Sex, 5/Mar/2004, 23:52
Por: Daniel Caetano
Coisas estranhas do dia-a-dia | 1 Voto |
Para beber um copo de água gastei cerca de 2 copos de água (de praticamente mesma potabilidade) para lavá-lo.
Obviamente não parei para pensar numa maneira mais sensata de realizar este procedimento, mas é algo que muito em breve teremos de pensar com carinho.
Logo não vai ter água pra gastarmos deste je... Leia mais!
Sex, 4/Jun/2010, 13:52
Por: Daniel Caetano
A Importância do Dejà Vu | 3 Votos |
É frequente para mim ter uma sensação de que já passei por uma situação antes, e penso que talvez eu não seja o único a sentir isso. Algumas vezes essa sensação é apenas uma impressão, mas em outras, aquele evento pode já ter, de fato, acontecido anteriormente. Quando esta aparente repetição provoca uma sensação ruim, em especial em relacionamentos humanos, algumas pessoas tendem a chamar isso de "karma" ou, para ser mais correto, um "mau karma"1.
De fato, a sensação de "já vi este filme" pode se tornar bastante comum para algumas pessoas, em especial se elas estiverem atentas ao que ocorre à sua volta e, ao que me parece, essa sensação tem o objetivo de nos trazer uma mensagem muito especial.
Todo ser humano carrega dentro de si uma espécie de "programa" que se traduz na personalidade da pessoa. É um programa muito especial de "inteligência natural" e, sendo assim, é capaz de aprender e de se auto-modificar. Obviamente há critérios para isso, caso contrário as pessoas teriam personalidades praticamente amorfas, sem nenhum tipo de coerência. Aliás, talvez seja possível dizer que estes critérios sejam exatamente os elementos que compõem a coerência das ações desta pessoa.
Infelizmente, porém, este programa não é infalível. Vez ou outra algum dos critérios é falho e permite a formação de incoerências. Com o passar do tempo, é possível que tais incoerências sejam minimizadas, "corrigidas", mas é igualmente possível que tais incoerências se "aprofundem", criando uma personalidade com um comportamento aparentemente desprovido de lógica. Não é verdade: há uma lógica, só que é uma lógica interna, específica daquela pessoa.
Por existir uma lógica, entretanto, o comportamento daquela personalidade se torna previsível, ou seja, pode-se dizer que, em condições ambientais semelhantes, tal comportamento provavelmente se repetirá. Assim, se uma situação desagradável em relacionamentos humanos (ou até em outras situações) se torna repetitiva, pode ser um sinal de que há uma incoerência na personalidade de uma pessoa. Pode ser coincidência que algo assim se repita uma, duas... até três vezes. Mais que isso... já se torna pouco provável que seja obra do acaso.
Assim, a sensação de dejà vu não é necessariamente uma "reconfiguração da matrix"2; pode ser a manifestação de um "bug" na personalidade de um indivíduo. É como se um programa sempre travasse ao selecionar uma determinada opção de um de seus menus. Em alguns casos, o bug pode apenas abortar o programa. Dependendo da gravidade, entretanto, pode "derrubar" todos os outros programas junto com ele, travando a máquina ou reiniciando-a. Da mesma forma ocorre com as pessoas: dependendo da severidade do seu "bug", ele pode se tornar até mesmo o gatilho que irá expor problemas muito mais sérios, que podem desestruturar completamente a personalidade de uma pessoa.
Não estou, aqui, interessado em problemas tão profundos, mas sim em problemas mais simplórios, mais comuns, que simplesmente acabam com os mais diversos tipos de relações humanas. Nestes casos, quando reiteradas vezes ocorre a sensação de "já vi esse filme"... pode ser um indício muito forte de que há algo a ser melhorado em nosso software, ou seja, em nossa personalidade.
A reação das pessoas diante destes avisos é, entretanto, bastante diversa e, depende, em parte, da própria personalidade dela. Algumas pessoas, dadas ao auto-conhecimento, não cansarão até encontrarem o "bug" e eliminá-lo; outras podem simplesmente decidir não usar mais aquela função, como se pensassem "Ah, o corretor ortográfico trava tudo? Então não vou usar mais esse recurso". Há ainda o terceiro tipo que prefere ignorar o problema e repetidas vezes perde todo o trabalho, na esperança de que "Desta vez o pai do céu vai me proteger e a coisa vai funcionar".
Cabe a cada um de nós decidir qual é o caminho que trilharemos.
(1) Karma não significa algo ruim, significa uma relação entre ações das pessoas e suas consequências.
(2) Como é apresentado no filme Matrix.
Qua, 5/Mai/2010, 11:04
Por: Daniel Caetano
A Vida Em Potências de Dois | 2 Votos |
Do Trabalho
Quando fiz 1 ano, descobri que podia andar... e que isso dava um trabalho enorme.
Quando fiz 2 anos, descobri que conseguia me comunicar... e pedia as coisas, para não ter trabalho.
Quando fiz 4 anos, descobri que podia fazer amigos... e queria brincar de trabalhar com eles.
Quando fiz 8 anos, descobri que podia viver sem minha mãe... mas que ela ainda precisava trabalhar por mim.
Quando fiz 16 anos, descobri que sou um indivíduo... e queria provar que era independente, mas sem ter muito trabalho.
Quando fiz 32 anos, descobri que é preciso fazer concessões... e que não há como fugir de trabalhar.
Dos Amores
Quando fiz 1 ano, descobri que podia andar... e que isso me permitia ir às pessoas que eu amava.
Quando fiz 2 anos, descobri que conseguia me comunicar... e podia socializar com quem amava.
Quando fiz 4 anos, descobri que podia fazer amigos... e achava que não precisava mais de alguém para amar.
Quando fiz 8 anos, descobri que podia viver sem minha mãe... e passei a querer uma companheira para amar.
Quando fiz 16 anos, descobri que sou um indivíduo... e queria provar que podia ter a companheira que quisesse para amar.
Quando fiz 32 anos, descobri que é preciso fazer concessões... mas que sua companheira precisa querer lhe amar.
Não sei o que descobrirei aos 64, mas certamente aos 128 anos, se estiver aqui, não me importarei mais.
Ter, 20/Abr/2010, 12:58
Por: Daniel Caetano
Só | 2 Votos |
Alessandra chegou tarde em casa naquela noite. Seu olhar cansado, de um longo dia de trabalho, procurou pelo tênue brilho da secretária eletrônica, torcendo para que existisse alguma mensagem. Não havia. Em algumas épocas havia convites de todo o tipo; em outras, era como se os amigos desaparecessem. Talvez não fossem tão amigos assim.
Deixou no sofá da sala a bolsa e papéis que trouxera do trabalho; começava a ser frequente ter de trazer trabalho para casa. Olhar para a pilha de trabalho sempre a desanimava, mas ela procurava não pensar nisso.
Foi até o banheiro e começou o longo processo em que, todas as noites, removia a maquiagem. Removeu primeiro a maior parte, com um removedor de maquiagem bifásico e, depois, removeu com cuidado os vestígios finais. Usou apenas três pedaços de algodão e, durante o processo, percebeu como algumas linhas já marcavam sua face; algumas marcavam bons momentos, outras maus... mas a maioria era simples indicação de que o tempo não para. Não para para ninguém.
Já no quarto, despiu-se e vestiu uma roupa mais confortável, deitando-se, espalhada na cama, em seguida. Tentou ler um livro, mas não conseguia avançar. O livro era interessante, mas nos últimos dias não estava conseguindo se concentrar na leitura.
Percebendo um desconforto, lutou contra a ideia de tomar um banho, mas acabou vencendo o desânimo e se levantou. Mais uma vez despiu-se e regulou a água do chuveiro na temperatura que gostava, inundando o banheiro com o vapor. Tomou um demorado banho com um delicioso óleo que comprara na semana passada, restaurando parte de suas energias. Não lavou os cabelos, já que não queria dormir de cabelos molhados e, ademais, lavara-os ontem.
Secou-se, primeiro tirando os excessos com as mãos e, depois, com a toalha. Não era mais feliz com seu corpo do que fora no passado, mas aprendera a aceitar que as pequenas imperfeições é que fazem uma mulher real e desejável. Demorou, mas compreendeu.
Vestiu novamente a roupa confortável, mas estava agora com fome. Foi à cozinha, abriu os armários... fim do mês, não sobrava nem muito dinheiro, nem muita comida. Mas havia um pouco de macarrão do dia anterior. Sempre sobrava alguma coisa, do que preparava, de um dia para o outro. Misturou com um pouco de atum e alguns outros condimentos e, preparando um prato, serviu-se de um copo de Coca-Cola e dirigiu-se para o sofá.
Ligou a TV e, antes de começar a comer, percebeu que não havia filme ou programa interessante em qualquer um dos canais. Lembrou-se de que comprara uma temporada de uma série há alguns meses, e não havia, ainda, visto o último episódio. Sempre a falta de tempo.
Começou a assistir o tal episódio e jantou, mas não conseguiu aproveitar totalmente o que via, porque estava pensando se compraria a próxima temporada... e o sono também atrapalhou um pouco, tão logo terminou de comer, deixando um pouco do macarrão. Piscou longamente por três vezes e decidiu ir dormir.
Deixou o prato na pia, o qual lavaria no dia seguinte pela manhã, e voltou para o quarto. Deitou-se e logo adormeceu. Dormiu confortavelmente, mas não relaxou de todo. Amanhã começaria um novo dia, cheio de todas estas coisas de sempre.
Daniel Caetano
Ter, 13/Abr/2010, 10:58
Por: Daniel Caetano
Síndrome de Atlas | 2 Votos |
Caros amigos,
Este texto foi escrito há alguns meses e foi fruto de uma reflexão sobre uma porção de observações que fiz ao longo de minha vida. Como muitos sabem, não sou psicólogo e, assim, entendam o que será apresentado como uma reflexão de um leigo sobre o tema, e não como um tratado definitivo sobre o assunto.
Uma das coisas mais curiosas que eu já descobri nesta vida é uma dificuldade que muitas pessoas possuem em aceitar o que sentem, o que pensam. Eu já passei por isso, e descobri o como esse processo pode ser perigoso.
Embora a afirmação pareça esquisita, infelizmente descobri ser esta uma ocorrência mais comum do que eu poderia ter imaginado a princípio, mesmo tentando ser pessimista. Existe um sem número de situações em que cada um de nós escolhe se esconder da realidade, tornando-se muito atraente a criação de uma realidade alternativa, onde aparentemente eliminamos os pontos que julgamos conflitantes.
Antes de falar sobre os problemas desta postura, entretanto, gostaria de refletir um pouco sobre os pontos de conflito em si. Quais são suas origens? Por que alguém sofreria um conflito tão grave que passaria a crer ser mais interessante viver num mundo de sonhos que no mundo da realidade?
As situações são muitas, mas em geral me parecem envolver a dicotomia humana que expressamos na forma de "razão" e "emoção". Frequentemente seguimos uma dessas nossas "partes" - ignorando a outra - e, a depender dos resultados obtidos, a "parte ignorada" parece se revoltar, fazendo com que o indivíduo se auto-condene.
Como é uma condenação interior, ela é também inescapável pelos meios tradicionais. Ninguém pode ir embora de si mesmo e poucos possuem o poder de se impor perante sua própria mente. As alternativas de pseudo-fuga são, comumente, duas: a projeção da culpa e a auto-indulgência.
No primeiro caso, o indivíduo escolhe um bode-expiatório qualquer, bastando que ele tenha algumas das características necessárias, que dependem da necessidade e da ocasião. A pessoa estava no lugar errado, na hora errada, e vira culpada por tudo, numa realidade paralela que modifica a relação do indivíduo com o mundo externo.
No segundo caso, a pessoa cria uma realidade paralela interna, em que o indivíduo busca cada detalhe no universo para justificar sua postura, ainda que precise distorcer os fatos e retirá-los do contexto em que ocorreram, como que para justificar seus atos para si mesmo, aparentemente se eximindo da culpa. Esta atitude muda a relação do indivíduo para consigo mesmo.
Em ambos os casos, existe uma distorção de realidade complexa e perigosa para a sanidade do indivíduo, além de criar uma vida artificial e instável como um castelo de cartas, já que algumas vezes basta remover um dos elementos da intrincada teoria para que tudo desabe.
Neste caso, o risco é a ocorrência de um grande desequilíbrio devido à ruptura na estrutura emocional que suporta o conceito de individualidade, fazendo com que a pessoa perca, ao menos momentaneamente, a sensação de sua relevância na sua própria existência. Isso ocorre porque haverá a necessidade de o indivíduo reconstruir o seu modelo mental do mundo, para que então possa novamente se localizar e se posicionar.
Infelizmente essa reconstrução nem sempre é simples e, para complicar ainda mais, nem sempre é rápida. E é nesse hiato que o indivíduo corre os maiores riscos, pois seu comportamento é imprevisível diante da ausência total ou parcial de um modelo de conduta.
De qualquer forma, seja pela criação de uma realidade paralela que envolve aspectos interiores ou exteriores, esta realidade é, por pressuposto, artificial e, dado que ela se descola da realidade de fato, certamente haverá inconsistências entre elas. Tais inconsistências são tão grandes quanto o próprio descolamento entre ambas as realidades - a que o indivíduo vê e a que ele sente. Ainda assim, o indivíduo não será capaz de ver essas inconsistências conscientemente, pois seu pré-consciente está fazendo o serviço sujo, o serviço de distorcer o que ele vê para ficar de acordo com o que ele sente.
Ocorre que, inconscientemente, o indivíduo sabe que está se sabotando; o inconsciente tem perfeita noção dos pontos de inconsistência, das falhas graves que isso impõe na estrutura emocional do indivíduo, e sabe também das consequências que estas incoerências podem trazer no futuro, quando toda uma estrutura construída sobre uma base instável pode ruir.
Essa insatisfação inconsciente tem um reflexo que chamarei aqui de Síndrome de Atlas: uma culpa infinita de origem completamente desconhecida por parte do consciente do indivíduo.
Diferentemente da culpa cujo epicentro é uma razão clara para o consciente, quando o indivíduo pode trabalhar, amadurecer, aprender e, finalmente, se perdoar pelo equívoco, a culpa típica da Síndrome de Atlas é suficientemente difusa e inespecífica para que não seja possível interpretá-la de uma maneira positiva, não há o que aprender com ela, não leva ao amadurecimento. Não há conexão consciente entre a culpa e o objeto da mesma, a relação entre elas está disponível apenas no inconsciente do indivíduo.
A partir do ponto em que esta situação se estabelece, pode se iniciar um processo auto-destrutivo depressivo. Nos indivíduos mais passivos, a depressão pode se agravar muito e a solução pode ser complexa e demorada. Nos mais ativos, o efeito pode ser ainda mais grave: a insatisfação gerada pela depressão pode levar a um ciclo vicioso, sendo necessária a criação de uma nova realidade paralela que se descole inclusive da realidade paralela anterior.
Ao perceber esse processo em andamento, portanto, o indivíduo deve procurar ajuda profissional o mais rapidamente possível. Como em muitas outras situações, quanto mais longo o tempo entre o evento problemático e seu tratamento, mais doloroso será o processo para a normalização da situação.
Em algum momento de meu passado, que agora já sinto distante, eu vivenciei parte deste processo, superado com muito esforço meu e de todos que me cercavam. E hoje, só tenho a agradecer a todos que me ajudaram a sair disso.
Dom, 4/Abr/2010, 3:32
Por: Daniel Caetano
Up In the Air | 2 Votos |
Spoiler Alert:
ATENÇÃO se você não assistiu ao filme: Este post revela eventos do mesmo.
"Se não temos nada,
Não temos nada a perder."
Muitas vezes me surpreendo com a capacidade que podemos ter de imitarmos uma avestruz, fechando os olhos para fingir que alguns problemas não existem.
Parece ser mais ou menos esse o principal foco da comédia(?) romântica(!?!) Up in the Air (Amor Sem Escalas): um personagem extremamente bem construído, Ryan, tem severas dificuldades em lidar com as próprias perdas e acaba criando toda uma teoria que suporta sua vida e o mantém longe das perdas: se uma pessoa não tiver nada, ela nunca terá nada a perder.
Como ninguém vive sem objetivo algum - e objetivos significam conquistas -, Ryan busca objetivos seguros, que dependam apenas de sua persistência e cujo resultado, que é algo que poderia perder, seja sustentado pelo seu simples estilo de vida. Como seu trabalho envolve viajar de avião, seu objetivo escolhido é o acúmulo de milhagens. Parece um objetivo estranho, mas casa perfeitamente com suas necessidades.
É claro que seu "desapego" tem consequências em sua vida. Aparentemente ele conhece tão bem a dor da perda e aprendeu tão bem a encapsular essa dor e jogá-la no fundo do oceano, que fez de ensinar isso a outras pessoas sua profissão: convencer aqueles que perderam o emprego de que isso não é ruim, que é uma forma de se tornar disponível para outras oportunidades.
Sua teoria de que compromissos, pessoas e coisas - ou seja, qualquer tipo de comprometimento ou conexão - são "amarras desnecessárias", lhe serve tão bem que ele acaba se tornando um grande palestrante, difusor da idéia do "desapego". No fundo, entretanto, o desapego me pareceu apenas uma proteção contra seu problema em lidar com as perdas.
Um dos aspectos mais interessantes, logo ao início do filme, é a preocupação dele com a mudança em sua rotina. Por um lado, ele viu ameaçado o seu objetivo de vida, que antes parecia tão certo, de acumular milhas. Isso implicaria em uma mudança severa do curso de sua vida, o que poderia comprometer seu comportamento de "não ter para não perder". Ficando em um único lugar, fatalmente teria que morar em algum canto, ver sempre as mesmas pessoas, o que seria muito favorável para o surgimento de "apegos".
Lutando contra esta situação, ganha algo ainda "pior": alguém para viajar com ele, Natalie, em quem ele acaba, de certa forma, se apegando. Ele resiste, pois conhece o perigo, mas não há alternativas.
Para complementar o conjunto de catalisadores da mudança, ele acaba se envolvendo com uma mulher, por quem rola uma empatia - aparentemente ela vive como ele - e, por uma série de situações que decorrem inclusive da presença da Natalie, ele acaba se envolvendo com a mulher de uma maneira que provavelmente não teria se permitido em uma outra situação.
Ocorre que quem não sabe lidar com perdas, tem de aprender. No fim, ele descobre que a mulher não é nada como ele, da pior forma possível, mas não sem dar claras mostras de que percebeu que suas teorias sobre "nada carregar" eram uma simples fuga. Ele deixa de acreditar nisso, como mostra o resultado de sua última palestra.
E é na última conversa com a tal mulher que cai a ficha: "Eu sou um parênteses?"
A vida dele era um aposto sem a frase principal e, de repente, todas aquelas conquistas de milhagens e cartões de cliente ultra-especial com que sonhara por anos... deixaram de fazer sentido.
No final, um sentimento dúbio. Resignado por perceber que talvez não fosse mais possível recomeçar como gostaria, ele percebe também que nunca, de fato, estivera "sem nada". Ele tinha algo. E, dado o desencanto na tentativa de mudar de rumo em sua vida, resolveu valorizar aquilo que sempre teve.
Somos nós que devemos dar valor àquilo que possuímos.
Ter, 30/Mar/2010, 9:28
Por: Daniel Caetano
Vida e Sentimento | 4 Votos |
Tenho escrito mais do que posso escrever,
E tenho pensado mais do que posso pensar.
Porque há textos e pensamentos demais no mundo.
Tenho explicado mais do que posso explicar,
E tenho me ocupado mais do que posso me ocupar.
Porque há explicações e ocupações demais no mundo.
Tenho vivido mais do que pensava poder viver,
E tenho sentido mais do que pensava poder sentir.
Porque, sem vida e sem sentimento, há mundo demais.
Daniel Caetano
Dom, 28/Mar/2010, 5:59
Por: Daniel Caetano
Redenção | 2 Votos |
Naquele dia, Alberto acordou decidido.
Vestiu-se e desceu as escadas, pegando o jornal na porta da frente. Passou os olhos sobre as notícias e rumou para a cozinha, onde sua esposa preparava o desjejum. Depois de uma troca de olhares e sorrisos, conversaram calorosamente sobre diversos assuntos, planejaram viagens e definiram datas.
Com um ar subitamente sério, Alberto olhou, com devoção, para sua esposa. "Já não estou feliz. Vou-me para não mais voltar", foram suas palavras. Surpreendeu-se com a naturalidade com que as proferira. Com o propósito de não haver mágoas, tomou o cuidado de não prestar atenção em nada do que sua esposa dizia. Não entendeu porque lágrimas escorriam dos olhos dela.
Levantou-se e, com a leveza daqueles que não levam os anos na bagagem, saiu.
Alberto chegou ao escritório, subiu para uma reunião, já atrasado. Já na sala, agiu com desenvoltura, encantou clientes e conquistou tudo que era dele esperado. Após a longa reunião, um ótimo almoço com os executivos e, em seguida, uma nova reunião com seu superior. Foi promovido, conversaram sobre o futuro da empresa, planejaram novas frentes de atuação e definiram datas.
Com um ar subitamente sério, Albertou olhou, com admiração, para seu chefe. "Já não estou feliz. Vou-me para não mais voltar", foram suas palavras. Entregou sua pasta a seu chefe e, para não provocar espanto em seu superior, tomou o cuidado de não prestar atenção em nada do que ele dizia. Não entendeu porque seu chefe gesticulava agressivamente, visivelmente alterado.
Levantou-se e, com a destreza daqueles não carregam os anos em suas fugas, saiu.
Alberto chegou ao campo de futebol onde jogava quando criança. Em sua memória, lembrou de tempos melhores. Tempos em que tudo acontecia como tinha que ser, sem expectativas, sem comparativos que fizessem tudo perder o brilho e a cor. Já era noite, a Lua já ia alta.
E ajoelhado na relva, ele chorou seu último choro. Não disse nada, pois já não havia ninguém para lhe ouvir. Ergueu seus braços ao céu e, para que não houvesse dúvidas, tomou o cuidado de não prestar atenção a nada do que pensava. Não entendeu porque havia angústia.
Levantou-se e, com a sutileza daqueles que não carregam os anos do corpo, saiu.
Daniel Caetano
Ter, 23/Mar/2010, 19:24
Por: Daniel Caetano
Pulsação Radial | 2 Votos |
É curioso como a percepção de alguns sinais vitais nos é tão cara.
Ultimamente tenho convivido muito mais com o Zetti, o meu pequenino sobrinho, uma criança linda, alegre e relativamente calma. "Do alto" de seus bem vividos 1 ano e 5 meses, sob um cabelo dourado e por trás de olhos cor-de-mar, ele explora o mundo como quem tem a certeza de que tudo pode...
Ainda assim, com toda sua "independência" e altivez, há diversos momentos em que o pequeno se amua, seja devido a claros e concretos eventos, seja por razões e preocupações que só uma criança já de idade avançada pode compreender, e é neste tipo de ocasião que se percebe o poder de sentir a presença de alguém querido.
Não apenas com ele, mas toda mãe, quando pega seu bebê no colo com o objetivo de acalmá-lo, encosta a cabeça do pequenino ao próprio peito, para que ele sinta sua presença, seu calor e ouça seu coração, sinta-se protegido... em uma situação reconfortante que só pode ser comparada, à ocasião, aos primeiros momentos de sua vida. Por alguns momentos o bebê sente que aquilo é tudo de que ele precisa; tudo o mais passa a ser supérfluo.
Como é bela a natureza humana; nós crescemos e passamos a nos julgar mais importantes do que éramos quando pequeninos, pensamos que nossas preocupações são muito mais relevantes, muito mais decisivas e, independente da veracidade de algumas dessas considerações, de prático ... algumas coisas simplesmente não mudam.
Perdemos gradativamente a capacidade de abstrairmo-nos do mundo, de livrarmo-nos de nossa auto-importância, de sentirmo-nos livres de nossas necessidades básicas... mas ainda há a importância dos sinais vitais para nosso bem-estar.
Como humanos, aprendemos o valor do abraço, do calor que emana do bem-querer e, instintivamente, do som de um coração que, ao bater mais rápido, demonstra não apenas a vida... mas também denuncia a urgência do gesto.
O mundo humano mudou; hoje, em muitos lugares, as pessoas vivem mais distantes, e isso lhes trouxe - e traz - mais e mais angústias. Sinais vitais cada vez mais tênues, nem sempre físicos, ganham mais e mais importância. Uma carta, um e-mail... até mesmo um SMS passa a ser vital para trazer a tranquilidade ao coração de cada um.
Não que uma mera ligação contemple todas as necessidades daquele que se preocupa com outrem; é certo que não. Ainda se almeja a presença, o contato, o laço, o vínculo... mas na impossibilidade momentânea, qualquer sinal vital é relevante para que se possa ter a alma em paz...
Dom, 21/Mar/2010, 15:37
Por: Daniel Caetano
Memória | 1 Voto |
Neste dia eu percebi,
Nada deixo para trás.
Tudo aquilo que vivi,
Tornou-se parte de mim.
As boas coisas, memória;
O resto, aprendizado.
Daniel Caetano
Ter, 16/Mar/2010, 17:42
Por: Daniel Caetano
As Horas | 3 Votos |
E o tempo passa,
A passos trôpegos,
E assusta a caça,
Com modos sôfregos.
E o caminho segue,
Por milhas adiante,
Pra que se entregue,
Como vencido amante.
E a alma não acata,
O ritmo que se impõe,
Espera que maltrata,
Esperança que recompõe.
E a vida se estende,
Sem sequer consultar,
Chamado que atende,
Desejo de encontrar.
Daniel Caetano


