Qua, 23/Out/2002, 17:01
Por: Daniel Caetano
Importar-se ou Não, Eis a Questão! | 1 Voto |
E nem mesmo sei fazer de forma diferente. Como não ligar? Como não se importar? Como ignorar o mundo que nos cerca, o que nos dizem e fazem? Às vezes julgamo-nos fortes o suficiente para resistir a tudo, mas por vezes desmoro... Leia mais!
Seg, 2/Abr/2012, 20:51
Por: Daniel Caetano
20 Anos Atrás... | 1 Voto |
Acabou passando despercebido, mas há poucos dias fez 20 anos do "release" da versão 2.0 do OS/2, o sistema operacional "bizarro e desconhecido" que eu uso. Curiosamente, isso coincide mais ou menos com o tempo que eu uso PC e o OS/2. E coincide com uma série de mudanças e reviravoltas que fizeram minha vida vir parar exatamente no ponto em que se encontra hoje. Posso dizer, seguramente, que se não fosse pelo OS/2 minha vida seria completamente diferente, por uma série de razões, a maioria delas ligadas a pessoas que conheci por meio dele e, em especial, por causa dele.
Em 1992 eu chegava em São Paulo, voltando do interior depois de 10 anos longe daqui. Já programava à época, mas meu MSX tinha um drive interno bichado e meu drive externo - um drive de 5,25" Racidata - já estava para lá de Bagdá - inclusive me fazendo formatar um monte de discos bons e com muitos programas desenvolvidos ao longo de 7 anos usando o MSX, por achar que eram as gravações dos discos que estavam defeituosas.
Durante o desenvolvimento de um clone de MegaMan para MSX, o Racidata deu seu último suspiro. E então fiquei sem computador, sem modem, sem videotexto... sem nada do que era legal. E comecei a jogar videogame nas madrugadas sem sono... e a torrar a paciência de meu pai.
Conheci, naqueles meses, meu primeiro amigo de São Paulo, o Everson (que Deus o tenha). Esse cara foi quem me vendeu o meu primeiro PC (o último computador que meu pai me comprou na vida, como meu pai fez questão de frisar) e também acabou por ser "cupido involuntário" em um desdobramento de eventos dignos de nota, mas que ficam para um outro momento.
Enfim, foi no final daquele longínquo 1992 que eu ganhei, de aniversário de 15 anos (completos em janeiro de 1993) o meu 386DX-40MHz, com processador da AMD, 4MB de RAM, HD de 80MB, Sound Blaster 2.0, placa de vídeo SuperVGA OAK de 512KB, um monitor SuperVGA SyncMaster 3... e um modem de incríveis 2400bps!
Nesta máquina, que veio carregando MS-DOS 5.0 e Windows 3.1, eu fiquei conhecendo o OS/2 2.0, que instalei e usei como sistema secundário até meados de 1994. Foi neste ano de 1994 que, por intermédio de um colega de escola, consegui uma cópia do "Warp 3", que finalmente se tornou o meu sistema operacional principal (com um boot secundário para jogar no DOS... naquele tempo, uma boa parte dos jogos só "rodavam" bem em DOS).
Deste PC vieram o Cyrix DX2-66MHz, o Cyrix 5x86 133MHz, o Pentium 166MHz, o Pentium MMX 233MHz, o AMD K6-II 300Mhz, o K6-II 500MHz, o Athlon XP 2100+, o Athlon XP2600+ e, finalmente, o i7, quando, depois de tanto tempo, não faz mais sentido falar em MHz.
Embora ainda tenha esses dois últimos funcionando e em uso - um com o "OS/2" (agora com um nome bizarro: eComStation) e o outro, provisoriamente, com o Windows 7 - foram aqueles primeiros que representam um divisor de águas. Foi usando aquele primeiro IBM-PC - com o OS/2 e um modem - que, acessando o SPOnline (depois STI-BBS) e o VideoTexto, acabei conhencendo um monte de gente... e vivendo uma época ao mesmo tempo insana e pra lá de divertida... um tempo cheio de aprendizados que trago até hoje comigo.
Ao longo de todo este tempo - e entre diversos outros estudos - acabei me tornando programador "por conta", algo que exerço até hoje com muito carinho, seja nos meus hobbies, seja em minha profissão. Aliás, foi por causa da programação que fui parar na faculdade em que estudei, em primeiro lugar... e o curso, bem... a escolha do curso foi influenciada por muitas conversas no VideoTexto.
Curiosamente, estes computadores mais modernos me levaram de volta ao MSX, que hoje é uma parte importante da minha vida, na forma de hobby, e através do qual conheci uma boa parte das pessoas incríveis que se tornaram meus amigos... alguns ainda próximos, outros tantos nas mais diversas paragens.
No "post" passado escrevi que cresci com tecnologia e comunicação de dados. Neste aqui acho que a interferência da tecnologia em minha vida fica um pouco mais evidente; nesta vida, muitas coisas vieram e se foram. Algumas poucas ficaram...
Mas um outro tanto - infelizmente algumas das mais importantes - se tornaram apenas boas lembranças.
Qua, 21/Mar/2012, 8:27
Por: Daniel Caetano
A Doença do Novo | 3 Votos |
Tenho visto com frequência pessoas reclamando do excesso de atualizações de programas nos computadores. Também tenho visto com frequência pessoas trocando seus computadores por smartphones e tablets... e com mais frequência ainda pessoas trocando de smartphones e tablets.
O que começou com uma necessidade aparentemente legítima (atualizar anti-vírus... trocar o computador porque ele realmente estava defasado...), tornou-se um monstro e agora somos escravos de um eterno ciclo de atualização. Se antes gastávamos nosso tempo com coisas divertidas, batendo papo na varanda, descansando na rede (aquela que fica pendurada na parede) ou mesmo lendo ou livro ou vendo TV, hoje gastamos atualizando software e hardware. Até nos vemos obrigados a pagar uma conexão internet mais rápida (e cara), porque facilita as atualizações1!
Tudo isso me faz pensar naquela grande engrenagem que move o mundo moderno: o consumismo.
Eu sempre fui uma pessoa ligada em inovações tecnológicas; sempre achei divertido ver o que estão criando como novidade. E esse "sempre", posso afirmar, remonta aos tempos das minhas primeiras lembranças da vida... há cerca de 30 anos.
No entanto, de uns tempos para cá tenho questionado o que tenho chamado de "pseudo-avanços" tecnológicos. Pseudo porque, na verdade, a maioria deles são, ao meu ver, uma falácia. Por que digo isso? Pela simples razão que a cada 6 meses lançam um produto novo, da mesma marca.
Analisando pelo aspecto de pesquisa e desenvolvimento, é muito pouco provável que a empresa de fato tenha uma "grande ideia" a cada 6 meses. O mais provável é que se tenha uma grande idéia a cada conjunto de anos (4, 5...?) e se faça um programa de obsolência programada. O que é isso?
Obsolência programada é assim: você tem uma grande idéia, e poderia colocar o produto hoje no mercado, com todas aquelas novas features. Mas, ao invés disso, você divide aquela novidade em 6 ou 8 pequenos incrementos de inovação, e implementa um de cada vez. Em outras palavras: ao invés de lançar uma grande inovação e manter o produto por 3 ou 4 anos, você lança partes daquela inovação a cada 6 meses, lançando 6 a 8 produtos diferentes em 3 ou 4 anos.
Qual a vantagem? Bem, além de gerar mais emprego, gera mais lucro, pois obriga um exército de lemmingues a trocar todos os seus equipamentos de 6 em 6 meses. Obriga como? Bem, de tempos em tempos você "planta" algo que vou chamar de incompatibilidade programada, e criando uma situação em que novas melhorias e softwares só sejam produzidos para a versão mais recente (e incompatível com as anteriores). Pronto, está feita a mágica.
Mas isso não é novidade... isso ocorre há cerca de 2 décadas (ou mais, dependendo do tipo de produto que você considerar). O que mudou?
Mudou que a propaganda (no sentido pejorativo, como a de Goebbels, do Terceiro Reich), ao longo de muitos anos, criou um "frenesi" pela atualização: se você não estiver atualizado, não está "antenado"... e se não estiver "antenado", ficou pra trás, é desatualizado e, como tal, será desprezado pela sociedade... É como se todos olhassem para você e pensassem: "Coitado... tão novo e já pensa como um velho decrépito".
A questão é... será que questionar a utilidade de toda porcaria que se lança é ser velho decrépito? Ou será que quem não questiona a novidade está cumprindo um papel de ingênuo útil?
A missão dos publicitários é, na essência, nobre: permitir que quem tem um problema específico tome conhecimento de uma solução já existente. Entretanto, como tudo, o trabalho do publicitário pode ser usado para o bem ou para o mal... e, no caso, o mal é você convencer as pessoas de que elas precisam de um produto, pois quem não tiver aquele produto "terá um problema". É a tal da "moda", a complexa e desconcertante necessidade que o ser humano tem de se sentir parte do grupo.
O problema é que, acredito, o ser humano "batalhou" muito para aprender a pensar, ser questionador e deixar de "seguir a manada" como um imbecil irracional. Foi um longo caminho para construir esse "status" de "ser racional"... mas, como tudo, destruir é muito fácil. Mas do que é que estou falando?
Por trás deste discurso todo da publicidade e de apresentações apaixonadas do Steve Jobs, o que nos temos na verdade é uma necessidade anti-natural de crescimento eterno das empresas e de seus lucros. Anti-natural porque praticamente nada na natureza cresce eternamente2.
De qualquer forma, se olharmos aqui em volta, no nosso planeta, a única coisa que cresce é a desordem, a bagunça e a destruição. Por trás de um discurso de que é preciso ampliar as vendas para gerar empregos (o escudo usual adotado para esconder o real objetivo, que é o de aumentar os lucros), o que as empresas têm feito, na realidade, é provocar destruição.
Quando, ao invés de produzir 100.000.000 de aparelhos que duram cinco anos as empresas produzem esta mesma quantidade de aparelhos por semestre, após 5 anos elas terão gasto o material para produzir 1.000.000.000 de aparelhos. Mais vendas, "mais empregos" e, mais importante: mais lucros3. O que todo mundo está esquecendo... é que isso também significa: menos recursos disponíveis, mais poluição, mais propaganda estimulando ainda mais gente a comprar... alimentando esse ciclo vicioso que está levando nosso mundo à ruína.
Do lado humano, consagrou-se uma ideologia dominante de que é importante não apenas "ter", mas "ter o que há de mais novo". Essa mentalidade é sustentada à base da criação de um "buraco" na vida dos seres humanos. Antigamente as pessoas sentiam um vazio, elas iam procurar uma companhia. Hoje, quando elas se sentem vazias, elas compram produtos... afinal, parece que até para encontrar uma companhia se tornou obrigatório ter algum tipo de produto (para poder usar facebook, twitter e outras ferramentas divertidas de "perda de tempo"). E quando ela encontra alguém, em geral ela apenas encontrou outro buraco ambulante e, ambas, juntas, vão consumir em dobro.
É óbvio que não sou contra o consumo. Ele não apenas é necessário como faz parte da vida. Eu sou a favor do consumo. O que sou contra é à "compra sem consumo", isto é: comprar para não usar (consumir = usar, gastar). O consumismo (= comprar sem necessidade, comprar e não usar... comprar livro para a estante ler, comprar MP3 para empoeirar no iPod etc) é uma doença, um vício que faz um mal incomensurável para o ser humano.
Neste aspecto, a mídia e a sociedade, ao impor um padrão de "comprar o novo pelo novo" - sem a contrapartida necessidade que justifique a compra, agem como alguém "pondo para baixo" uma pessoa com problemas, levando-a à depressão, para que ela recorra às drogas para aplacar a depressão. O único problema é que recorrer às drogas não cura a doença, cuida apenas da febre. Mas o que é a doença?
Bem, como as pessoas sempre terão seus problemas - eles fazem parte da vida -, eles não podem ser a doença. A doença, então, é o comportamento da mídia e da sociedade perante as novidades, como se elas fossem a solução para todos os problemas. O ser humano precisa voltar a ver a novidade como seus ancestrais: com mais receio do que alegria. Ter curiosidade, sim... mas com cautela. E esse é um comportamento que precisa ser valorizado.
É com urgência que a sociedade precisa rever seus conceitos, parafraseando a propaganda de uma famosa montadora de veículos. E não vou usar aquele velho argumento "Que mundo queremos deixar para nossos filhos?", já que hoje em dia a cultura do consumo é tão arraigada que ninguém quer deixar nada para os filhos. Aliás, muitos nem filhos querem ter, para não ter que dividir nada com os filhos (nem tempo, nem dinheiro, nada).
O argumento que vou usar é outro: até quando vamos permitir que nos aborreçam para comprarmos a felicidade? Qual é a qualidade de vida que queremos? Você quer continuar trabalhando 16 horas por dia para, no horário em que devia estar dormindo, comprar para tentar substituir o tempo de lazer que lhe roubaram4?
Está na hora de voltarmos a ser pessoas e deixarmos de ser marionetes.
Está na hora de acordarmos para a vida.
(1) Alguém imagina o tempo que demoraria para baixar uma atualização de 150MB do Windows ou do Office usando uma conexão discada de 28.8kbps?
(2) A única coisa que parece se comportar assim é o Universo como um todo, mas a ideia é tão estranha que a grande maioria dos físicos do mundo não se sente confortável com isso (e, acredito, secretamente a maioria deles nutram uma expectativa de que a "prova" de que o universo está em eterna expansão seja falha).
(3) Como gerar mais empregos é incompatível com a sede por crescimento nos lucros - já que empregos geram novos custos -, o que se vê, em geral, é um aumento "extra-oficial" da carga horária dos trabalhadores. E, na mesma linha do que nos é "imposto" como padrão de comportamento para consumo, o funcionário que quer sair do trabalho no horário de seu contrato (e pelo qual é pago) é enxergado como "vagabundo, folgado... a empresa não pode contar com ele". E se o funcionário disser que não vai ficar porque não recebe por isso, ainda será chamado de "mercenário, não veste a camisa etc.). O que não se leva em conta é que, em geral, o funcionário que reclama que não vai receber a mais para ficar mais tempo... não quer receber a mais... ele não quer é ficar além do horário do expediente, porque tem mais o que fazer com a vida dele! Mas por que alguém aceita ficar mais no trabalho? Vejam que maquiavélico... se for para ganhar mais, obviamente é para poder consumir (comprar) mais(!)... e se não for para ganhar mais, é para ser reconhecido, subir na carreira e... ganhar mais... para poder consumir (comprar) mais! Ou seja: sempre é para ganhar mais. Para ganhar dinheiro ou, em algus casos mais patológicos, para ganhar "poder". A questão é: como as empresas podem usar golpes tão baixos, se aproveitar das fraquezas humanas desta forma? É como roubar carteira de bêbado... Que raio de empresas "escravocratas" são essas da atualidade?
(4) Para que você trabalhasse para produzir mais...
Ter, 28/Fev/2012, 5:40
Por: Daniel Caetano
Hotel Califórnia | 1 Voto |
Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!
Edilene trabalhava em um pequeno hotel, há muitos anos da mesma família. Ela e cerca de cinquenta outras faxineiras todos os dias se alternavam em turnos de 3 horas.
Apesar de seu tamanho, o hotel era bastante movimentado, pois seu público era de viajantes que apreciavam o serviço - quartos pequenos com uma única cama e bastante privacidade - e também a forma de cobrança: o viajante pagava pelo tempo que ficava no quarto.
Como a maioria deles usava o hotel apenas como uma parada para dormir, o quarto podia ser alocado para duas ou três pessoas no mesmo dia - obviamente com um período de limpeza entre cada hóspede - o que permitia manter os preços abaixo da média dos outros hotéis da região.
É claro que, com a preferência dos viajantes, o nome do hotel era bastante conhecido e foi assim que, em uma tarde de verão, os funcionários do hotel ficaram sabendo que ele havia sido vendido para uma grande rede hoteleira.
Edilene, preocupada, não faltou em nenhuma das reuniões com os novos donos. E aí vieram as primeiras mudanças:
- O hóspede passará a pagar pelo dia todo (diária) e não mais por hora de uso.
- Os funcionários farão turnos de 4 horas, ao invés de 3, mas trabalharão 2 dias a menos na semana. Isso, explicaram, seria possível porque não é necessario mais limpar um mesmo quarto duas ou três vezes por dia. O salário por hora, frisaram, permanecerá o mesmo.
Edilene não entendeu muito bem o que isso significava, mas achou que seria bom trabalhar menos dias e ganhar o mesmo valor. Só ficou triste porque descobriu que algumas de suas colegas, que estavam há muito tempo trabalhando no hotel e tinham salários maiores - foram demitidas, "para manter os custos de operação".
Mas as mudanças não pararam por aí. Para compensar a redução de carga horária e não prejudicar outros serviços, algumas tarefas, como arrumar a cama e lavar suas roupas de banho e cama serão tarefas dos hóspedes que, no entanto, devem ser orientados pelas faxineiras. Além disso, os hóspedes também são responsáveis por informar quais itens consumiram do frigobar.
Edilene desconfiou que isso não fosse funcionar, mas começou a fazer como fora orientada. O tempo foi passando e algumas consequências ficaram visíveis.
Como agora a cobrança era feita por diária, como os outros hotéis, esse hotel passou a não chamar mais tanta atenção e o número de hóspedes começou a cair. Outra razão para isso é que, com a redução do número de dias de trabalho dos funcionários, os hóspedes começaram a se ressentir porque, em alguns momentos, precisavam de algum serviço e não havia funcionários para atendê-los.
Além disso, como nem todos os serviços se reduzem proporcionalmente à redução de hóspedes (limpeza das áreas comuns, cozinha, manutenção) com o menor número de dias de trabalho, alguns desses serviços começaram a não ser tão bem feitos, já que os funcionários tinham menos tempo para realizá-los.
Por outro lado, é claro, muitos hóspedes não arrumavam sua cama e nem lavavam suas roupas de cama e banho, pois achavam isso um absurdo - completamente diferente de qualquer outro hotel. Mesmo que o hotel fizesse um discurso de que isso era importante para que os hóspedes tivessem a certeza de que as roupas eram bem lavadas e também para que eles adquirissem uma independência que o "mundo" cobra, a grande maioria não fazia o serviço.
As coisas começaram a não funcionar, então os gerentes chamaram os funcionários e apresentaram suas soluções.
Para combater o problema dos serviços não realizados pelos funcionários, uma lista de tarefas diárias semestral foi proposta, e o funcionário teria que dia-a-dia entrar em um sistema de computador criado especialmente para isso. Cada funcionário teria que cumprir exatamente o que estava na lista, para que fosse possível trocar funcionários entre filiais do hotel e nenhum deles ficasse sem saber o que deveria fazer em que dia.
Além disso, os funcionários ficaram incumbidos de verificar o consumo dos hóspedes, informando-os no sistema, além de arrumar a cama e lavar os lençóis e roupas de banho quando os hóspedes não o fizessem.
Temendo a impossibilidade de cumprir a quantidade de tarefas no tempo disponível, alguns funcionários protestaram, mas os diretores garantiram que seria possível, pois se bem orientados a maioria dos hóspedes faria seu serviço e os funcionários teriam apenas que executar as tarefas daquele pequeno número de hóspedes que não seguissem as orientações.
Já bastante preocupada, Edilene começou a se esforçar batante e a tentar cumprir todas as suas tarefas. Inicialmente começou a chegar uma hora mais cedo e ir embora uma hora mais tarde, mas depois de poucos dias tomou uma bronca, pois estava batendo ponto fora de horário. Por mais alguns dias tentou chegar mais cedo e bater ponto apenas na hora da entrada oficial, mas por algumas vezes, envolvida no trabalho, acabou esquecendo... e teve um desconto em seu salário.
Resignada, começou a colocar um despertador para tocar na hora de bater o ponto, mas mesmo assim, chegando e saindo mais cedo, não era possível fazer tudo aquilo, em especial o lançamento no sistema. Como os quartos não tinham nenhum tipo de equipamento, ela tinha que anotar tudo que fizera e tudo que o hóspede havia consumido em um papel e, depois, sentar e lançar no sistema.
Para manter as coisas em dia, Edilene começou a deixar para lançar as informações no sistema a partir de sua casa, mas o trabalho de sua casa muitas vezes a impedia de lançar rapidamente as informações e, obviamente, tomou uma bronca da chefia: "As informações têm de ser lançadas no sistema imediatamente para que possamos cobrar dos clientes! A informação de consumo tem de estar no sistema no mesmo dia!"
Sendo assim, Edilene passou a usar as horas que tinha a mais (por chegar mais cedo e sair mais tarde) para fazer lançamentos no sistema e começou a levar os lençóis e roupas de banho do hotel para lavar em sua casa, nos dias em que não trabalhava no hotel, sem se preocupar em gastar sua água, sabão, energia elétrica e tempo com isso.
Entretanto, nem tudo isso resolvia os problemas dos hóspedes, que continuavam em número decrescente. Com isso, os custos se mantinham, mas as receitas não. E a diretoria do hotel não sabia mais o que fazer.
Então, eles tomaram uma decisão: vamos colocar uma segunda cama nos quartos e alugar cada quarto para mais de uma pessoa. "Se elas se hospedam no mesmo horário, é porque têm algo em comum", foi a argumentação. O que parecia uma boa idéia, virou um pesadelo quando colocaram um colchão entre as duas camas, para acomodar um terceiro hóspede em quartos que mal cabiam dois.
Isso acelerou a queda dos hóspedes e, em uma medida desesperada, os diretores pegaram as planilhas dos funcionários que mais ganhavam e, excluindo os 10 funcionários mais bem remunerados - aqueles que iam decidir quem demitir - cortaram da folha os técnicos de manutenção, cozinheiros, jardineiros... todos os funcionários especializados. Restaram apenas as faxineiras que, apesar de especializadas, recebiam as menores remunerações.
Mas foi apenas depois da demissão que os diretores se deram conta de que alguém precisava fazer a comida, a manutenção etc. E, sendo assim, escolheram algumas das mais eficientes faxineiras e as promoveram, com um aumento de 10% em seu salário - o que ainda ficava bem abaixo do salário dos técnicos especializados anteriores - e lhes orientaram com relação às novas funções: "vocês precisam fazer essas tarefas... mas vocês não podem deixar de cumprir suas tarefas como faxineiras também".
Edilene, por exemplo, foi promovida a técnica de manutenção. Inicialmente ficou toda feliz porque ia ter um aumento de 10% em seu salário e, sendo assim, ao invés de começar a chegar uma hora mais cedo e ir embora uma hora mais tarde, começou a vir também nos outros dias vagos, fazendo jornadas de 6 horas todos os dias, ao invés de 4 horas em três dias da semana. Mas valia a pena, afinal, ela havia sido promovida... e ganhava 10% a mais!
Infelizmente, Edilene começou a perceber que, para exercer o cargo de técnico de manutenção não bastava boa vontade e vir mais vezes. Faltava-lhe o conhecimento. Sendo assim, ela começou a se esforçar muito e fazer o melhor que podia, mas os resultados não vinham. E o mau desempenho na nova atividade fizeram seu desempenho cair também na faxina... e com isso veio a depressão e os problemas de saúde.
Ninguém entendia como uma funcionária que havia sido promovida poderia estar em depressão tão profunda e tão mal de saúde. De qualquer forma, como todos os funcionários eram avaliados segundo uma planilha no sistema, seu fraco desempenho rapidamente foi percebido e, após uma longa discussão sobre como ordenar a planilha pelos funcionários de pior desempenho, ela foi demitida.
Seg, 23/Jan/2012, 7:26
Por: Daniel Caetano
Sherlock Holmes: A Game of Shadows | 1 Voto |
Na semana passada fui assistir ao novo filme de Sherlock Holmes: Um Jogo de Sombras. Não diria que me decepcionei - o filme é divertido e faz bem o papel de entretenimento ao que se propõe, mas diferentemente do primeiro, tenho algumas reservas com relação ao resultado.
Primeiramente, a forma de contar a história, me parece, deixa um pouco a desejar; aquele "feeling" do livro que existe no primeiro, em que os raciocínios de Holmes são desvendados aos poucos, simplesmente não existe. Em alguns momentos as decisões de Holmes parecem absolutamente arbitrárias; adianto que não o são. Em todos os casos percebi elementos sutis no cenário ou em algum diálogo que embaram as decisões dele... mas não é característica do personagem ou de suas histórias deixar de explicitar as coisas.
Apenas para citar um exemplo: em um momento Holmes pensa que uma bomba estará em um local. O que leva a essa conclusão é um pedaço de cenário que está em um depósito e que aparece de relance. De acordo com o contexto da cena, faz sentido a conclusão dele. Pouco depois, já no local, ele descobre que se enganou, e que a bomba está em outro lugar... e não há explicação clara também de como ele identificou o local correto, embora alguns diálogos anteriores forneçam esses elementos.
Isso, para mim, descaracterizou um pouco a forma de contar a história. As histórias de Holmes tem um elemento fundamental que é justamente de ele mostrar o quão triviais são as observações dele, como não há outra alternativa, e que portanto qualquer um poderia ter feito o mesmo que ele.
De qualquer forma, eu tenho a impressão de que isso é resultado de uma montagem "ruim"... provavelmente para encurtar o tempo de filme (já que haveria espaço para quel Holmes fornecesse as supracitadas explicações, mas elas tomariam tempo e prejudicariam a cadência de ação do filme). Seria divertido ver uma possível futura versão do diretor (já que o Guy Ritchie mostrou, no primeiro filme, que entende muito bem como contar uma história de Holmes).
A segunda ressalva que tenho se refere ao argumento escolhido. Diferentemente do primeiro filme, que conta uma história que se insere com perfeição entre outras histórias canônicas de Holmes, o segundo filme optou por contar uma história de impacto já existente (Memórias de Sherlock Holmes: O Problema Final).
Primeiramente, acho que não é uma escolha interessante para um segundo filme, em especial por apresentar a morte de um dos melhores vilões de Holmes - e que certamente poderia ser melhor explorada em um filme com história diversa daquelas dos livros. Mas, a despeito disso, é uma história relativamente curta, com muita conversa entre Holmes e Watson e pouca ação. Isso poderia ser bom: como a história do livro começa depois de muita disputa entre Holmes e Moriarty, o filme poderia contar estes elementos e finalizar com a história do livro (encontro com Watson, flashback do encontro de Holmes e Moriarty, viagem de trem e luta com Moriarty em Raichenbach Falls)... mas o filme não se aproveitou disso.
Preferiram escrever uma história nova misturando diversas bolas... o que pode complicar um pouco futuros roteiros (que talvez tenham que sair mais da linha da história canônica): nos livros, o casamento de Watson ocorre muito tempo antes do confronto com Moriarty; além disso, Watson já não participa das aventuras de Holmes há um bom tempo... e é simplesmente convidado - e aceita - a participar da caçada final ao Professor Moriarty.
Para complicar ainda mais a situação, o filme vai além do fim da história "O Problema Final" (que não vou contar para evitar spoiler), sendo que, pelo cânone, Mary morreria no período (longo) entre o confronto com Moriarty e os eventos que aparecem no final do filme... Quando então Watson voltaria a viver com Holmes.
Kudos para os escritores/roteiristas do primeiro filme, reprimendas para os escritores/roteiristas do segundo, que zoaram com a linha do tempo dos personagens de forma absolutamente desnecessária!
No geral, porém, é um bom filme e renderá boa diversão aos fãs de Holmes.
Seg, 5/Dez/2011, 14:41
Por: Daniel Caetano
Por Quem os Sinos Dobram: Parte Final | 6 Votos |
Atenção! Este artigo não se inicia aqui! Caso você tenha perdido, veja a primeira parte!
Nos artigos anteriores foram levantadas as razões pelas quais a elevação da taxa básica de juros é considerada ruim... assim como os interesses que fazem com que "os especialistas" do setor defendam tanto a elevação dos juros.
Neste artigo será apresentada a posição um tanto incômoda do governo bem como algumas das medidas que podem ser tomadas ao invés da elevação da taxa SELIC para controle da inflação. Finalmente, será feita a conclusão desta série de artigos econômicos, ressaltando a importância do tema tratado.
E Se o Governo Segue a Cartinha do "Mercado"?
Quando, a despeito de todos os aspectos apresentados nesta série de artigos, o governo resolve seguir a cartilha "ortodoxa" do "mercado", o resultado é, frequentemente, devastador. Não se trata aqui de elocubrações e hipóteses: trata-se de mera observação. Aqueles com mais de 30 anos certamente devem se lembrar das consecutivas crises pelas quais nosso país passou, até 2002, com pequenos períodos de tranquilidade.
E o que ae via naqueles momentos? Empresas quebrando, aumento da taxa de desemprego, corrosão do poder de compra dos salários (o famoso arroxo salarial)... e nada se resolve enquanto o governo não vai pedir dinheiro ao FMI, como já comentado.
Neste momento, o FMI e os analistas sugerem que o "estado seja enxugado"... isto é: privatizar empresas, demitir funcionários, reduzir o atendimento ao público... todas aquelas coisas que o "mercado" chama de "aumentar a eficiência", desligando completamente o conceito de eficiência do conceito de qualidade.
Os gênios do mercado dizem, nesta situação, que com uma redução dos gastos do governo haverá desaquecimento da economia (sem pesar demais sobre o cidadão), já que o governo é um grande consumidor. Com isso, supostamente, os preços cairiam, já que a oferta se manteve, mas a demanda caiu.
Entretanto, apesar disso, a razão que os motiva a pedir para que o governo faça tudo isso, garantindo a tão propalada "austeridade fiscal", é fazer sobrar mais grana pra pagar juros!
Observem que lindo! Vamos ferrar ainda mais o país para garantir que os responsáveis pelo desastre sejam bem pagos e remunerados!
Qualquer semelhança com o que vem acontecendo nos EUA e Europa não é mera coincidência!
Quais São as Alternativas do Governo?
Pela forma com que foram conduzidos estes artigos pode parecer que o governo está em um mato sem cachorro... isto é: pode ficar parecendo que o governo tem de aceitar a inflação e pronto.
Mas não é bem por aí. Na verdade, o governo não precisa aceitar essa situação pacificamente.
Antes de mais nada, entretanto, é importante ressaltar que alguma inflação sempre será esperada em um país em desenvolvimento: um país que tem demanda crescente, isto é, que sua população está melhorando de condição de vida, sempre terá alguma inflação14.
Essa observação se faz necessária porque o senso comum diz que, se inflação é ruim... deflação deve ser bom... mas isso não confere com a realidade. A deflação é, normalmente, resultado de um país em que a oferta é maior que a demanda... ou seja: as pessoas não estão consumindo, e isso é a "morte" no sistema capitalista. Usualmente as pessoas deixam de consumir quando temem não conseguir honrar seus compromissos, uma sensação que identifica períodos de crise. Em outras palavras, a deflação é, usualmente, um reflexo de que as pessoas não estão melhorando seu padrão de vida... o que é a contra-mão do que um governo deve buscar.
A inflação, assim, não é exatamente um fenômeno ruim. A inflação descontrolada - ou a hiperinflação - é que é problemática. E, para evitar essa situação, o governo tem diversos instrumentos para lutar. Não tenho conhecimento para citar todos, mas alguns podem ser evidenciados.
Um primeiro exemplo é a redução do IPI (Imposto sobre Produto Industrializado) para estimular a produção e queda de preços dos produtos, mesmo com aumento do consumo. Em paralelo a um aumento de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que corrói os ganhos de aplicações financeiras, a redução de IPI pode incentivar alguns investidores que estavam "sentados" em títulos públicos a investir em produção, aliviando a pressão inflacionária (lembre-se: aumentar a produção reduz inflação tanto quanto reduzir o consumo! O que importa é o equilíbrio oferta-demanda!)
Por outro lado, caso exista um risco de grande fuga de capital investido por estrangeiros (o que inundaria o mercado de reais, que se desvalorizaria muito rapidamente... ou seja: agravando a inflação) o governo pode optar por reduzir o IOF - estimulando a entrada de capitais.
Um outro exemplo de medida que pode ser adotada pelo governo é o combate à parcela da inflação "importada" (isto é: produtos cujo preço sobe no mercado internacional, como é comum com o açúcar e petróleo) ajustando (para baixo) "impostos" de consumo (que são aqueles impostos e contribuições cobrados sobre os produtos comercializados, como a CIDE - Contribuição de Intervenção sobre Domínio Econômico - dos combustíveis).
Se houver a necessidade de reduzir o consumo, o governo pode aumentar o Empréstimo Compulsório15, reduzindo o capital que os bancos possuem para emprestar e, assim, conseguindo o mesmo efeito de um aumento de juros, porém sem os custos adicionais para o governo.
Quando o governo percebe que há apostas na valorização do Real (como a citada aquisição de dívidas em Dólar para realizar investimentos em Real), há algumas taxações que o governo também pode fazer para reduzir a atratividade deste tipo de negócio, como de fato o governo fez recentemente.
O cabedal de medidas que podem ser adotadas pelo governo é amplo, compondo o que são chamadas, no jargão, de "medidas macroprudenciais". O taxa de juros básica é apenas um dos instrumentos - e um dos mais delicados, pois facilmente produz resultados indesejados.
Conclusões
Economia não é um assunto fácil de digerir: tudo é interrelacionado e, ainda por cima, as consequências de qualquer mudança em um parâmetro dependem não apenas da lógica, mas também da expectativa e do comportamento das pessoas.
Por outro lado, é importante saber que, nesse mundo, ninguém dá ponto sem nó... os grandes investidores menos ainda. Os grandes investidores fazem lobbies no palácio do planalto, "compram" matérias de analistas econômicos, plantam boatos... tudo que for necessário para ganhar mais. Eles não estão preocupados com você ou com o Brasil pois, depois de ganhar muito dinheiro, eles sempre podem ir para Genebra ou qualquer outro lugar do planeta.
A única forma de não ser ludibriado a torcer pelo próprio fracasso é conhecer o mundo que nos cerca, quais são as forças envolvidas e quais são as ações que regem o universo. É complicado, mas vale o esforço.
Finalmente, ainda que dioturnamente se diga que o governo "não pode baixar os juros" ou que ele "tem que baixar, mas não agora"... ignore, meu caro leitor. Juros muito altos significam remuneração sem merecimento e, portanto, não devem existir. Vez ou outra o governo precisa fazer um ajuste para cima, mas essa não deve ser a regra e muito menos a primeira alternativa para controle de inflação.
Daniel Caetano
(14) A razão para isso é que as empresas não gostam de correr riscos desnecessários: elas sempre esperam a demanda subir (fazendo os preços subirem) para então investir e produzir mais (equilibrando a oferta com a demanda), mas com os preços já em um patamar mais elevado. E isso não é errado, é natural e esperado: se a empresa investir (ou seja: gastar dinheiro) antes de existir demanda, além de correr o risco de que a demanda nunca apareça, ainda por cima isso inundará o mercado com produtos que não possuem (ainda) uma procura, fazendo com que o preço despenque. Essa é a razão pela qual um país em que a demanda está crescendo devido à melhora do padrão de vida terá de saber conviver com alguma inflação.
(15) O empréstimo compulsório é uma porcentagem dos recursos de um banco que o governo exige que sejam depositados no Banco Central. Esse empréstimo tem diversas finalidades, como garantir certa higidez dos bancos (isto é: esse dinheiro que está com o governo não pode ser emprestado... é um recurso de disponibilidade e liquidez garantida). Os bancos odeiam aumentos no empréstimo compulsório porque é um recurso que fica "travado", isto é, não pode ser emprestado e, portanto, não gera os lucros estratosféricos que são de praxe no mercado.
Sex, 2/Dez/2011, 14:24
Por: Daniel Caetano
Por Quem os Sinos Dobram: Parte 3 | 2 Votos |
Atenção! Este artigo não se inicia aqui! Caso você tenha perdido, veja a primeira parte!
No artigo anterior foi apresentada uma explicação inicial sobre a razão pela qual o aumento da taxa de juros dos títulos do governo faz com que os bancos diminuam a dispobilildade de crédito ao consumidor... por outro lado, não foi discutido exatamente o motivo pelo qual isso é ruim.
Neste artigo será retomada a explicação da relação entre aumento de juros e baixa da inflação como base para uma explicação mais detalhada das consequências ruins da postura dos bancos. Adicionalmente, são discutidos aspectos que fazem com que certos grupos lucrem com a alta das taxas de juros dos títulos públicos, justificando a postura dos analistas econômicos nos jornais tupiniquins.
Por Que a Inflação Baixa Quando as Taxas de Juros Sobem?
Antes de continuarmos, vamos retomar e detalhar uma das relações já apresentadas anteriormente.
Em princípio, uma pessoa não pode comprar se não tiver recursos financeiros (vulgo: dinheiro). Assim, se as pessoas ficam sem dinheiro, elas param de comprar. Se as pessoas param de comprar, o mercado se desequilibra inicialmente, havendo mais oferta do que procura. Nesse panorama, a tendência natural seria que os preços caíssem, causando deflação (que é o exato inverso de inflação) e, portanto, revertendo o processo inflacionário.
Uma forma tradicional de uma pessoa sem recursos conseguir adquirir bens ou serviços é através dos empréstimo... empréstimos esses que, como vimos, são parte do "ganha pão" dos banqueiros.
Como se sabe, todo mundo que pega um empréstimo tem que pagar prestações e juros, além de suas contas usuais. Então, a matemática para a concessão de empréstimos é relativamente simples: a soma das contas mensais mais prestações e juros pagos não podem superar o rendimento do sujeito.
Com base nessa lógica e considerando que o aumento de juros leva a uma redução do total de empréstimos concedidos pelo banco, um raciocínio simples leva à conclusão de que o aumento de juros reduz o recurso disponível para que as pessoas consumam e, assim, conclui-se que o aumento de juros vai reduzir a atividade econômica, proporcionando a deflação previamente mencionada.
Como já foi visto, os bancos dizem - e as pessoas simplórias acreditam - que o aumento da taxa de juros do governo faz com que os juros ao consumidor subam e seria exatamente isso que derrubaria a inflação (em especial porque faria mais sentido para que as pessoas poupassem do que gastassem seu dinheiro). Entretanto, essa é apenas uma meia verdade... que esconde a Real razão pela qual os bancos e investidores adoram juros altos.
Uma simples análise da realidade nacional, agora com valores mais realistas do que fizemos no prieiro artigo - mostra o quão simplista é essa tese. Se o consumidor aceita tomar empréstimos com taxas de juros médias de 120% ao ano, por que é que ele deixaria de aceitar o empréstimo a uma taxa de juros de 120.25%? A variação da SELIC é insignificante frente às taxas de juros praticadas para o consumidor... o que faz com que a explicação dos bancos pela necessidade de juros altos seja, na melhor hipótese, conversa para boi dormir.
A questão é a seguinte: quando os juros dos títulos do governo estão baixos, os investidores e bancos têm estímulo a emprestar para os consumidores, mesmo com os alto riscos já citados. Entretanto, como já comentado, os bancos não gostam de riscos. Assim, quando os juros do governo sobem, eles preferem colocar mais recursos em títulos do governo, como também já explicado, porque embora o lucro seja menor, o retorno é certo... isto é, sem riscos.
Mas o que isso tem a ver com a redução da inflação?
Também como já discutido, a relação entre o comportamento do banco e a inflação é que, se o banco pegou o recurso e comprou títulos do governo, ele não vai emprestar para o consumidor que for até o banco pedir um empréstimo. Isso é feito, usualmente, não aumentando ainda mais as já absurdas e extorsivas taxas de juros ao consumidor, mas enrijecendo os critérios de concessão de crédito. Isso significa, por exemplo, que o senhor "Zé das Couves" que, com um salário de R$1.500,00 conseguia um empréstimo de R $500,00 "pré-aprovado" na semana anterior a um aumento da taxa SELIC, depois do aumento não terá mais seu crédito aprovado.
Observe que o cliente deixou de tomar o crédito não porque a taxa de juros subiu, mas porque o banco se recusou a emprestar. E o banco se recusou a emprestar porque tinha algo melhor para fazer com o dinheiro: emprestar para o governo e lucrar "sem fazer nada".
Esse tipo de situação é chamado, em "economiquês", de "empoçamento". Empoçamento é quando os bancos "sentam" em cima do recurso financeiro e não o emprestam.
Ocorre que essa é a forma errada de combater a inflação. E por quê?
A razão básica para que isso seja errado é o efeito sistêmico que o tal comportamento de "sentar" em cima do recurso ocasiona. Em resumo, se as pessoas não compram, as empresas deixam de vender. Se elas deixam de vender, elas deixam de lucrar e reduzem os empregos (e, eventualmente, quebram). Com a redução de empregos, a remuneração média das pessoas cai e elas passam a consumir ainda menos, agravando ainda mais o ciclo.
Esse ciclo vicioso é chamado de recessão e, basicamente, significa que o país para de crescer (na verdade, ele encolhe) e as pessoas ficam cada vez mais pobres.
E isso vale inclusive para o governo, que passa a arrecadar menos impostos, e, para continuar a investir e tentar reverter o processo, terá de pagar mais juros... Ocorre que, na situação recessiva, todos (as pessoas e governo) têm menos recursos e, sendo assim, há dois novos fatores envolvidos na "brincadeira":
- Poucas pessoas possuem recursos para investir em títulos do governo (ou seja, para emprestar para o governo);
- Com as quebras e perdas de emprego, o risco de calote aumenta (inclusive o do próprio governo).
Com esses dois novos fatores, o governo tem que pagar juros ainda mais altos, piorando ainda mais a situação, pois agrava o empoçamento e compromete ainda mais os recursos do governo com o pagamento de dívida, levando a uma crise profunda e permanente.
Quando isso ocorre, o país não tem outra alterntiva além de ir "com o pires na mão" pedir dinheiro ao FMI, como o Brasil fez diversas vezes antes de 2003.
Mas se o desastre é tão grande e iminente, por que é que o "mercado" colabora com essa visão tacanha dos bancos?
Por Que o "Mercado" Quer Que a Taxa de Juros Suba?
Como já foi apresentado de diversas formas, o aumento da taxa de juros sempre leva a consequências funestas para a chamada "economia real" (empresas produtoras, envolvendo sua cadeia de produção e consumo). Por que, então, "o mercado" deseja altas taxas de juros?
A resposta está, obviamente, na natureza humana. O ser humano é naturalmente preguiçoso e isso se manifesta das mais diferentes formas: do controle remoto ao uso de carro para ir à padaria. Isso não é intrinsecamente ruim, já que grande parte do chamado "desenvolvimento" está atrelado a "produzir mais fazendo menos"12.
O problema surge quando a preguiça chega a um extremo em que se quer ganhar sem esforço algum. Montar uma empresa, gerenciar funcionários... tudo isso dá muito trabalho (para não falar no risco)! Que tal colocar seu rico dinheirinho pra "procriar" no tesouro nacional? Vamos comprar títulos e deixar que os recursos se multipliquem sem que tenhamos de nos esforçar!
"Não é bem assim", você deve estar imaginando, "Isso pode funcionar bem para quem já tem os recursos... mas e para quem não os tem?"
Se você pensou isso, está sendo pouco criativo... provavelmente porque tem trabalhado demais. Esse pessoal preguiçoso que não quer trabalhar tem bastante tempo para ter idéias criativas. Preste atenção no que esse pessoal criativo observou (em valores reais, isto é, já com a inflação descontada):
- Taxa de Juros de Empréstimo no Exterior: -1% a 1% ao ano.
- Taxa de Juros de Títulos do Governo no Brasil: 5% ao ano.
O indivíduo imagina: "Humm, vou pegar dólares emprestados nos EUA, a juros reais negativos, e vou comprar título no Brasil". Parece esquisito? Não é não. Veja o que acotece (simplificadamente, usando uma única moeda, em valores reais), tomando um empréstimo com juro de 1% ao ano nos EUA e investindo a 5% ao ano no Brasil:
| Depois de | Dívida | Valor dos Títulos |
|---|---|---|
| 0 ano | R$1.000,00 | R$1.000,00 |
| 1 ano | R$1.010,00 | R$1.050,00 |
| 2 anos | R$1.020,50 | R$1.102,50 |
| 5 anos | R$1.051,01 | R$1.276,28 |
| 10 anos | R$1.104,62 | R$1.628,90 |
Com isso, se ao fim dos 10 anos você pagar sua dívida, você ainda fica com R$1.628,90 - R$1.104,62 = R$524,27... Aproximadamente uma rentabilidade de 52,3% em 10 anos, o que é muito bom... em especial, se considerarmos que não entrou um tostão do seu bolso!
R$524,00 parece pouco? Bem, isso é para R$1.000,00. Refaça as contas com R $1.000.000,00 e você terá um rendimento de R$524.000,00 em 10 anos... ou, grosso modo, uns R$52.400,00 por ano... ou cerca de R$ 4.300,00 por mês, sem entrar com um único tostão do seu bolso. Nada mal, não é? Só precisa conhecer as "pessoas certas" para conseguir o empréstimo de R$1.000.000,00.
É claro que não são só os brasileiros que percebem isso; os estrangeiros também entram nessa onda... trazendo seu dinheiro para "investir" aqui e levar embora os vultosos lucros.
Parece muito bom para todos que investem, não é? Então... é ótimo sim, mas a coisa fica ainda melhor! Nessa conta que mostrei, ao tomarmos a mesma moeda nos dois lados, consideramos que as moedas mantenham seu valor relativo, isto é, que a inflação do Dólar e do Real sejam as mesmas.
Ocorre que, como já explicado, os títulos do governo Brasileiro são vendidos em moeda nacional (reais)... mas os empréstimos internacionais são feitos, em geral, em Dólar. Como alguém pode usar Dólar para comprar título do governo brasileiro?
Como vimos anteriormente... a resposta é: não pode. Para comprar título do governo brasileiro é preciso comprar reais, isto é, trocar os dólares por reais. Quando muita gente quer trocar dólares por reais, acaba existindo um excesso de vendedores de dólares (compradores de reais) e uma carência de vendedores de Real (compradores de dólares). Em resumo: sobra Dólar e falta Real. O que acontece então? O "preço" do Dólar cai (porque tem muito no mercado) e o do Real sobe (porque falta no mercado). Isso se chama "valorização relativa" do Real frente ao Dólar.
Ora, se você compra uma casa e ela se valoriza (frente à moeda que você usou para pagá-la), quando você vender a casa e voltar para a moeda original... vai ter um lucro, certo? Pois é: o mesmo ocorre com a moeda: se você pegou um empréstimo em Dólar e comprou uma outra moeda (o Real) e o Real se valoriza, quando você vender o Real irá ter um lucro adicional (além das taxas de juros já citadas).
Vamos refazer aquela tabela, considerando as taxas de juros citadas, mas com duas cotações diferentes: quando pegamos o empréstimo, cada Dólar valia R $2,00 e, depois de 10 anos, cada Dólar passou a valer R$1,50:
NOTA: O valor inicial em dólares é U$500,00 porque é o valor equivalente de recursos a R$1000,00, considerando a cotação inicial de R$2,00 por Dólar.
| Depois de | Dívida | Valor dos Títulos |
|---|---|---|
| 0 ano | U$500,00 | R$1.000,00 |
| 1 ano | U$505,00 | R$1.050,00 |
| 2 anos | U$510,25 | R$1.102,50 |
| 5 anos | U$525,51 | R$1.276,28 |
| 10 anos | U$552,31 | R$1.628,90 |
Ao final, com a taxa de R$1,50 por Dólar, minha dívida é de R$828,47. Pagando essa dívida, sobra ainda R$1.628,90 - R$828,47 = R$800,43.
Em outras palavras, a rentabilidade em reais subiu de 52,3% para 80,04% em 10 anos... um belo incremento! Isso significa que, com um empréstimo de U $500.000,00 como Dólar a R$2,00, teremos R$800.000,00 em 10 anos... o que, grosso modo, são R$80.000,00 por ano, mais de R$6.500,00 por mês!
Maravilhoso, não? NÃO, se considerarmos que quem está pagando toda essa diferença somos nós, na forma de impostos, compondo um verdadeiro bolsa rentista, esta sim pagando "vagabundo que não trabalha". Esse ganho com a valorização de uma moeda frente à outra é comumente chamado de "farra da moeda".
Aí você vai dizer: "bem, colega... você tem razão sobre a rentabilidade, mas foi considerada uma valorização do Real frente ao Dólar... e isso não é um parâmetro controlável por quem está fazendo o jogo". Então... isso significa que há risco na jogada, e o sujeito está sendo remunerado pelo seu risco... certo?
Mais uma vez... ERRADO. Primeiro porque, ainda que haja risco, é preciso que uma eventual perda de longo prazo com a variação da moeda seja muito alta para eliminar os ganhos com o diferencial das taxa de juros reais. Mas não é só isso. Tem um outro pequeno detalhe: a valorização do Real frente ao Dólar sempre vai ocorrer se o capital estrangeiro estiver entrando aqui (para comprar títulos públicos, por exemplo). Se nossa taxa de juros estiver muito alta com relação ao resto do mundo, essa condição se satisfaz e sim, haverá valorização do Real (pelo mecanismo de excesso de dólares, já explicado).
Por outro lado, salvo alterações pelo Banco Central, a taxa SELIC é um valor estático. Isso significa que se a inflação sobe, a rentabilidade Real cai. Por exemplo: se a SELIC é de 12% e a inflação é de 7%, a rentabilidade real é 5%. Se a inflação subir para 10%, a rentabilidade real dos títulos brasileiros atrelados à SELIC cai para apenas 2%, muito próximo dos valores dos outros países.
Bem, então... se a inflação sobe, a atratividade dos capitais para o Brasil cai...! E com isso, alguns investidores podem ir embora, isto é, vão começar a vender seus títulos, comprar dólares e voltar a investir em seu país de origem...! Êpa! Espere aí...! Eu disse comprar dólares? Se muita gente começar a comprar dólares, o Real vai desvalorizar frente ao Dólar, corroendo ainda mais os lucros da "bolsa rentista"!
É aí que os investidores do "mercado" clamam: "Não! Isso não pode acontecer!"... e complementam: "A inflação subiu, é fundamental aumentar os juros para controlar a inflação!"...
Na verdade, o que eles estão dizendo é: "Não! Nossos lucros estão caindo... e vão cair ainda mais se o Real começar a desvalorizar! Por favor, senhor governo, aumente os juros para manter nossos lucros estratosféricos com juros e manter a valorização do Real!"13.
Agora que você já sabe a verdadeira história do Papai Noel, deve estar se perguntando: por que a mídia divulga esse tipo de análise que beneficia só meia dúzia de pessoas e prejudica todo o restante do país?
Bem, quem você acha que é a meia dúzia que manda nos meios de comunicação deste país?
Para Não Dar Muito na Cara...
É por causa de tudo isso que os analistas frequentemente embasam suas análises com dados sobre a retração do consumo, apresentando isso de um maneira tão distorcida que as pessoas passam a achar legal que a população passe a comprar menos (esquecendo-se de que cada um de nós faz parte dessa população!).
Um outro argumento comum para justificar a valorização da moeda é que o Real valorizado também ajuda a combater a inflação... visto que os produtos importados (cujo preço é em Dólar) ficam mais baratos por aqui. O mesmo, supostamente, vale para os produtos nacionais que usam peças importadas.
Sim, isso é ótimo para quem tem dinheiro. Mantém inflação baixa para aqueles que têm "o seu rendimento garantido". Por outro lado, produto importado não gera emprego aqui... pelo contrário, reduz o número de empregos em nosso país. Sendo assim, menos brasileiros terão dinheiro para comprar produtos produzidos no Brasil, levando à recessão e quebradeira já vistas em diversas ocasiões.
Alguns dizem que a indústria daqui precisa ganhar competitividade e reduzir seus custos, exportar... ocorre que isso é impossível com uma moeda artificialmente valorizada, como vem ocorrendo por conta da "farra da moeda". Com o Real artificialmente valorizado, da mesma forma que os produtos estrangeiros (com custo em Dólar) ficam mais baratos aqui, os nossos produtos (com custo em Real) ficam mais caros lá fora. Observe que isso tem a ver com o valor relativo entre as moedas, não tem nada a ver com eficiência das empresas.
A seguir...
No próximo e útimo artigo serão discutidas as possibilidades do governo... o que ocorre quando ele segue a cartilha do mercado e o que é que ele pode fazer de diferente, concluindo a nossa série econômica.
Veja a quarta parte!
(12) Se o "tempo livre" fosse distribuído igualmente, talvez todos trabalhassem pouco e tivessem mais tempo livre; entretanto, a lógica capitalista subverte o processo e faz com que muitos "morram de trabalhar", trabalhano sem parar, e outros vivam no desemprego completo. Pleno emprego não deveria existir apenas quando se vive um "boom" de crescimento. E, caso tenha se perguntando qual é a outra fonte de desenvolvimento - além da preguiça... é a ganância, que usualmente se manifesta na forma de guerra.
(13) Uma verificação desse conceito pode ser feita pelo efeito oposto: recentemente o governo baixou suavemente a taxa SELIC e deu sinais de que deve voltar a baixar, mesmo com a inflação aparentemente em um patamar alto... e quando todos diziam que o banco central deveria subir a taxa de juros. Como consequência, um negócio que era lucro certo passou a conter um grande risco: a política de juros do Banco Central passou a não ser tão previsível como tem sido nos últimos 16 anos. Sendo assim, houve debandada dos "investidores internacionais", que preferiram vender seus títulos e comprar dólares e voltar a investir em seus países de origem... o que fez o Dólar se valorizar substancialmente. Isso é ruim? Em parte, porque com a valorização do Dólar teremos uma pressão de aumento nos produtos que usam peças importadas. Por outro lado, isso melhora a situação de nossa indústria exportadora e estimula a produção no país de peças que, antes, eram importadas... e assim, aumenta a geração de emprego e renda para a população... tendo assim um efeito muito mais benéfico do que os analistas fazem crer.
Qua, 30/Nov/2011, 15:54
Por: Daniel Caetano
Por Quem os Sinos Dobram: Parte 2 | 3 Votos |
Atenção! Este artigo não se inicia aqui! Caso você tenha perdido, veja a primeira parte!
No artigo anterior foi apresentada uma breve explicação sobre o significado da taxa SELIC e também foi apresentado um dos muitos problemas de um valor alto para esta taxa.
Neste artigo serão apresentados os problemas que as altas taxas de juros trazem para o setor produtivo, bem como o efeito dessas taxas no "preço" do Dólar e as consequências dessa interação na economia. Finalmente, inicia-se a discussão da razão para as sugestões de alta na taxa de juros.
A Redução da Produção
Uma consequência direta - mas nem sempre muito bem compreendida - das altas taxas de juros é a redução dos investimentos em produção. Por que uma taxa de juros de títulos do governo alta iria influir na produção?
Para entender esse efeito é necessário, antes de mais nada, compreender qual é o "combustível" dos investidores: a rentabilidade. Sempre que alguém vai investir em qualquer negócio, essa pessoa observa pelo menos quatro elementos: 1) o montante a ser investido; 2) a remuneração pelo investimento; 3) o prazo de retorno do investimento e, finalmente, 4) o risco envolvido.
Se um investidor tiver de escolher entre várias alternativas de investimento, ele vai escolher comparando esses fatores entre todos os investimentos possíveis, selecionando aquele que lhe parece mais interessante.
Destes quatro fatores, entretanto, um se sobressai quando se analisa o comportamento da grande maioria dos investidores - em especial em épocas de grandes incertezas como a em que vivemos: o risco. Quanto maior o risco, mais difícil achar alguém para topar um investimento. Um alto risco faz com que muitos investidores sequer se interessem ´pela rentabilidade/prazo de retorno do investimento4.
Neste panorama, imaginemos que um investidor seja picado pelo "mosquito do empreendedorismo" e resolva investir R$100.000,00 para abrir uma loja de uma franquia qualquer. Esse tipo de investimento exige um montante alto, costuma ter um prazo para retorno relativamente dilatado (2 a 3 anos, se tudo correr bem) e, no final, consideremos que a rentabilidade não é exatamente gigantesca, ficando na casa dos 30% ao ano. O risco, por sua vez, é médio (por se tratar de uma franquia)... e incomoda o empreendedor.
Neste momento, com o risco em mente, o investidor pensa em tudo que ele tem a perder: suponhamos que não dê certo; o que está em jogo não é apenas a rentabilidade: é preciso considerar que não será fácil "sair" do negócio, pois para recuperar uma boa parte do valor inicialmente investido é preciso achar alguém para comprar a "unidade franquiada". Isso significa que, se não der certo, recuperar o capital investido será difícil, se não impossível. Considerando que funcione mais ou menos bem, será necessário pelo menos uns 2 a 3 anos para que o investimento seja pago... e depois disso, o rendimento ainda não é muito bom. Isso para não falar no trabalho de tocar uma unidade comercial, lidar com funcionários, clientes, manutenção...
Aí o investidor olha para o lado e vê as "ofertas" de títulos do governo: você empresta quanto quiser, escolhe o prazo para receber seu capital de volta, não vai ter trabalho algum par obter sua renda e, finalmente, não corre praticamente risco nenhum.
Repare, porém, que quando a taxa de retorno do investimento na franquia for de 30% (ou mais) e a taxa de juros do governo for de 10% (ou menos), o investidor ainda pode ficar tentado a montar o negócio, afinal... mesmo com o risco maior e a dor de cabeça maior, é um retorno 3 vezes maior. Entretanto, à medida em que a taxa de juros sobe, investir na franquia fica cada vez menos atrativo5.
Ora, quanto mais próxima da rentabilidade da franquia for a rentabilidade garantida pelo governo, menos pessoas se aventurarão com a franquia. Isso faz com que o país cresça mais lentamente; todos os novos negócios que iriam ser criados, gerando emprego, renda e mais impostos simplesmente deixam de ocorrer, agravando a situação do governo (que além de ter que pagar uma grande soma em juros pelos títulos, ainda por cima passa a arrecadar menos impostos).
Assim, mais uma vez fica claro que subir a taxa de juros básica - aproximando-a do retorno dos investimentos tradicionais - tem efeitos deletérios para a economia como um todo.
O Problema do Dólar
Esses resultados já seriam suficientemente ruins se nosso país fosse, como se diz, "uma ilha", absolutamente isolado do mundo. Mas, como o Brasil não é isolado, uma alta taxa básica de juros tem consequências ainda mais insanas, em especial com o resto do mundo em crise.
Por quê? Bem, comecemos entendendo o que se passa nos países em criste. Como uma maneira de contrapor os efeitos acima relatados (além de outros), estes países sustentam a taxa de juros em níveis muito baixos. A idéia é que isso estimule o investimento na chamada "economia real" (produção de bens e serviços), tornando tais investimentos muito mais atrativos que deixar o dinheiro parado com o governo6.
Por outro lado, as pessoas desses países têm uma alternativa além da clássica "abrir um negócio x comprar títulos do governo de seu país"... que tal comprar títulos do governo brasileiro?
Existe um pequeno empecílho para os estrangeiros, entretanto: os títulos do governo brasileiro são vendidos em reais, não em sua moeda ou em dólares... Sendo assim, para comprar títulos do governo do Brasil, os investidores estrangeiros precisam comprar reais... ou, em outras palavras, os estrangeiros precisam encontrar brasileiros que queriam trocar reais por dólares.
Como está difícil e arriscado obter bons rendimentos na maioria dos países e o governo brasileiro oferece uma opção muito rentável (altas taxas de juros) e de baixo risco, o resultado é uma quantidade enorme de investidores estrangeiros desejando trocar dólares por reais, a fim de comprar títulos do governo. Sendo assim, como tem muita gente com dólar procurando pessoas que tenham reais para "trocar", o resultado é que sobram dólares e faltam reais.
Neste caso, as moedas se comportam como produtos no mercado. O que ocorre com o preço de "coisas" que estão em falta? E com o preço das "coisas" que estão sobrando?
Como sobra dólar, seu "preço" cai... como falta Real, seu preço "sobe". Isso significa, em outras palavras, que o Real se valoriza frente ao dólar. Quais as consequências disso?
Para a indústria estrangeira, isso é maravilhoso: com o Real valorizado, um Real "compra" mais dólares e, assim fica barato comprar todos aqueles produtos importados, ir viajar para o exterior e gastar um monte de grana por lá. Entretanto, para a nossa indústria... um Real valorizado significa o caos.
A indústria nacional tem a maior parte dos seus custos atrelados à moeda Real e, quando o valor da moeda Real sobe com relação ao Dólar, são necessários mais dólares para comprar um produto em reais. Em outras palavras, isso significa que o preço dos nossos produtos fica mais alto quando comparados com produtos cujos custos são atrelados à moeda dólar. No fim das contas, isso significa que, quanto mais valorizado estiver o Real frente ao Dólar, mais difícil vai ser vender produtos brasileiros para estrangeiros. Os estrangeiros vão preferir comprar os produtos mais baratos de outros lugares... ao invés de comprar os "caros produtos brasileiros". Para piorar, mesmo aqui no Brasil, muitas vezes os consumidores darão preferência para produtos importados ou com muitas peças importadas pois seu valor tenderá a ser mais baixo.
Ora, com a redução do consumo de seus produtos, as empresas nacionais tendem a quebrar, a empregar menos, a pagar menos impostos... atrapalhando ainda mais o nosso país e o nosso povo. Alguns podem argumentar que isso estimularia a nossa indústria a aumentar sua eficiência, mas aumento de eficiência exige, normalmente, investimentos. Ora, se a rentabilidade da empresa está caindo e a taxa de juros do governo está alta, torna-se um contra-senso investir na empresa! Alguns empresários abnegados até podem fazer isso, mas serão poucos!
O governo poderia minimizar o problema com taxações aos produtos importados, mas infelizmente isso não é algo que o país tenha liberdade de fazer... sem sofrer retaliação de outros países que (ainda) compram nossos produtos. Se, por outro lado, o governo simplesmente reduzir os impostos dos produtos nacionais, perde arrecadação, complicando seu próprio orçamento7.
Diante de tantas coisas horríveis que os juros altos causam... você deve estar se perguntando: como é que algum "jornalista de economia" pode defender a alta de juros?
Bem, nesta hora fala mais alto um dos três "Is": ou é ignorância, ou é incompetência... ou é interesse. Usualmente é um pouco de cada um, com grande ênfase no último.
Por Que o Mercado Diz Querer Que os Juros Subam
Os analistas de economia sempre tem uma resposta pronta quando lhes questionam sobre sua recomendação de juros altos: inflação. Entretanto, para dar essa resposta, fazem força para ignorar que o aumento de juros não é o melhor remédio para qualquer tipo de inflação8... além de ignorar todos os problemas dos já mencionados anteriormente. Em outras palavras, "juro alto" é daquele tipo de remédio que mata a doença, só que "leva" o paciente junto.
Mas aumento de juros não abaixa a inflação? Sim... mas digamos que... juros altos fazem a inflação baixar, em geral, pela razão errada.
A alta da inflação é, usualmente, relacionada ao aumento do consumo. Por outro lado, em uma primeira análise, parece existir uma relação direta entre "aumento de juros" e "queda do consumo"... mas, na realidade, a coisa é bem mais complexa. Como dizia um professor de cálculo da USP: "Para todo problema complicado existe pelo menos uma resposta muito simples... e errada!"
Um remédio bem receitado é aquele que ataca a doença, não a febre. É preciso entender de onde vem a inflação brasileira para que se possa definir um remédio eficiente.
Considerando que os salários dos Brasileiros não têm crescido a taxas "palacianas"9, de onde viria um aumento do consumo capaz de gerar inflação? Há muitas respostas para essa pergunta, mas a resposta que tem relação com a taxa de juros pode ser definida com uma palavra: crédito.
Se as pessoas não estão tendo aumentos exorbitantes, a única explicação para conseguirem comprar muito mais é... estão tomando empréstimos. A idéia defendida por analistas é que "se a taxa de juros do governo sobe, a taxa de juros ao consumidor fica mais alta"... então, com a alta de juros, as pessoas irão tomar menos empréstimos e a economia irá desaquecer, reduzindo a pressão inflacionária.
Independente de quão sedutora essa explicação seja, no meu humilde entender, ela é absurda, quando se compara a taxa de juros oferecida pelo governo com a taxa de juros cobrada do consumidor.
Nos melhores casos - crédito consignado -, a taxa de juros ao consumidor é de 20% ao ano, ante os 12% da taxa SELIC. No caso médio, a taxa de juros é muito maior, indo além dos 150% ao ano em modalidades de empréstimo "pega trouxa", como cartão de crédito e cheque especial.
Vamos considerar que, na média, o crédito oferecido ao consumidor seja de 120% ao ano10. Digamos que, se a SELIC dobrasse (fosse a 24%), esperar-se-ia um aumento na taxa média ao consumidor de aproximadamente 12 pontos, indo a cerca de 130%. Ora, um sujeito médio que tome empréstimo com juros de 120%, toma igualmente um empréstimo com juros a 130%. O que o consumidor médio olha - em especial os com menor cultura econômica - não é a taxa de juros, mas sim "se a prestação cabe no bolso". Isso significa que, para ele, se a taxa de juros for maior mas ele puder pagar em 36 vezes ao invés de 24 vezes, "melhor"! (em sua visão simplória, claro!)
Mas se a teoria não se sustenta nem diante de uma análise simples e com um aumento tão exagerado da SELIC, como é que ela é divulgada como realidade indiscutível?
A questão é que o aumento da taxa de juros vai sim reduzir a tomada de empréstimos, mas não é pelo aumento da taxa ao consumidor...
Para entender porque, coloque-se no lugar do banco.
Se você, como banqueiro, tem um investimento de alto retorno (títulos do governo) com um risco baixíssimo, por que é que você investiria em negócios arriscados?
A resposta para a pergunta acima é... "para aumentar a rentabilidade". É claro que o banco vai fazer empréstimos de risco; entretanto, ele não vai colocar todo o seu capital nesses negócios. Assim como as pessoas, que diversificam entre "renda fixa", "poupança", "ações"... o banco também diversifica: ele empenha uma parte dos recursos em negócios "de alto risco e potencial alta rentabilidade" e, o restante dos recursos é investido em negócios "de baixo risco, ainda que com rentabilidade mais baixa". Podemos chamar o conjunto de investimentos do banco de "carteira de investimentos" do banco.
O cálculo realizado leva em conta os dois fatores: rentabilidade e risco; tenta-se maximizar a rentabilidade ao mesmo tempo em que se minimiza o risco do banco. Como os bancos são muito avessos ao risco11, a maior parte dos recursos tendem a ser alocados aos títulos do governo, ainda que estes possuam uma remuneração menor.
Ora, se os recursos vão para títulos do governo... eles deixam de ir para outros investimentos, como empréstimos (do ponto de vista do banco, empréstimo é investimento!)... e sendo assim, as pessoas têm menos recursos à disposição e, como consequência, há redução do consumo.
A seguir...
No próximo artigo será melhor detalhada a relação entre a carteira de investimentos dos bancos e a redução dos empréstimos e do consumo, como essa relação leva ao prejuízo da sociedade e o que o "mercado" tem a ganhar com isso.
Veja a terceira parte!
(4) Um exemplo bastante bobo é o da loteria como investimento. O investimento inicial é irrisório, a rentabilidade é altíssima e o retorno é praticamente imediato... entretanto, o alto risco envolvido faz com que muitos considerem simplesmente uma "bobagem" jogar na loteria, nem mesmo considerando que seja um investimento.
(5) E nem entrei nos efeitos de segunda ordem do processo, isto é, que com o aumento da taxa de juros os consumidores passam a gastar menos e, provavelmente, a rentabilidade anual da franquia tenda a cair quando a taxa de juros aumenta!
(6) Até porque... depois de dar todo seu dinheiro aos bancos falidos para que eles não quebrassem, os governos desses países em crise não têm um tostão furado para pagar seus juros! Alguns, como os EUA, já estão até imprimindo dinheiro para minimizar o problema, causando transtornos incríveis.
(7) Ainda que possa existir um efeito positivo na arrecadação, a médio prazo, em decorrência de um possível aumento de produção e circulação... mas dificilmente o governo consegue "anular" valorização cambial com redução de impostos... a razão para isso é simples: em princípio, a possível valorização da moeda é ilimitada... já a redução possível dos impostos é finita!
(8) Existem muitas causas para a ocorrência de inflação. As mais diretas são a inflação de moeda (quando o valor de uma moeda cai diante das outras, usualmente devido à impressão de papel moeda por parte do governo) e a inflação de circulação ou consumo (quando as pessoas se tornam excessivamente consumistas, elevando demais o consumo e, com a falta de produtos decorrente, os preços sobem e, por consequência, compra-se menos com a mesma quantidade de papel moeda). Desprezando-se todos os efeitos deletérios, sim, estas duas podem ser mitigadas com um alta de juros. Entretanto, existe um outro tipo de inflação, aquela que é importada, contra a qual a alta dos juros não pode fazer muita coisa sem prejudicar de sobremaneira nossa economia. O que é inflação importada? É quando as moedas de outros países desvalorizam (como ocorreu, recentemente, quando os EUA aplicaram o "quantitative easing", um eufemismo para "Os EUA imprimiram dinheiro sem crescimento do país") ou quando o preço de produtos que expotamos sobem no mercado internacional (por exemplo: quando o álcool ou açúcar sobe no mercado internacional, sobe no Brasil também... afinal, os produtores vão preferir exportar e aí falta aqui no nosso mercado, fazendo o preço nacional subir e se equiparar ao estrangeiro). A única coisa que o juros altos fazem para melhorar essa equação é valorizar o Real, com a "chuva de dólares", mas com todos os efeitos negativos já citados para a indústria nacional.
(9) Taxas palacianas são os aumentos que executivo, legislativo e judiciário frequentemente se concedem, da ordem de 25% a 50%, sem a menor justificava... já que a produtividade, qualidade e efetividade da grande maioria dos nobres membros do governo pode ser considerada bastante questionável.
(10) Segundo dados da ANEFAC. E mesmo com essa taxa aviltante, de 120% ao ano em média, a procura por crédito em agosto de 2011 creceu mais de 8%, segundo a Serasa/Experian.
(11) Uma prova de que o banco é avesso a risco é justamente a alta taxa de juros ao cliente. O banco pega capital emprestado - seu, por exemplo, no CDB - e paga algo entre 7% e 10% ao ano. Em tese, se ele pudesse emprestar este valor por qualquer taxa de juros acima de 10% já seria um grande negócio: ele não colocou um tostão do capital dele na "roda", mas está lucrando com o dinheiro alheio. Ocorre que, ao fazer isso, ele corre um risco: se ele emprestar o seu dinheiro para uma outra pessoa... e esta pessoa não pagar, além de perder a parte dele dos juros, ele ainda "morre" no valor do capital que você emprestou mais a taxa de juros que ele lhe prometeu. A diferença entre o quanto o banco paga de juros para você, quando você aplica em um investimento, e o quanto ele cobra de você, quando você toma um empréstimo, indica o quanto o banco quer de remuneração para valer a pena correr o risco de emprestar o dinheiro. Essa diferença (que no Brasil, considerando uma alta taxa média de rendimento paga (em aplicações) de 10% e a taxa média cobrada pelos bancos (nos empréstimos) de 120%, é de 110%) é chamada spread e indica a aversão a risco do banco.
Seg, 28/Nov/2011, 10:55
Por: Daniel Caetano
Por Quem os Sinos Dobram: Parte 1 | 3 Votos |
Você é daquelas pessoas que sempre quis entender o que os "analistas econômicos" dizem mas nunca conseguiu decifrar os jargões? Já se pegou pensando no que o dólar tem a ver com a taxa de juros? Ficou sem entnder porque nos útimos meses dezenas de analistas jogaram pedra no governo porque ele fez exatamente o que os analistas exigiam há anos (abaixar a taxa de juros)?
Se você já se pegou algumas vezes fazendo essas perguntas ou é apenas muito curioso, prepare-se para um jornada de vários artigos pela economia tupiniquim moderna.. prepare-se para um curso relâpago para compreender o noticiário econômico nacional!
A observação da natureza mostra como a grande maioria dos animais é afeita a padrões. O ser humano, certamente, não foge à esta regra. Dormir sempre do mesmo lado da cama, seguir a "moda" ou mesmo "nunca fazer a mesma coisa" são padrões aos quais estamos habituados; é incomum encontrar um animal saudável que apresente um comportamento errático.
Esse é assunto para um outro post, mas o fato é que, como humanos, temos hábitos. Sempre tentamos estabelecer regras e identificar padrões. Quanto mais agimos sem pensar, mais nos tornamos "escravos" das regras tácitas que construimos em nossas mentes.
Para a maioria das pessoas isso significa apenas ir sempre ao mesmo supermercado, ouvir todos os dias as mesmas rádios, cortar o cabelo sempre do mesmo jeito (ou sempre de um jeito diferente)... o maior risco que as pessoas normais correm é cair na mesmisse e ter uma crise no casamento porque é tudo "sempre muito igual".
Para pessoas da área técnica, entretanto, os hábitos podem ser desastrosos. O hábito de seguir uma regra pode cegar para outros elementos e tornar o resultado de uma análise totalmente equivocado, causando prejuízos enormes, sejam eles financeiros ou humanos.
Um destes hábitos perigosos é o de seguir um "mantra" sem o saudável questionamento... um mantra como aquele que transparece em declarações de especialistas e leigos na área econômica: se a atividade econômica aumenta, tem inflação... e então o governo deve subir a taxa de juros básica (SELIC, no Brasil) para reduzir a atividade econômica e controlar a inflação. Esse assunto tem estado há tanto tempo na pauta, todos os dias no jornal, que a grande maioria das pessoas concorda com essa regra e se surpreende quando, por exemplo, o Banco Central abaixa a taxa de juros básica mesmo com uma inflação relativamente alta.
Será que o Banco Central errou?
Será que foi interferência política?
Bem, ao invés de responder diretamente a estas perguntas, vou apresentar o assunto por um outro viés... vou lhe fazer uma pergunta, caro leitor: você sabe o que é e para que serve a taxa SELIC?
O Que é a Taxa SELIC
Creio que todos saibam o que é tomar um empréstimo. Alguém que precise de dinheiro vai ao banco e solicita um empréstimo. O gerente do banco analisa o pedido da pessoa, as garantias que ela dá e, de acordo com o risco do empréstimo (leia-se: da pessoa não pagar), diz quanto pode emprestar e estipula uma taxa de juros, que é o quanto a mais a pessoa terá que pagar ao banco para receber o empréstimo. Nestes termos, o juro é uma remuneração ao banco pelo risco que ele corre quando empresta dinheiro a alguém.
Bem, para um governo as coisas não são tão simples; primeiro porque os empréstimos que o governo eventualmente precisa são muito altos e segundo porque um governo pegar dinheiro no sistema bancário do próprio país pode ter consequências ruins que fogem ao foco deste texto. Entretanto, o governo não está "abandonado", ele tem diversas alternativas.
Ele pode imprimir dinheiro1 ou aumentar impostos2, por exemplo. Pode até pedir dinheiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI) 3. Cada uma dessas opções tem consequências muito ruins para o país, para não falar no custo político.
Mas então... o governo não tem uma alternativa saudável? Todas as formas de pegar empréstimo são horríveis?
Bem, é exatamente para isso que existem os chamados títulos púbicos. Qualquer cidadão pode comprar um destes títulos que, na prática, significa que o cidadão emprestou dinheiro para o governo. O título simplesmente diz isso: "Fulano de tal, emprestou R$XXXX,XX para o governo, que será devolvido em YY anos". Ora, e por que, em sã consciência, um cidadão que já paga uma fortuna em impostos se interessaria por emprestar dinheiro ao governo?
É nessa resposta que está o pulo do gato.
Para que as pessoas emprestem dinheiro ao governo, ele paga uma taxa de juros anual, que usualmente varia com o prazo (o número de anos para que o governo devolva o dinheiro). Essa taxa de juros pode ser fixa (8% ao ano, por exemplo), pode ser atrelada à inflação (IPCA + 3% ao ano, por exemplo) ou pode ser atrelada à uma taxa flutuante que, no Brasil, atualmente é a chamada SELIC.
Assim como o banco exige que o juro seja maior quanto maior o risco, também as pessoas que pretendem comprar títulos do governo têm exigências: quanto mais arriscado é considerado o investimento em um país, maior é a taxa de juros exigida dos títulos públicos daquele país.
Assim, se o governo precisa muito de dinheiro emprestado, ele pode subir a taxa de juros, para tornar o empréstimo ao governo mais "atrativo". Exemplo: se você pode investir na sua loja e ter um retorno de 8% e correr todos os riscos, ou pode emprestar para o governo e receber 12.5% correndo bem menos riscos... é uma decisão óbvia: empreste para o governo e vá descansar na rede, tomando uma cerveja na beira da praia!
Bem, sabendo que o Brasil tem uma das mais altas taxas de juros do mundo, pode-se concluir que o Brasil é um dos países que mais precisa de dinheiro... ou é um dos países mais arriscados do mundo para se investir, certo?
ERRADO.
Foge ao escopo deste texto explicar o porque, mas o Brasil é, atualmente, um dos países de menor risco de investimento e, sim, o governo precisa de dinheiro, mas não na magnitude que a taxa de juros SELIC sugere.
Em uma análise superficial, essa incoerência pode não ser grave... mas em uma análise mais aprofundada, os problemas ficam evidentes.
Problemas de uma Taxa de Juros Alta
Quando somos nós quem pagamos um empréstimo, queremos que a taxa de juros seja sempre a menor possível, não é? Bem, para o governo, então, quanto menor o juros que ele tiver de pagar, também é melhor, correto?
Mas o que nós, simples cidadãos, temos com isso?
Nós temos com isso que esses juros são pagos com os impostos que nós pagamos. "Lendo" de outra maneira, quanto maior a taxa de juros, maior é a fatia dos nossos impostos que é repassada aos cidadãos que emprestaram dinheiro ao governo.
Apesar de só isso, em si, não ser razão para indignação, vamos pensar com um pouco mais de calma. Imagine um sujeito que ganha R$3.000,00 por mês e gasta, para se manter, cerca de R$1.500,00. Vamos chamar esses R$1.500,00 que sobram de capacidade de investimento.
Suponhamos agora que este indivíduo resolva comprar um carro, com uma parcela de R$900,00 por mês. Isso significa que, no orçamento dele, a capacidade de investimento passou a ser de R$600,00 (R$1.500,00 anteriores menos os R$900,00 do carro). Digamos também que, por conta de necessidades de melhorias em sua casa - uma pinturinha aqui, um vaso novo ali -, ele sempre acaba investindo todo este dinheiro (ou, em outras palavras, ele gasta).
Imagine, agora, que esse sujeito fique doente, passe um dia internado em um quarto de hospital e ganhe uma "conta" de R$1.200,00. Ora, se ele não tivesse a prestação do carro, ele poderia pagar esse valor e ainda sobraria; como ele tem que pagar a prestação, entretanto, ele não tem dinheiro para pagar: sua "folga" é de apenas R$600,00 por mês. Assim, ele é obrigado a pegar outro empréstimo, e sua situação se agrava. Ele pensa: "ah, nos próximos 3 meses eu não mexo na casa e pago esse empréstimo que peguei para pagar o hospital".
Tudo perfeito... se não ocorrer nenhum outro imprevisto.
Bem, a situação do governo é análoga: a receita do governo vem dos impostos. Quanto maior for a fatia dessa receita empenhada em pagar juros de títulos, menor é a sobra do orçamento disponível para investimentos, saúde, educação e outros. Se a capacidade de investimento do governo é baixa, qualquer investimento que seja necessário pode obrigar o governo a tomar outro "empréstimo", isto é, vender ainda mais títulos públicos... o que comprometerá ainda mais a receita, sobrando ainda menos recursos para honrar as contas do dia a dia. Esse conjunto de consequênicas compõe um ciclo vicioso que leva todo o imposto pago pela sociedade para o bolso das pessoas que emprestaram o dinheiro para o governo, que, por sua vez, fica imobilizado, sem condições de investir.
Além do crescente endividamento do governo, uma taxa de juros alta leva a outras consequências indesejáveis para o país.
A seguir...
Na próxima parte deste artigo, entenda a influência dos juros no investimento privado, como o dólar entra nesse "rolo" todo, além de compreender um pouco melhor de onde vem a opinião do "mercado" e da mídia.
Veja a segunda parte!
(1) Imprimir dinheiro é algo que um país sempre pode fazer, se não fizer parte de uma comunidade econômica de moeda unificada, como os países da Europa. Entretanto, imprimir dinheiro leva a um problema sério: inflação. Por quê? Por que o valor de "um real", por exemplo, está atrelado à riqueza de um país. Assim, deve existir um equilíbrio entre a quantidade de papel moeda e a riqueza de um país. Em termos muito simplistas, isso significaria algo como "a quantidade de papel moeda circulante deve ser exatamente igual ao valor necessário para comprar toda a riqueza de um país". Nessa situação pode-se dizer que "cada nota de 1 real vale 1 unidade de riqueza". Se o governo imprime mais papel moeda sem aumentar a riqueza do país (a riqueza só aumenta quando o PIB cresce), passa a ser necessário mais de 1 real para "comprar" 1 unidade de riqueza. Se a unidade de riqueza for "um bic mac", isso significa que antes 1 real comprava 1 big mac e, depois que o governo imprimiu dinheiro, passa a ser preciso mais que 1 real para comprar o mesmo big mac. Isso é, exatamente, inflação: a desvalorização do papel moeda.
(2) Aumentar a alíquota de imposto é algo que o governo costuma fazer quando não há outra saída porque, em geral, o custo político desse tipo de medida é altíssimo. O caso de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo é clássico: independentemente da qualidade de sua gestão, ela criou tantas taxas que ficou conhecida como "MarTaxa", o que, dentre outras coisas, impediu que ela conseguisse se reeleger para um segundo mandato. Além disso, aumentar a alíquota de imposto costuma ter um efeito colateral muito indesejado pela governo: reduz a atividade econômica, reduz a geração de empregos e, por consequência, muitas vezes acaba ocasionando uma redução no valor total do imposto arrecadado, a despeito da alíquota mais alta.
(3) Como o governo pega dinheiro do FMI? Em geral, o FMI só empresta dinheiro para um país quando este já está totalmente enterrado em dívidas. Para piorar, o FMI costuma fazer algumas exigências bem desagradáveis para conceder empréstimos... como a de que o país deve cortar investimentos, por exemplo. É como se o gerente do banco exigisse que você deixasse de se alimentar adequadamente para lhe conceder o empréstimo, de maneira a garantir que a economia com comida lhe permita pagar o empréstimo. Costuma ser um tiro no pé, porque sem comer a pessoa morre... e morto não paga dívida. Mas é assim mesmo: o pessoal do FMI costuma fazer dessas presepadas e agravar a situação de muitos países.
Sex, 8/Abr/2011, 9:20
Por: Daniel Caetano
O Bolsa-Marginal | 3 Votos |
Hoje recebi um e-mail apócrifo, encaminhado pela minha irmã mais velha. O e-mail destila ódio contra um tal de "auxílio-reclusão". Vejamos, primeiro, o que diz o e-mail:
Portaria no. 48 da Prev.Social
O VALOR DO SALARIO FAMILIA PRESIDIARIO PASSOU A SER DE R$810,18. E TEM MAIS. . .
NO CASO DE MORTE DO "POBRE PRESIDIÁRIO", A REFERIDA QUANTIA DO AUXÍLIO- RECLUSÇO PASSA A SER "PENSÃO POR MORTE". O GRANDE LANCE ROUBAR OU MATAR PARA SER PRESO E ASSIM SUSTENTAR CONDIGNAMENTE A SUA PROLE.
Repassando, pois entendo que é mais um dos muitos absurdos desse paĦs e por isso a Previdência Social está sempre quebrada e não tem verbas para pagar decentemente quem trabalhou uma vida toda!
REVOLTANTE !!!
Você sabe o que é o AUXÍLIO RECLUSÃO?
Todo presidiário com filhos tem direito a uma bolsa que, a partir de 1/1/2010 é de R$798,30 por filho para sustentar a famĦlia, já que o coitadinho não pode trabalhar para sustentar os filhos por estar preso. Mais que um salário mĦnimo que muita gente por aĦ rala pra conseguir e manter uma famĦlia inteira.
Ou seja, (falando agora no popular pra ser entendido) bandido com 5 filhos, além de comandar o crime de dentro das prisões, comer e beber nas costas de quem trabalha e/ou paga impostos, ainda tem direito a receber auxílio reclusão de R$3.991,50 da Previdência Social.
Qual pai de famĦlia com 5 filhos recebe um salário suado igual ou mesmo um aposentado que trabalhou e contribuiu a vida inteira e ainda tem que se submeter ao fator previdenciário?
Mesmo que seja um auxílio temporário, prisão não é colônia de férias. Isto é um incentivo a criminalidade. Que políticos e que governo é esse?????
Não acredita?
Confira no site da Previdência Social.
Portaria no. 48, de 12/2/2009, do INSS
Pergunto-lhes:
1. Vale a pena estudar e ter uma profissão?
2. Trabalhar 30 dias para receber salário mĦnimo de R$510,00, fazer malabarismo com orçamento pra manter a família?
3. Viver endividado com prestações da TV, do celular ou do carro que você não pode ostentar pra não ser assaltado?
4. Viver recluso atrás das grades de sua casa?
5. Por acaso os filhos do sujeito que foi morto pelo coitadinho que está preso, recebe uma bolsa de R$798,30 para seu sustento?
6. Já viu algum defensor dos direitos humanos defendendo esta bolsa para os filhos das vítimas?
MOSTRE A TODOS O QUE OCORRE NESSE PAÍS!!!
Gente,
Para se indignar ou falar mal, primeiro tem que se informar direito.
O único link fornecido nesse e-mail revoltoso é um link que indica algumas regras gerais do INSS, dos quais o auxílio-reclusão é apenas um item.
Se a pessoa que escreveu essa mensagem merecesse algum crédito, ela não precisaria mentir e distorcer tanto os dados quanto o fez para tentar, desesperadamente, apoiar sua falta de argumentos.
Vamos aos fatos.
Histórico:
O auxílio-reclusão é antiquíssimo, da década de 60, criado pelo extinto Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos (IAPM) e depois pelo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários (IAPB), ambos da década de 19301,2.
Este instrumento foi adicionado à Lei Orgânica da Previdência Social (Lei no. 3.807, de 26 de agosto de 1960), no governo Juscelino Kubitschek, tendo sido mantido na Constituição Federal de 1988, no governo de José Sarney1 e, finalmente, definido com esse nome pela lei 8.213, de 24 de junho de 1991, no então governo Fernando Collor, com gestão do ministro do trabalho Antonio Magri e ministro da fazenda Marcílio Marques Moreira3, 4.
O que é o auxílio-reclusão?
É o auxílio prestado à família do indivíduo que, devidamente empregado, com renda inferior ou igual a R$862,11 (valor de 2011)5, contribuinte do INSS, for condenado à prisão no regime fechado, comprovada a não existência de nenhuma outra fonte de renda para a família (incluindo outros benefícios pagos pelo próprio INSS). Em caso de fuga do detento, o valor é suspenso até sua recaptura. Em caso de conversão de pena em regime semi-aberto ou aberto, o valor também é suspenso1,3.
O valor máximo pago é o valor do salário do trabalhador até o momento de sua prisão, e esse valor é por família. Isto significa que o máximo que a família recebe é R$862,11, independente do número de filhos 1,5.
Revoltante?
O auxílio-reclusão é mais um benefício de seguridade social; não é um benefício direto ao contribuinte, mas à sua família. Observe: o preso teve que contribuir para a previdência até sua reclusão para que sua família tenha o direito a receber o auxílio. E se ele falecer na prisão, naturalmente, sua família recebe pensão, como se o contribuinte tivesse falecido em trabalho6.
Frisado o fato que o INSS é uma seguradora pública, o ponto social em discussão aqui é o seguinte: o indivíduo que vai para a prisão perde uma porção de seus direitos, mas é justo que sua família que, até prova em contrário não tem nada a ver com a história, perca também os seus?7
A lei acha que não, a história acha que não. E eu também acho que não.
Vale lembrar que, diferentemente do enunciado pelo desconhecido e revoltado autor, os filhos das pessoas assassinadas também recebem pensão, caso o falecido seja contribuinte do INSS, como seria esperado de qualquer seguro: quem paga, recebe8.
Nesse país há gente revoltada demais com coisas de menos (como as bolsas e auxílios sociais) e revoltada de menos com coisas demais (como o tanto de gente que "quer se dar bem" em cima dos outros, como é prática comum do cidadão médio desde a "fundação" deste país).
Os seres vivos - incluindo o ser humano - demoraram bilhões de anos para aprender e se beneficiar do comportamento social. Mas sempre vai existir um egoísmo latente dentro de nós que tenta nos fazer inferiores às abelhas e formigas... um lugar obscuro em que o individuo se sobrepõe à comunidade.
Essa é exatamente a parte que nos faz mais parecidos com aqueles que julgamos desprezíveis, e é esse o mal contra o qual temos todos de lutar.
1. Ministério da Previdência Social - A seguradora do trabalhador brasileiro - MPS
2. Wikipédia: Instituto Nacional de Previdência Social
3. Wikipédia: Auxílio-Reclusão
4. Wikipédia: Lista de ministros da Fazenda do Brasil
5. Ministério da Previdência Social - A seguradora do trabalhador brasileiro - MPS
6. Fazer diferente seria como se o banco de sua previdência privada ficasse com o seu dinheiro caso você fosse preso ou morresse na prisão!
7. Ou, em outras palavras, que tal tentar evitar que a família e os filhos sigam um mau caminho diante da desesperança e total falta de condições de vida?
8. E a previdência urbana, onde esses auxílios estão incluídos, é superavitária; não entra um centavo de imposto aí. A que é deficitária é a previdência rural, já que os trabalhadores rurais não contribuem com o INSS e nem os seus patrões. Como o trabalhador rural médio ganha uma miséria, talvez o apócrifo autor devesse se revoltar contra o fato de que o imposto pago por ele está indo para subsidiar os grandes produtores rurais!9
9. Previdência urbana registra superávit d R$14,9 bilhões, em 2010
Ter, 22/Mar/2011, 7:08
Por: Daniel Caetano
O Banco que Não Aceita Dinheiro | 3 Votos |
Há algumas semanas estou passando por uma situação um tanto insólita.
Como uma forma de diversificar um pouco as aplicações em minha mãe sem muito risco, aceitei a proposta da gerente de previdência do Bradesco, e resolvi tentar fazer um plano de previdência para ela com aporte único, como um fundo de investimento. A proposta parecia bastante interessante... se eu conseguisse aceitá-la.
Como assim, se eu conseguisse?
O fato é que, a despeito do dinheiro estar lá, na conta corrente, e de eu ter levado minha mãe por duas vezes para assinar toda a papelada, diante de 4 testemunhas, 2 delas do próprio banco, o banco insiste em criar dificuldades para que o investimento seja efetivado. "Como assim?" você deve estar pensando. Simples.
O banco Bradesco desconfia tanto de seus clientes que nem com o cliente indo lá, pessoalmente, com testemunhas e assinando 300 papéis diferentes, eles acreditam no que o cliente disse. E ligam na casa do cliente depois para confirmar.
Ocorre que, usualmente, quem lida com a parte bancária sou eu e, apesar de tudo que é feito em nome dela ser explicado para ela, ela não se sente confortável de passar dados pessoais dela e de autorizar coisas por telefone, algo perfeitamente compreensível para uma senhora de idade que já recebeu inúmeras ligações de gente tentando vender coisa que ela não quer e até mesmo algumas ligações conhecidas como "simulação de sequestro", para arrancar dinheiro dos afoitos.
Pois bem. Que ligam do Bradesco e pedem para minha mãe confirmar as informações existentes. A mulher do banco passa as informações e minha mãe diz apenas 'hum-hum'. Ao final, a mulher diz: "A senhora acaba de adquirir um plano de previdência xpto yzk com xxx taxa de carregamento, tributação do tipo yyy e zzz, kkk, jjj, lll" (isso é como minha mãe ouve o que a mulher fala). É claro que, como é esperado de alguém que não quer ser feito de trouxa, segue o seguinte diálogo:
- Mas eu não quero adquirir nada!
- Mas a senhora já adquiriu!
- Mas eu não quero adquirir nada!
- Bem, então a senhora fale com a sua gerente de previdência depois.
Me contando essa história, primeiro eu fiquei bravo, porque era uma ligação legítima e, em princípio, na minha cabeça, ela deveria ter confirmado. Mas depois eu pedi desculpas a ela e ri, e disse a ela que, na dúvida é melhor negar, mesmo.
Escrevi um e-mail para a gerente, pedindo que agendassem a tal ligação em um horário em que eu estivesse em casa, de maneira que, com a anuência de minha mãe, eu pudesse responder por ela ao telefone. Pois que ligam hoje de manhã, o que fico sabendo apenas há pouco, já no horário do almoço.
- Poxa mãe, e o que você disse?
- Eu disse que eles tinham que falar com você, que eu não ia autorizar.
- E o que eles disseram?
- O rapaz disse que, para que você possa responder por mim, precisamos ir ao banco e fornecer uma autorização.
Isso me deixou passado; primeiro porque a conta dela é conjunta comigo. Em segundo porque, em outra ocasião, eu já autorizei coisas pra ela. Em terceiro porque a garantia de ser ela ao telefone é nenhuma, dado que sempre há outras mulheres com ela em casa... e, pra finalizar, se a ligação considera que *ela* pode responder e, no momento da ligação, *ela* diz, na gravação, que vai passar para que o filho dela responda, que raios de autorização no papel eu tenho que fornecer no banco? Se autorização em papel no banco resolve, porque raios a assinatura dela no papel da abertura da previdência não serve, e ela precisa confirmar por telefone?
Não há explicação. A única explicação plausível é que, se não derem uma solução rapidinho, vou levar o investimento para a previdência de outro banco... afinal, se é essa complicação para colocar o dinheiro, imaginem para retirar!
É cada uma que me aparece...


