Que tipo de comparação é essa?
- Ah, cara... não gosto de ver um amigo deixar uma mulher dessas passar em branco.
- Você não vai me dar paz... não vai me deixar beber minha cerveja... enquanto eu não for lá falar com ela, né?
- Agora você pegou a idéia.
Respirando fundo, Rafael levantou-se e caminhou na direção oposta à da garota... e desapareceu em meio à multidão. O Zé ficou olhando meio atônito, pensando que teria de voltar a pé pra casa. Pediu mais uma bebida e ficou contemplando "a paisagem", como costuma chamar. Como quem não queria nada, olhou novamente para o lado da mulher que tinha sido o assunto da noite e, surpreendendo-se, viu Rafael ao lado dela.
Ele pareceu pedir alguma informação e depois se sentou ao lado dela no bar. A conversa seguiu animada por um tempo, os dois se levantaram e foram para a pista. Já se sentindo um voyeur, Zé ainda "pegou" o momento em que os dois se beijaram e resolveu ir cuidar da própria vida.
Achou alguém, dançou, riu bastante, mas essa não era sua noite. Não estava a fim de nada e, talvez, esse teria sido o motivo pelo qual estimulou tanto seu amigo. Depois de algum tempo, cansado, foi até o bar e pegou uma tequila. Já estava batendo um papo animado com o barman quando sentiu uns tapinhas nas costas.
- Então...
- Então...?
- Valeu.
- Disponha.
Daniel Caetano
Ter, 2/Mar/2010, 9:41
Por: Daniel Caetano
Liberdade | 2 Votos |
Quanto mais o tempo passa, mais percebo como a vida é dinâmica, com diversas cadeias de acontecimentos paralelos que nos alentam e preocupam, em tantas situações distintas, incomparáveis, todas competindo por nossa atenção.
Tenho a tendência de me prender a uma ou outra; talvez seja o comportamento natural humano. Mas me debato com isso, não aceito: a vida não é uma sequência única de fatos encadeados. Somos como um elo compartilhado por muitas correntes, às quais nos prendemos por vontade. Cada corrente, um desejo, um objetivo.
Em alguns momentos, o tempo puxa cada corrente para um lado diferente... e não conseguimos sair do lugar. As escolhas se tornam desafiadoras, mas os caminhos são claros: organizá-las, abandoná-las ou rompermo-nos.
Organizá-las significa aprender sobre cada um destes desejos aos quais nos prendemos, entender porque não estão se movendo em consonância e, se possível, modificar alguma coisa - em geral em nós mesmos - para que todas as correntes formem uma forte e única cordoalha, representante da convicção do futuro que desejamos.
Abandoná-las significa entender que nem sempre é possível incluir todos os nossos objetivos em nossa vida, ao mesmo tempo, num dado instante. É preciso saber abrir mão daquela corrente que se recusa a se tornar uma com sua vida, ainda que num momento futuro pretendamos voltar a elas. Identificar essas correntes dissonantes exige uma profunda análise, nem sempre simples, mas perfeitamente possível.
Rompermo-nos significa que não demos a devida atenção à organização e à escolha das correntes que formam nosso caminho. As pressões foram tão fortes, cada uma em sua direção, que acabamos nos expurgando de qualquer uma delas. Desconfortável, desagradável e desnecessário. O caminho das escolhas estava lá, não era preciso nenhum tipo de ruptura. Não era preciso deixar o tempo escolher por nós.
Somos elo e escolhemos nossas correntes. Cada elo só se liga a outro, e as correntes não esperam por ninguém.
No fundo, é disso que se trata a liberdade.
Dom, 28/Fev/2010, 10:00
Por: Daniel Caetano
The Greatest Strenght | 1 Voto |
A cold breeze came through the mist,
The darkest horror uprises from amidst.
There was an insidious scent in the air,
An ominous feeling no one could bear.
The confidence was his last resort,
And now there was no way to abort.
Almost no supplies inside his pack,
There wouldn't be a fucking way back.
Temptation soaked his troubled mind,
Thrashing he awaits as invalid blind.
Arising from the mind's darkest grave,
A last drop of energy he should save.
Anything else in this horrific life,
An stupid, deadly pointless strife.
Those fears follow those who endure,
Therefore persist they will for sure.
Daniel Caetano
Sex, 26/Fev/2010, 18:31
Por: Daniel Caetano
Debutante | 4 Votos |
Obrigado,
Por ter tomado carvão por diamante;
Por ter sentido como nunca antes;
Por ter levado uma vida adiante;
Por ter tornado os dias radiantes...
Obrigado.
Qui, 25/Fev/2010, 7:13
Por: Daniel Caetano
Acidentes | 2 Votos |
Fernanda não conseguia deixar de pensar no dia "perfeito" que estava tendo, não faltava mais nada. Ela estava ainda com um olhar perdido, incrédulo, enquanto observava a porta do carro da frente se abrir e, de dentro, não parava de sair um sujeito louro e forte.
Em silêncio, observou o "alemão" aproximar-se com cara de poucos amigos. Não teve a menor vontade de se levantar ou sair do carro. O homem se debruçou na janela.
- E então, senhorita... não quer ver a obra de arte?
Fernanda permaneceu muda. Queria dizer algo, mas não sabia o quê. E, aparentemente, se soubesse... também não conseguiria dizê-lo. Já demonstrando sinais de muita impaciência, o homem continuou:
- Olha, é melhor a senhorita sair para ver o estrago, a gente combina como vai resolver o problema e seguimos com nossas vidas. Eu tenho mais o que fazer hoje e, sinceramente, não estava pensando em perder muito tempo por aqui.
Dizendo isso, abriu a porta e a convidou a sair de seu próprio carro. Fernanda olhou para o assustador gigante nórdico e, meio que no automático, saiu. Sua cabeça estava completamente perdida em devaneios, em todos aqueles problemas que tinha para resolver. Não precisava de mais um, mas há momentos em que não há muita escolha.
Caminhou ao lado do homem e, mesmo sem muita vontade, observou com curiosidade o quadro dantesco que estava diante de ambos. O estrago tinha sido grande!
- É, foi feia a coisa. Não vai sair barato.
- Eu já imaginava isso - respondeu contrariado o nórdico.
- E provavelmente não vai ser rápido também. É possível abrir mão dele por algum tempo, não?
- Dado que o estrago já está feito, não temos muita alternativa. Quem vai fazer o serviço?
- Eu já conheço uma equipe legal. Trabalham direito. Fica como novo, nem dá pra perceber.
- Ah! Ótimo!
Fernanda ficou em silêncio por algum tempo e, por fim, perguntou:
- Mas como foi que isso aconteceu?
- É sempre distração de alguém, não? - Respondeu o homem com alguma displicência e irritação aparentes - As pessoas não prestam atenção no que fazem e acabam destruindo o patrimônio alheio.
- Mas já havia algum problema antes? Porque, assim, tá muito feio isso. Não acredito que tenha ocorrido todo este estrago nesta única vez.
- Ah, não! - continuou o homem - já tinha um ou outro probleminha. Por exemplo, aquele problema no canto da pintura já estava lá. Esse risco também. E essa parte aqui é desbotada desde quando eu o vi a primeira vez.
- E você vai querer que tudo seja consertado?
- Claro! Já que vai mexer, é melhor consertar tudo de uma vez.
Fernanda deu uma última olhada mais de perto e, finalmente, disse:
- Ok, então vamos fazer o que precisa ser feito. Como você pretende pagar?
- Bem, dado que ele é propriedade do museu, acho que o museu cobrirá todos os custos. Você não precisa se preocupar com isso. O importante é a qualidade do serviço realizado.
- Ótimo. Vou providenciar que o serviço se inicie hoje mesmo.
Colocando o avariado quadro dentro de seu carro, Fernanda deu partida, ainda olhando para o curador, pensando que se sobrecarregaria para fazer mais essa restauração em um mês tão atrapalhado... justo hoje que havia brigado com seu noivo. De qualquer forma, o dinheiro viria bem a calhar: poderia acertar, finalmente, todos os aluguéis atrasados.
Daniel Caetano
Ter, 23/Fev/2010, 3:57
Por: Daniel Caetano
Sobre o Passado e o Presente | 5 Votos |
Penso que todas as pessoas, de alguma forma, reavaliem seu passado. Talvez não sempre, talvez não a toda hora, mas em algum momento todos passam por uma fase de reavaliação.
Quando ela ocorre, me parece comum que pendamos para uma análise simplista de nossos "erros" e "acertos" do passado, muito embora este caminho possa levar a muito sofrimento, angústias e, se não bem resolvido, pode não ter resultados práticos para a nossa vida.
Tudo que aconteceu em nossa vida pode ser analisado de, no mínimo, duas formas: como um acontecimento pontual, ou seja, um evento cujo contexto de tempo é limitado a um curto período, ou como um evento que faz parte de uma cadeia, cujo contexto é limitado apenas pelo nosso tempo de vida.
Análises do tipo "certo" e "errado" são, no meu entender, parte da primeira categoria. Elas são relevantes mais para entendermos sob quais circuntâncias nos equivocamos, qual foi a informação que nos faltou e que nos fez pisar fora do nosso suposto "caminho correto". Isso tem uma relevância fundamental, para que fiquemos mais atentos... não que não devamos mais fazer o que fizemos, mas devemos atentar para não tomar mais decisões inadequadas quando faltarem as informações que descobrimos serem relevantes para uma decisão sensata.
Por outro lado, é preciso ter em mente que ninguém deve se martirizar eternamente por seus equívocos corriqueiros - categoria da qual a maioria dos nossos "erros" faz parte. É preciso compreender a importância do contexto de nossas decisões, de nossas opções. Sempre que decidimos um caminho, o escolhemos na esperança de que ele seja o melhor para nós, de que ele nos leve mais rapidamente para onde queremos chegar. É claro, se ao olhar para trás classificarmos uma escolha1 como equivocada, teremos algo sobre o que pensar; entretanto, lembremo-nos de que é fácil julgar a posteriori, dizer o que houve de errado, com todas as informações de porque aquele caminho não funcionou. Isso não significa que naquele dado momento da vida tínhamos condições de ver as coisas como vemos hoje. Afinal, se víssemos, talvez não tivéssemos feito as escolhas que fizemos.
Este tipo de análise de "certo" e "errado", entretanto, pode nos ofuscar com relação a um aspecto importante - tão importante que não podemos permitir que o percamos de vista: nossa vida não é um momento, um ponto no espaço, desvinculado de todo o resto.
Nossas escolhas, tenham elas nos levado por caminhos agradáveis ou pedregosos, pavimentam o caminho de nossa vida e nos trazem ao que somos no presente. Somos frutos de nossas opções e não-opções, daquilo que vivemos e sentimos. E isso faz de todas as nossas escolhas uma espécie de dádiva2... ao menos se houvermos aprendido com elas.
Embora muitas vezes tenhamos a sensação de que nosso caminho foi o mais tortuoso possível, tenho para mim, hoje, que isso não passa de impressão. Essa sensação parece vir do fato que sempre analisamos o caminho trilhado à luz do lugar em que pensamos que gostaríamos de estar, e não do lugar em que estamos naquele momento. Por mais tortuoso que o caminho nos pareça, é importante ter em mente que ele foi o mais reto e direto para o lugar exato em que estamos hoje, em nossas próprias vidas e em nosso processo de maturidade. Não é possível "pular etapas" em nosso desenvolvimento pessoal.
Quando pensamos em nosso caminho, é fácil cair na armadilha de pensar que não estamos onde queríamos estar e que, portanto, nossas escolhas foram todas "erradas". É uma armadilha cuja isca são as insatisfações momentâneas e cotidianas, mas que devemos evitar. Nossas insatisfações têm, possivelemente, muito mais a ver com o caminho que ainda temos a percorrer do que com aquele que já percorremos.
Muitas vezes nos vemos pensando que o que tínhamos no passado era melhor do que o que temos hoje, mas, na maioria dos casos, isso é simplesmente ilusão. Pensamos que éramos felizes e que se mudássemos algo naquele passado, se tivéssemos deixado de dizer algo, se tivéssemos feito algo... tudo seria diferente e muito melhor. No fundo, o que estamos querendo fazer é "consertar" algo que julgamos um equívoco. Independente do julgamento objetivo de "certo" e "errado", podemos avaliar nossas ações do passado à luz das seguintes premissas:
- Fizemos o que nos parecia mais correto e acertado;
- O que fizemos nos trouxe ao que somos hoje;
- Por construção, ninguém saudável regride3.
Fazendo estas considerações, embora nos pareça que estávamos melhor naquele passado, não estávamos. Tanto é que tomamos o caminho que, supostamente, era o equivocado. A própria análise do possível equívoco revela que hoje estamos mais estruturados, em uma posição em que conseguimos ver as consequências que naquele dado momento não nos eram visíveis. Podemos não estar no topo da montanha, mas estamos em uma região mais elevada do que antes. E posições mais elevadas, em geral, nos permitem ver um pouco mais adiante, embora nem sempre seja fácil perceber isso.
Mas é difícil se livrar deste desejo de "rebobinar o tempo4 de nossa vida", voltar ao passado sendo quem somos neste hoje, que era o futuro do ontem. Queremos trilhar parte do velho caminho e, com o discernimento de hoje, fazer escolhas diferentes em alguns pontos. O grande problema é que isso não existe... e o grande alento é que isso não é, de todo, necessário.
É preciso perceber que o caminho adiante é quase sempre mais promissor do que o caminho que já trilhamos, e isso não ocorre porque o caminho seja diferente5, mas porque nós não seremos mais os mesmos.
Somos o que melhor poderíamos ser. Nosso caminho é parte de nós e, como tal, devemos valorizá-lo. Isso não significa que devemos nos contentar com o que nos tornamos, significa apenas que devemos aceitar o que somos hoje como o lugar em que podemos estar.
E que ele é o melhor ponto de partida para onde quer que queiramos ir.
(1) Ou uma não-escolha, o que em si mesmo é uma escolha: a escolha por não escolher!
(2) As escolhas, pontualmente, ainda podem ser consideradas "ruins", em especial aquelas que machucaram outras pessoas - não se pode esquecer deste aspecto; mas, em nossa vida ela pode ter sido o catalisador para que nos tornássemos pessoas melhores. Não devemos carregar as angústias do passado, como se fossem mochilas, para o resto de nossas vidas, não podemos fazer delas nossas companheiras, nossos traumas.
(3) Algumas pessoas certamente ficam estagnadas, e precisam de ajuda para sair deste vale... mas ainda estou por conhecer alguém que tenha, de fato, regredido. E, sinceramente, espero que nunca venha a conehcer.
(4) Vem da expressão já quase perdida "rebobinar a fita".
(5) Na minha experiência, vez ou outra a própria vida se ocupa de fazer o rebobinamento parcial que tanto desejamos... nos dando a oportunidade de revisitar um caminho do passado. O resultado, ao menos para mim, foi bem diferente do que eu imaginava que seria... pois ao trilhar novamente um caminho, de posse de uma nova percepção, vemos muitas outras coisas que antes não víamos, o que acaba por mudar completamente nossas decisões e julgamentos.
Dom, 21/Fev/2010, 5:11
Por: Daniel Caetano
Novo, por Dentro e por Fora | 3 Votos |
Bem, finalmente o novo sistema de blog está no ar. Tem muita novidade em todo canto, além do visual. Todo o sistema de busca foi remodelado, assim como os renderizadores de posts. Alguns conteúdos, como o do Perfil, também mudaram bastante. Ah, e não dá pra esquecer o novo sistema de comentários! :)
Depois de quase 2 meses de trabalho, quase tudo é dinâmico nesta versão do sistema; o lado negativo é que cerca de 60% do site precisa de JavaScript para funcionar (ao menos por enquanto).
É bastante provável que ainda existam bugs, me avisem, por favor. Sei que o Internet Explorer 7 tem problemas com o site, mas resolvi colocar no ar assim mesmo, e ir finalizando as pendências aos poucos... Caso contrário, ele ia acabar entrando no ar só no ano que vem. :)
Espero que gostem das novidades.
--- Update! ---
Parece que consegui consertar o que não estava funcionando no Internet Explorer 7... :)
Qui, 18/Fev/2010, 18:48
Por: Daniel Caetano
As 24 Horas de Le Mans | 5 Votos |
Uma das competições automobilísticas mais antigas é a chamada "24 Horas de Le Mans", em que um grupo de pilotos dividiam a direção, dirigindo por 24 horas consecutivas. Antigamente era comum que apenas dois pilotos cumprissem a façanha, embora desde a década de 1990 o número mínimo de pilotos seja três.
Quando eu era criança ficava me questionando sobre a viabilidade daquilo, de uma ou duas pessoas dirigirem por 24 horas consecutivas... e se algum dia eu teria condições de fazer algo similar. Não que fosse um desejo profundo, naquela época eu nem mesmo imaginava o que era dirigir. Não passava, pois, de uma elocubração infantil.
Depois que passei a viajar dirigindo, descobri que adoro "botar o carro na estrada" e devorar quilômetros e quilômetros, seja para ir a algum lugar específico, seja simplesmente para curtir as lindas paisagens - vez ou outra únicas. Dirigir (na estrada!), para mim, é uma das muitas formas de higiene mental, pois passo horas e horas com foco apenas em duas coisas: a paisagem e a pista (claro, isso inclui os outros veículos!).
Nunca, porém, havia dirigido mais do que 12 ou 13 horas em um mesmo dia1, mesmo na viagem para a Chapada Diamantina (ano passado), quando a direção era trocada a cada 6 horas, mais ou menos, e não passávamos mais que 12 horas dentro do carro em um mesmo dia. E, na verdade, não esperava quebrar essa marca, pois já havia percebido que não era muito prudente fazê-lo.
Foi nesse pé que, dias atrás, resolvi ir para Guarapari com o Ludmilson (do Mesa 42), que tem casa por lá. Estávamos combinando com alguns outros amigos, mas um não poderia ir porque se enrolou com dinheiro, outro não podia ir por causa de trabalho e outro porque não tinha com quem deixar os cachorros. Já estava decidido seguir apenas eu e o Lud, pela via tradicional, dirigindo cerca de 6 horas cada um, se necessário, e pronto. Iríamos no sábado pela manhã, chegaríamos sábado pela noite e voltaríamos na quarta cedo, chegando de volta aqui em São Paulo na quarta pela noite.
Ocorre que no sábado cedo eu e o Lud pensamos que não podíamos resolver os problemas de todos os amigos, mas que, definitivamente, problema com grana não era "desculpa" para deixar de ir numa viagem dessas, que nem fica(ria) tão cara assim e decidimos que iríamos raptar o Spy (do Insanity Seeker), em Novo Horizonte (interior de São Paulo). Sabíamos que isso ia ser um enorme desvio, mas não paramos para fazer as contas de quanto, exatamente, seria.
Assim, ao invés de pegar a Dutra para o caminho tradicional, via Volta Redonda ou via Juiz de Fora, pegamos a Bandeirantes... que nos impôs um atraso de hora e meia de congestionamento, mas tudo por um ótimo motivo: sair um pouco de São Paulo! :)
Seguimos pela Washington Luís e, depois de uma 5 horas, lá estávamos, na casa do Spy, que já havia sido avisado para deixar a mala pronta, pois não aceitaríamos não como resposta. Nesse ponto já passava das 16 horas e, após um breve papo, partimos em direção a Belo Horizonte, por um caminho totalmente novo para todos nós, passando por Ribeirão Preto2, subindo para Passos e depois seguindo uma rodovia (MG-050) que vai direto de lá para Belo Horizonte. Em todo este trajeto, en que fui dirigindo, muitas boas surpresas, com lindas paisagens e uma incrível iluminação proporcionada pelo sol do fim da tarde.
Já anoitecendo, parei o carro para tirar algumas fotos na penumbra, e seguimos na noite, maravilhados com o céu estrelado, límpido. Chegamos em BH quase 1:00 do domingo e paramos para comer. Foi um tanto complicado, mas achamos um lugar aberto a esta hora3: um "espetinho", que aplacou a nossa fome sem dar sono. Saímos de lá por volta de 2:30 e seguimos para Guarapari, agora com o Lud no volante. Como não estava mais dirigindo, pude dedicar-me à paisagem noturna da região, com um céu estrelado lindo, permitindo visualizar claramente uma porção de constelações e a nuvem de estrelas que compõem o restante da Via Láctea.
Tirando que erramos um desvio e, quando percebemos, estávamos de carro bem no meio do Carnaval em Ouro Preto4, a viagem seguiu sem maiores problemas, com mais uma ou duas trocas de motorista, já que a fadiga começou a tomar conta de todos e, enquanto um dirigia, o outro dava uma cochilada para aguentar mais um trecho5. Como pegamos o nascer do sol em uma das regiões mais bonitas que conheço, aproveitei para tirar um caminhão de fotos. Chegamos em Guarapari apenas às 11:00 do domingo.
Não íamos perder o dia. Passamos no supermercado, compramos alguns víveres e, depois que comemos, fomos dar uma volta, mostrar a região para o Spy, que nunca tinha ido para lá. Tentamos - inutilmente - achar um lugar que vendesse cerveja e petiscos às 16:00, mas o comércio local insistia que isso era só depois das 18:00: antes era só almoço. Sem muita opção, voltamos para a casa e ficamos curtindo as novas instalações do apartamento do Lud - leia-se: uma deliciosa rede na varanda - tomando cerveja em casa mesmo e comendo um churrasquinho delicioso. Como estávamos literalmente destruídos, não houve muito o que se fazer na noite deste primeiro dia. Acabamos dormindo cedo6.
O segundo dia foi mais proveitoso, embora não tenhamos conseguido fazer o passeio que queríamos. Tirei um monte de fotos de coisas da cidade, em várias iluminações diferentes. De qualquer forma, a noite foi reservada para o boteco Pilão, onde comi uma polenta frita empanada(?!?) bem diferente das que comemos por aqui. Não tinha aipim (nome que usualmente se dá à mandioca por lá).
No terceiro dia, já na terça-feira, conseguimos levar o Spy para a caminhaca clássica na trilha das praias mais econdidas... que já não estão mais tão escondidas assim. Foi um pouco tiste ver que os calangos azuis não dão mais as caras, que a trilha no meio do mato deu lugar a um caminho aberto, que a vegetação já até mudou um pouco e que mudaram o nome de uma porção de coisas (!?), incluindo o Lago do Waldir, que agora se chama "Lago do Sabiá". Mas existem as coisas que não mudaram: ainda há lugares onde as pessoas não vão, cuja vista é incrível e a paz... enorme. Não se ouve nada, apenas o mar. Não se vê pessoas, apenas o azul do mar encontrando o azul do céu... até onde a vista alcança. Não sei até quando esse lugar vai permanecer assim, mas fiquei feliz de, mais uma vez, poder desfrutar dele.
Neste dia, nem cerveja, nem dormir tarde: 21:00 significou cama, pois partiríamos às 2:00 da quarta, o que de fato ocorreu. Saímos no horário previsto, eu no volante, e seguimos noite adentro em direção à Belo Horizonte, onde paramos para que pudéssemos renovar nosso estoque de Mate-Couro(7) e, como percebemos depois, isso seria fundamental para o sucesso do fim de nossa viagem. Saímos de BH às 10:00, com 42 litros de Mate-Couro8, agora com o Lud no volante. A média no primeiro trecho de viagem tinha sido muito boa, mas ainda havia muito chão pela frente, e em uma estrada mais movimentada.
Tudo ia muito bem, tínhamos inclusive parado para tirar foto de uma ponte ferroviária para um outro amigo que não estava lá9, mas no meio da estrada... POW! e eu acordo assustado do meu cochilo. O Lud encosta: um dos pneus de trás havia deformado, gasto mais em um pouto e estourou, com o aço todo para fora. Lá fomos nós, tirar tudo do porta-mala, montar triângulo, tirar estepe...
Enquanto eu posicionava o macaco, o Spy tirava os parafusos da roda, ambos morrendo de medo, porque o carro mal cabia no acostamento e nós estávamos literalmente no meio da rodovia, que é de pista simples e, pra piorar, é um ponto de ultrapassagem. Com os parafusos frouxos, comecei a levantar o carro e, o Spy, a retirar completamente os parafusos... quando repentinamente o carro começou a antar para trás.
"Orra Lud, você não puxou o freio de mão", esbravejei já rindo.
Simultaneamente, enquanto verificava o freio de mão, o Lud me avisava que tinha, sim, puxado o freio de mão. Foi quando gelei. Na lateral do (pseudo) acostamento havia uma valeta enorme, e o carro tinha começado a escorregar para lá. O problema é que o carro estava inclinado e, se descesse mais um pouquinho, ele certamente tombaria e aí sim o estrago estaria feito. Olhando por trás do carro, o que vimos foi uma cena prá lá de chocante: o que evitou que o carro descesse mais e tombasse... foram os fardos de refrigerante Mate-Couro, que o escoraram, impedindo que ele tivesse entrado na vala e, possivelmente, tombado! Devo uma ao Mate-Couro.
Engatado o carro, ajeitado o que era possível e retiradas as garrafas de refrigerante - que precisaram ser arrancadas com força, uma a uma, destruindo os fardos, precisaríamos mover o carro mais para dentro da pista, para então podermos trocar o pneu... só que isso significava ficar realmente - e literalmente - no meio da rodovia!
Nessas horas você agradece ter pago os R$ 3,50 para andar 50km de rodovia e liga para o Apoio ao Usuário. Depois de perguntar até a cor da cueca de cada um, conferir no vídeo do pedágio se nosso carro passou mesmo por lá e verificar se nós não temos pai na máfia, a mulher mandou alguém para nos ajudar. Cerca de 35 minutos depois o alguém chega e dá uma ajuda indispensável, colocando cones na pista e sinalizando, para que pudéssemos mover o carro para dentro da pista10.
Com esse auxílio simples, porém de inestimável valor, trocamos o pneu e seguimos para a cidade mais próxima, Piumhi11, para comprar um pneu meia-vida para estepe - afinal, ainda faltavam cerca de 1000km de viagem. Depois disso, seguimos sem muitos problemas, com mais algumas trocas de motorista. Este caminho propiciou muitas fotos, incluindo algumas muito interessantes da barragem de Furnas, um lugar realmente muito bonito de se ver.
Chegamos em Novo Horizonte por volta de 20:00, não antes de tirar algumas fotos de um por-do-sol um tanto atípico (para o que estou habituado), com um sol encoberto por nuvens carregadas, gerando um efeito bastante interessante. Saímos rapidamente para tentarmos chegar em São Paulo antes da 1:00 e, saímos tão rapidamente que conseguimos adiantar um monte a viagem. Tanto que pouco antes das 22:00 estávamos entre Rio Claro e São Carlos, onde paramos para comer alguma coisa no Castelo. Cerca de 125 km depois eu me dei por vencido e o Lud assumiu bravamente ao volante, até a chegada em São Paulo, por volta de 1:30... e a nossa última surpresa da viagem: o acesso à Marginal Pinheiros pela Bandeirantes estava fechado, o que acabou fazendo com que deixasse o Lud em casa, em Santana. Pouco depois, 2:15, cheguei em casa. 24 horas.
Embora não aconselhe para ninguém fazer uma doidisse dessas, se houver a possibilidade de planejamento, posso dizer que o saldo foi positivo. Poucas vezes temos oportunidade - como eu tive - de acompanhar a aurora e o ocaso em locais tão diferentes, e observar os resultados visuais que essa experiência gera. Aproveitar estes momentos junto com grandes amigos fizeram desta viagem única, que ficará na minha história como tendo sido a maior loucura automobilística da minha vida. O mais importante é que a viagem - e aqui eu incluo não apenas o destino, mas todo o caminho - valeu cada quilômetro.
Agora é começar a organizar a viagem do fim do ano. Como terei mais tempo, será num esquema mais parecido com o da viagem para a Chapada Diamantina, embora não pretenda ficar em nenhuma cidade por 6 dias, como ocorreu na Chapada.
Rio Grande, te vejo em 2011.
(1) Excluo dessa lista a viagem para Guarapari no carnaval de 2004(?) quando passamos por dentro do Rio de Janeiro e um congestionamento de mais de 7 horas entre a Av. Brasil e a estrada que segue para a região dos lagos (em direção a Cabo Frio) me fez ficar ao volante por 18 horas consecutivas; o detalhe é que dessas 18 horas, umas 8 foi completamente parado, então eu não conto isso como dirigir mais que 12 horas!
(2) Onde descobrimos que a estrada com velocidade de 100km/h acaba em uma curva de 90 graus com um semáforo e que isso não é sinalizado!
(3) Parece que praticamente tudo em BH fechou antes da 1:00 naquele sábado para domingo!
(4) Três minutos depois do Ludmilson se perguntar "mas o que eu vim fazer dentro de Ouro Preto?"
(5) Quem pensar em fazer uma loucura dessas, anote o recado: é muito importante dormir um pouco entre as pegadas no volante, mesmo que o sono "passe" depois que você sai do volante. Cada hora de sono te dá mais 3 ou 4 horas de disposição para dirigir. Esse efeito das chochiladas vai diminuindo, ou seja, na primeira dormida você ganha 4 horas, na segunda ganha umas 2,5, na terceira ganha menos de uma... e eu não aconselho a chegar nesse ponto. Nunca dirija mais do que 15 horas num dia, seguido ou não. Se possível, ou seja, se o tempo que você tem para a viagem permitir, permaneça em menos de 12 horas. Depois dessa quantidade de horas os reflexos decrescem muito. Em momentos críticos, paradas a cada 2 ou 3 horas são suas amigas, principalmente se regadas a café e Red Bull. E não coma nada pesado - como uma refeição ou mesmo um sanduíche mais parrudo: isso vai trazer um sono incontornável.
(6) Vale dizer que eu dormi quase todos os dias, até perto do amanhecer, na varanda, seja no sofá ou na rede. Ô brisa boa que faz naquela varanda!
(7) Mate-Couro é um refrigerante misto de erva mate e de chapéu de couro (a planta!) que é muito bom, e que é produzido em Belo Horizonte.
(8) Não foi premeditado... mas acabou sendo 42 litros mesmo: 6 litros para o Lud, 12 para mim e 24 para o Spy.
(9) Um amigo que é "viciado" em trens e tudo que tem a ver com eles.
(10) Não sem alguns momentos de tensão antes, pois tivemos de levantar o carro, mesmo em condições precárias, para prender a roda novamente, que estava meio-solta e meio presa... inviabilizando movimentar o carro daquele jeito.
(11) Isso mesmo, Pi - Um - Hi... deve ter sido o nome dado por algum matemático. O município, infelizmente, não fica no quilômetro 314 da rodovia... :)


