Sex, 15/Jul/2005, 9:51

Por: Daniel Caetano

Do Morro à Daslu

1 Voto

   Já há alguns meses eu tenho vibrado com algumas ações da Receita Federal. Crescendo ouvindo que a gente deve ser honesto (mesmo que isso signifique "se ferrar frente aos 'espertinhos'"), sempre achei que... mesmo sendo a carga tributária excessiva, devemos pagar... e que, além das roubalhadas dos políticos (mensalões, super-faturamentos e similares), uma das maiores razões para a carga tributária ser absurda é justamente a sonegação. Não a do ... Leia mais!

Sex, 20/Mai/2016, 7:22

Por: Daniel Caetano

A Ideologia do Fracasso

 

A sociedade - em especial a brasileira - sofre de uma esquizofrenia. Ao mesmo tempo em que é capaz de afirmar que "o trabalho enobrece e dignifica o homem", a maior parte daqueles que se tornam "gestores" - senhores feudais, administradores de empresas, faraós ou ministros da fazenda - parece não ser capaz de agir de acordo, ao menos não de forma saudável.

Existem desde os casos mais patológicos - os "workholics"1 - até aqueles cujo objetivo de vida é arrumar serviço para os outros - nunca executando nada de fato2. O único trabalho de boa parte dos "gestores” dessa última categoria é tentar demonstrar que fazem parte da primeira - embora, no fundo, quisessem estar em uma praia no Caribe ou em Paris, sem precisar trabalhar nunca mais.

No fundo, vivemos em uma sociedade onde o trabalho em si não é valorizado, mas sim desfrutar do que ele proporciona. E, embora não haja nada de errado em querer desfrutar a vida livre do trabalho, a intensidade com que isso tem seduzido alguns gestores vem tomando proporções assustadoras. E muitas dessas pessoas parecem especialmente atraídas pela atuação no poder público.

No Brasil, especialmente quando no poder público, esses grupos pregam uma ideologia, classificada como uma "teoria” da economia - o liberalismo -, que tem sua essência sintetizada em uma máxima: laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même - que, na nossa língua nativa, significa "deixem fazer, deixem passar, o mundo vai por si mesmo" 3.

O que faz essa ideologia tão atraente para esses brasileiros? Basicamente o fato de ela pregar a impossibilidade de que uma sociedade seja mantida, eficientemente, por um "governo". Para essas pessoas, a sociedade humana - e a representação mais marcante de sua organização, o Estado -, é ineficiente - posto que tudo que é humano tem falhas. Sendo assim, o Estado deve apenas e minimamente gerir - e gerir o mínimo possível; todas as demais atividades devem ser exercidas pela iniciativa privada. A consequência disso é que as pessoas que atuam no governo tornam-se meras intermediárias, acumulando muitos benefícios em proporção ao trabalho que realizam de fato em benefício da sociedade4.

Ainda que haja algum mérito na premissa de que o Estado é ineficiente na execução de projetos, esse mesmo grupo de pessoas prega que o Estado nem mesmo deva estabelecer regras: essa tarefa deve ser delegada a uma entidade amorfa e parcialmente aleatória - como um enxame de abelhas -, que seria mais eficiente na organização econômica e social do que uma entidade que se paute pela argumentação lógica e racional. Existe até uma justificativa para isso: que a organização social e política - e suas interações - seriam demasiadamente complexas para uma adequada compreensão e racionalização por um único ente5.

Não deixa de causar espanto, contudo, que uma ciência se paute por uma premissa digna de uma religião: o mundo é muito complicado para que possamos compreendê-lo, então deixamos tudo nas mãos de uma sabedoria coletiva que brote da iniciativa criativa de milhares de entes defendendo seus interesses individuais. A sabedoria e o controle teriam origem, portanto, em uma espécie de deus panteísta, a quem certo grupo denomina como "o Mercado" e, as regras por ele gestadas, "mão invisível"6.

É forçoso reconhecer que a tarefa de manter uma sociedade em funcionamento - a tarefa atribuída ao Estado - é, de fato, complexa... E não apenas pela quantidade de elementos e interações, mas também pelo comportamento dinâmico, variável ao longo do tempo. Isso não significa, por outro lado, que relegar todas as decisões uma entidade "amorfa e difusa” seja também uma solução necessariamente mais adequada.

De fato, não apenas a ciência - mas também o bom senso - demonstra que, em geral, o comportamento sensato é o caminho do meio. A resposta não é nem 8, nem 80, mas sim 427. Na aplicação das ciências evolucionistas - isto é, que estudam as premissas da evolução natural -, em específico na resolução de problemas matemáticos e práticos, é sempre necessário buscar um equilíbrio entre os processos denominados de "intensificação” e de "diversificação".

O papel da intensificação é usar uma teoria conhecida, lógica e racional, para direcionar o processo e aprimorar uma possível solução para um problema; já a "diversificação" serve para, pela simples tentativa e erro, buscar soluções inovadoras, que poderão ser aprimoradas posteriormente pelo processo de intensificação.

Traçando um paralelo, enquanto o Estado seria responsável pela intensificação e garantia de que os objetivos da sociedade serão atendidos, a iniciativa privada - exercendo o papel do Mercado - seria responsável pela diversificação e propor soluções inovadoras para os problemas enfrentados pela sociedade.

No entanto, o ponto de equilíbrio entre esses dois processos não é claro. Há problemas que exigem mais intensificação do que diversificação e outros que exigem o exato oposto. Há também aqueles cujo ponto de equilíbrio deve variar ao longo do tempo, para chegar a um estágio evolutivo mais alto e de maneira mais consistente.

Vale ressaltar, entretanto, que enquanto existem modelos puramente lógicos e racionais - a parcela intensificadora dos exemplos anteriores - que são capazes de encontrar sempre boas soluções para problemas específicos, são raros - para não dizer inexistentes - os modelos puramente "diversificadores" que são capazes de chegar, consistentemente, a boas soluções - mesmo para problemas específicos.

Não parece fazer sentido, portanto, pretender que a pura e simples minimização do Estado e a maximização do laissez faire seja um caminho que, indiscutivelmente, resolva os problemas de uma sociedade da melhor forma possível, como parecem crer os membros de determinadas seitas.

Neste sentido, ainda que a participação dos liberais na sociedade seja fundamental - e sem dúvida precisem estar representados em um Estado -, não parece fazer sentido que liberais assumam o controle do Estado. A administração do Estado envolve problemas muito sérios e complexos para ser deixada exclusivamente na mão de pessoas que acreditam que "deixar para os outros fazerem" - ou seja, fazer de tudo para não fazer nada - é o melhor a ser feito.

Afinal, aquele que se recusa a acreditar na vitória, será eternamente um derrotado.

1) Patológico no sentido de comportamento que afeta negativamente a vida pessoal e social do indivíduo. Sim, existe um juízo de valor aí, no caso do workholic, qual seja considerar que trabalho é meio de vida e não finalidade de vida.

2) Não se pretende aqui reduzir o papel do gestor - gerir verdadeiramente dá muito trabalho. Infelizmente há muito poucos gestores no Brasil... e muitos "gestores”.

3) Em países com mentalidade colonial como o nosso, essa ideologia, com slogan reduzido a laissez faire ("deixem fazer” ou "deixar fazer”) é muito incorretamente interpretada por empresários e políticos como "deixar de fazer algo que outro pode fazer”; no caso dos liberais brasileiros, em geral significa "deixar para os estrangeiros”, já que nossa classe industrial é praticamente inexistente - e não apenas por sua própria culpa, mas contraditoriamente por culpa da inação dos próprios governos passados, liberais ou não. É óbvio e ululante que não são apenas os industriais preguiçosos que acredita e defende o liberalismo - existe muita gente séria e pensante que também o apoia -, mas me espanta o como o liberalismo atrai essa categoria especial de pessoas, que enxergam no Estado apenas uma forma de transferir seus riscos para a sociedade.

4) É interessante notar que muitos liberais mais de centro defendem que o Estado deva cuidar da Saúde e Educação (embora, defendem, nunca deva substituir a iniciativa privada, que deve ter benefícios - como descontos de imposto de renda para quem usa os serviços privados), além da Segurança Pública (as pessoas teriam horror de ter que lidar com as consequências de uma segurança privada; por exemplo: imagine que seu segurança mata algum bandido em sua defesa, sob contrato... já pensou ficar implicado nesse processo de homicídio?). Obviamente os que pensam assim de verdade não são parte da categoria preguiçosa, já que gerir essas coisas dá trabalho pra caramba. Esses, quando realmente pensam assim, não os liberais sérios. Há poucos no Brasil.

5) Curiosamente esse pessoal que acha o Estado tão inútil adora que o Estado os socorra, quando erram a mão e dão um passo maior que a perna, com o dinheiro dos impostos do povo. É um mal hábito de "privatizar os lucros e socializar os prejuízos”.

6) Convém ressaltar que não acho que a teoria de Adam Smith esteja errada; apenas acredito que, como qualquer outra teoria criada para explicar fenômenos da natureza humana, ela é limitada e sua aplicação deve ser cuidadosa - e jamais de maneira generalizada (aliás, como se percebe inclusive da leitura de Adam Smith). O Neoliberalismo, com a teoria dos mercados perfeitos, vai na contramão dessa precaução, entretanto. E é aí que mora a semente de seu fracasso, perfeitamente explicitada com a crise mundial de 2008, mas que os fiéis da seita se recusam a aceitar... nesse ponto, se juntam aos comunistas radicais que acreditam realmente ser possível estabelecer uma espécie de paraíso altruísta na Terra.

7) Ver mais em "O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams.

Seg, 25/Abr/2016, 11:38

Por: Daniel Caetano

O "Conto" da Franquia de Internet

8 Votos

Atenção: este é o texto mais longo que já escrevi nesse blog; no entanto, para uma compreensão completa do problema, tornou-se necessário me alongar sobre uma série de aspectos. Se você ainda não entendeu qual é o problema ou qual é a malandragem por trás da criação das "franquias de internet" ou ainda acha que "isso é culpa do marco civil da internet", recomendo a leitura cuidadosa do texto. E, em caso de dúvida, não deixe de comentar!

Há um bom tempo sabemos que a qualidade do acesso à Internet oferecido no Brasil - como a da maioria dos serviços, públicos ou privados - é sofrível quando comparada à de outros países do mundo1. E, também como sempre, o preço é totalmente "fora da casinha". Para agravar a situação, os "provedores de acesso à internet" vieram agora com a ideia da "franquia de dados"2, um conceito importado da telefonia que, na cabeça dos burocratas, parece fazer todo o sentido. Mas não faz. E eu me proponho a explicar aqui, por A + B, porque não faz. Mas vamos começar do começo.

Um Breve Histórico

O acesso a Internet no Brasil sempre foi sofrível: lento e com pouca penetração. Acesso à Internet um pouco mais rápido, só nos grandes centros urbanos e a preços irreais3.

Tendo em mente a importância da Internet para o desenvolvimento social, cultural e econômico do país - já que a rede já é uma das principais infraestruturas de oferecimento de serviços e comércio do país - tem havido incentivo pesado na expansão da rede, seja por meio de isenções tributárias na "banda larga popular" e equipamentos de acesso, seja por meio de empréstimos subsidiados para a construção de infraestrutura4.

A fim de que tais medidas de renúncia fiscal façam sentido para a sociedade, as mesmas vieram acompanhadas de exigências com relação às empresas que vendem o "acesso à internet". Uma das principais exigências foi a melhoria entre a "velocidade contratada" e "velocidade garantida"5. Quem não se lembra de assinar Internet de "10 megabits por segundo" e descobrir que, no contrato, apenas 10% dessa velocidade (1 megabit por segundo) era garantido? É praticamente um gato por lebre, não é?

Pois bem. É isso que a exigência legal atacou, obrigando que esse porcentual garantido fosse sendo elevado gradativamente até que, em algum momento no futuro, você pudesse comprar gato e levar gato (ou comprar lebre e levar lebre). As empresas reclamaram, com o argumento de que é inviável, tecnicamente, vender o serviço com a garantia exigida. Será que elas têm razão?

Os limites do acesso à Internet

Observando que em outros países as empresas conseguem entregar o que vendem, percebe-se, de saída, que tem algo errado com a reclamação das empresas. Na realidade, o que ocorre é que elas querem fazer marketing de enganação e vender mais do que são capazes. Para entender isso, é preciso antes entender o que limita a conexão à Internet, isto é, porque não podemos ter Internet com velocidade infinita.

Sem entrar em detalhes muito técnicos, existe um limite físico para a transferência de dados entre dois pontos. Esse limite está relacionado à velocidade com que os elétrons transitam no fio de cobre (cabo UTP), a luz em uma fibra óptica ou as ondas eletromagnéticas no ar (wi-fi), além da própria técnica de codificação de informações (para entender, uma analogia simples: um ideograma japonês "codifica" uma "ideia" com um único símbolo, ao passo que, em português, o "código" para a mesma "ideia" usa vários símbolos, gastando muito mais papel)6.

Dado esse limite físico, um determinado conjunto de cabos, seja de cobre ou fibra, tem um limite físico de transferência, ou seja, quantos mega ou gigabytes por segundo ele consegue transmitir. Essa infraestrutura pode ser compartilhada com vários usuários simultaneamente - mais uma vez, não vou entrar em aspectos técnicos aqui - mas, grosso modo, é como uma rodovia: existe um limite de carros que podem passar lá por hora, mas podem passar ao mesmo tempo carros de várias pessoas.

Como a infraestrutura de rede é a única limitação significativa com relação à qualidade de serviço e sua expansão tem um custo relativamente alto, é exatamente o compartilhamento da infraestrutura que permite que o preço do serviço, para os usuários comuns, possa ser menor. Para deixar mais claro como funciona o compartilhamento, nada melhor que um exemplo prático.

Compartilhando uma Conexão

Digamos, simplificadamente e a título de exemplo, que uma empresa tenha uma infraestrutura que consegue transferir 100 megabits por segundo. Dentre as diversas possibilidades de negócio, uma das formas de vender acesso seria dividir essa conexão única em 10 conexões virtuais de 10 megabits por segundo e vender cada uma delas para um cliente, totalizando 10 clientes. Nesse panorama, cada usuário teria uma conexão de 10 megabits por segundo que poderia ser usada por 24 horas por dia. Vamos chamar esses "10 megabits por segundo" de "banda".

Uma empresa resolve adotar esse modelo, mas, depois de alguns meses, ela descobre que muito raramente há mais de 1 cliente conectado simultaneamente. Isso significa que essa empresa, então, está com sua infraestrutura ociosa: na esmagadora maioria do tempo ela tem uma banda de 90 megabits por segundo "sobrando".

Inicialmente ela pensa: "bem, eu poderia vender para 100 pessoas, então, para que tivéssemos até 10 pessoas simultâneas!", mas os engenheiros avisam: "não dá... se a média de acesso for excedida e as 100 pessoas acessarem simultaneamente, não conseguiremos atender a taxa de 10 megabit por segundo para cada cliente!".

O gestor tem, então, uma ideia brilhante: "vamos vender, então, para 100 pessoas". E o engenheiro fala: "E como vamos resolver o problema?" e o gestor diz: "Vamos dizer que vendemos uma Internet de 10 megabits por segundo, mas, no contrato, iremos garantir só 10% desse valor, ou seja, 1 megabit por segundo". Cem pessoas, 1 megabit por segundo por pessoa, totaliza 100 megabits por segundo.

Como a "banda" só é consumida quando efetivamente há troca de dados - o simples fato de estar conectado não consome praticamente nada. Enquanto a troca de dados era pequena - páginas web compostas por textos e fotos em baixa resolução - a ideia funcionou e a maioria das pessoas tinha a impressão de realmente estar com um acesso de 10 megabits por segundo, mesmo quando há mais de 10 pessoas conectadas simultaneamente.

Ainda assim, considerando que os contratos são do tipo "adesão" e que, culturalmente, a grande maioria das pessoas não lê esses contratos, a prática acaba por induzir o cliente ao erro, a levar gato por lebre, configurando uma espécie de "conto do vigário". No código penal, isso se assemelha ao que é descrito no artigo 171, o famoso "estelionato", onde está claramente expressa a situação em que o agente induz ao erro mediante artifício ou ardil.

Foi exatamente por isso que uma legislação foi criada para regular esse aspecto e, ao ampliar a velocidade garantida com relação à velocidade contratada5, obrigou também as empresas a ampliar sua infraestrutura. Isso custa dinheiro, é verdade... Mas se é possível oferecer o serviço corretamente vendido a um bom preço em outros países, como aqui, mesmo com todos os incentivos, não seria possível? É claro que é, mas essa choradeira tem nome: "lucro Brasil", isto é, as empresas, no Brasil, exigem uma lucratividade muito maior que em outros lugares do mundo para se considerarem "rentáveis". Além disso, a meta, em geral, não é "lucrar o máximo possível", mas "lucrar o máximo possível com o mínimo investimento", já que essa segunda abordagem reduz significativamente os riscos do negócio.

De qualquer maneira, o fato é que, por força da lei e pressão popular, as empresas passaram a ter que se adaptar a isso. Mas elas "revidaram".

A "Modulação" de Tráfego (Traffic Shaping)

Com o passar do tempo e a evolução da sociedade moderna, o uso da rede cresceu. Tudo passou a usar a rede, que se tornou universal e onipresente. As pessoas passaram a trocar arquivos de música, fotos, assistir vídeos... tudo pela Internet. E, para garantir a banda necessária, isso obviamente exigiu - e exige - investimento por parte das empresas. E investimentos significam mais riscos e reduções, ainda que temporárias, nas margens de lucro.

Assim, na visão das empresas, algo precisava ser feito. E elas começaram a preparar novas estratégias: limitar o acesso a certos serviços, grandes consumidores de banda, como P2P, streaming de áudio e vídeo (YouTube e NetFlix, por exemplo). Essa limitação poderia se dar de duas formas: por meio de restrição de velocidade ou pela limitação completa desse acesso, o que chamaram, eufemisticamente, de "modulação de acesso" ou "modulação de tráfego"7.

Na prática, significaria impedir o usuário de acessar os serviços, de maneira que ficasse menos custoso, para as empresas provedoras, oferecer uma conexão "mais rápida". Pense assim: se você impedir que caminhões e ônibus passem por uma estrada, ela vai ficar menos cheia. No entanto, muitos produtos deixarão de ser entregues nas cidades cujo acesso é feito por essa estrada, limitando o acesso aos produtos por parte da população e limitando o mercado dos fornecedores dos produtos.

Ocorre que, mais uma vez, a legislação - o Marco Civil da Internet8 - impediu as empresas de adotar esse esquema, com a imposição de um "direito" que ficou conhecido como neutralidade da rede9, isto é, todos os serviços devem estar igualmente disponíveis a todos os usuários que compartilham uma conexão, ainda que cada um deles tenha diferentes limitações de bandas contratadas. Adicionalmente, quando houver muitos usuários conectados, por esse princípio, não é permitido que "quem paga mais tenha menos restrição", ou seja, se tem gente demais usando a conexão, ela ficará igualmente ruim para todos.

A neutralidade, indiretamente, também impediu outra "estratégia" das empresas provedoras de acesso à internet: elas queriam cobrar do YouTube, NetFlix, Google, Facebook... para que você pudesse usá-los, sob a alegação que o negócio dessas empresas gera muito tráfego de dados e oneram o sistema. Essa justificativa é absolutamente sem sentido e de completa má fé por duas razões: a) as empresas que prestam esses serviços (YouTube, NetFlix etc.) já pagam uma infraestrutura monstruosa para ter seus servidores online; b) significaria que as empresas provedoras de acesso estariam "punindo" outras empresas por tornarem o acesso à Internet útil. Isso é tão absurdo quanto a Rede Globo querer cobrar da Warner Bros para passar um filme dessa produtora (ao invés de pagar por ele). Ou, por exemplo, como se a Petrobrás, diante das dificuldades financeiras atuais, quisesse cobrar das montadoras de veículos porque "os carros consumem muita gasolina".

Bem, o fato é que o Marco Civil da Internet veio justamente para impedir que as empresas sacaneiem o consumidor; nesse quadro, era esperado que as empresas se resignassem a vender o serviço com a qualidade que, de fato, possam entregar... e fim da história. Mas não se resignaram. E, agora, voltaram com toda a força.

A Origem da Franquia de Internet

Há muito tempo algumas empresas - oriundas de serviços como telefonia - inserem cláusulas em seus contratos10 indicando uma "franquia", isto é, um limite máximo de dados que pode ser transferido em um mês; se o usuário superar aquele limite, ele terá seu acesso suspenso, limitado ou, no mínimo, terá que pagar um valor adicional.

O argumento das empresas - e defendido pela ANATEL - é que se temos franquia na telefonia, podemos ter na Internet. Mas antes de a aceitarmos para a Internet, vamos ver de onde ela vem?

Embora não envolva um consumo significativo de recursos, a telefonia fixa começou com um sistema analógico, que envolvia um limite físico de conexões simultâneas11: ainda que falar ao telefone não "consumisse" conexões, elas ficavam bloqueadas durante a conversa e, por consequência, não era possível que todos pudessem conversar ao mesmo tempo - algo parecido com a Internet, mas não igual. E por que não é igual?

Imaginemos que um sistema de telefonia analógico antigo fosse capaz de 10 conexões. Por característica da tecnologia, essas conexões não são compartilháveis. Isso significa que se 20 pessoas estiverem conversando (10 ligações), quando a 21ª pessoa tentar pegar o telefone, o mesmo indicará, com o som característico, que todas as conexões estão ocupadas.

Diferentemente do que ocorre com a tecnologia digital da Internet, não era possível, na telefonia analógica, que mais de 10 ligações fossem feitas com as 10 conexões, nem baixando a qualidade. Simplesmente não era possível. Sendo assim, para evitar que as pessoas ficassem "penduradas" no telefone, o governo estabelecia um "limite razoável" de tempo que as pessoas deveriam usar por mês e esse total era vendido como um "pacote mensal", a um preço bastante baixo por minuto, na forma de "assinatura" (ou franquia). O que a pessoa usasse além dessa franquia, custaria muito caro.

Essa franquia garantia que as pessoas não ficassem "penduradas" no telefone pois, caso precisassem ligar, gostariam de poder fazê-lo sem ter que gastar uma grana preta. Em outras palavras, manteria o sistema ocioso a maior parte do tempo possível, para evitar que quando alguém fosse usar, ele estivesse ocupado. Além disso, essa estratégia permitia que as empresas de telefonia tivessem um fluxo contínuo de recursos (as assinaturas), mesmo que as pessoas não usassem efetivamente a linha.

A Farsa da Franquia de Internet

Se na telefonia a franquia consistia em limitar o número de minutos que o cliente poderia usar o telefone pagando um valor baixo, no caso da Internet a franquia consiste em limitar a quantidade de dados que o cliente pode transmitir ou receber pela rede; isso significa que, após assistir a uma quantidade de vídeos no YouTube ou NetFlix, ela não poderia mais assistir a vídeos ou transferir arquivos, seja porque sua conexão foi cortada ou porque a velocidade foi reduzida de maneira a dificultar a transferência de dados.

No entanto, essa medida é discutível no que tange ao acesso à Internet. Observe: diferentemente do que ocorria com o telefone, na Internet a qualidade da conexão é variável e a velocidade de conexão cai automaticamente se há muitos usuários simultâneos12. O caminho para manter a qualidade/velocidade boa para todos é muito simples: se a empresa não consegue atender 100 clientes, cada um deles usando 10 megabits por segundo, ela deveria vender menos megabits por segundo para cada cliente e o problema estaria resolvido, sem franquia. Como em qualquer negócio, não faz sentido vender o que não se pode entregar.

Ocorre que as empresas no Brasil já se acostumaram a vender "velocidade eventual" ao invés de "velocidade real". Isto é: eles "vendem" uma velocidade que você só consegue atingir se não tiver mais ninguém usando a Internet com você... o que, convenhamos, com as novas tecnologias, é praticamente impossível de se manter.

Como as empresas não podem modular o acesso e nem entregar muito menos velocidade do que o contratado... a estratégia foi inventar um meio artificial para que as pessoas queiram evitar usar a Internet - e observe a bizarrice: você quer vender um produto já amarrado a uma estratégia para o usuário não usar esse produto.

Curiosamente, o modelo da franquia serve como uma luva para essa necessidade. Vejamos como se dá o estelionato, nesse caso.

Uma empresa quer oferecer apenas 1 megabit por segundo, mas quer fazer propaganda que entrega 10 megabit por segundo. O que ela faz, então, já que para isso funcionar tem que manter seus usuários afastados da Internet? Simples: se o usuário ficasse conectado o tempo todo a 10 megabits por segundo, ele poderia transferir 3.160 gigabytes em um mês; se, por outro lado, ele fizesse o que a empresa quer, ou seja, usasse 1 megabit por segundo, ele iria transferir, no mês todo, cerca de 316 gigabytes. Então... o que a empresa faz? No contrato e na propaganda ela coloca, em letras garrafais: 10 megabits por segundo, mas, ao mesmo tempo, coloca uma franquia de 300 gigabytes para um mês - um valor que o usuário, em geral, não sabe avaliar se é pouco ou muito. Na prática, no entanto, isso significa que, se esse usuário de fato usar os 10 megabits por segundo, ele só vai poder usar a conexão por 3 dias!

Aí o usuário continua lendo o contrato e descobre que a empresa é muito boazinha: ela não vai cortar a internet dele quando a franquia acabar. Depois de acabar a franquia, a conexão só vai cair para 1 megabit por segundo!

Dessa maneira, eu driblo a lei que impede a empresa de vender gato por lebre e ela vende... gato por lebre!

Mas não fique feliz: é ainda pior. A maioria das empresas, para uma conexão dessas, coloca franquias ainda mais ridículas, como 8 ou 20 gigabytes... e a velocidade, após o fim da franquia, acaba sendo de uma pequena fração de megabit por segundo.

Os Falsos Dilemas

A ANATEL vem alegando que "a Internet poderia ser cobrada como água e luz, sem franquia, mas que isso ia causar uma conta enorme no fim do mês, prejudicando os clientes"13. Além de ignorar que água e luz possuem franquia - o pagamento mínimo - essa afirmação é uma falácia tão grande que só pode ter duas explicações: completa inépcia ou profunda má fé.

De maneira totalmente diferente da água e luz, quando se usa a rede não há consumo significativo de recursos, salvo o irrisório consumo de energia elétrica para alimentar os sistemas. Sendo assim, não há pelo quê cobrar uma fortuna, se não pelo "aluguel" da própria infraestrutura.

Assim como quando se aluga um apartamento, a pessoa procura um que esteja dentro de suas posses e o aluga. Há apartamentos melhores, maiores... e há os piores e mais apertados. Existe ainda, sempre, a possibilidade de ter um apartamento melhor compartilhado na forma de uma república. Em um mercado capitalista, feliz ou infelizmente, esses mesmos conceitos se aplicam - ou deveriam se aplicar - à Internet.

Desta forma, deve estar disponível no mercado uma ampla gama de alternativas, com preços justos com relação ao que é oferecido. A formação de um cartel que obriga o usuário a conviver com uma limitação grosseira - ou ter de pagar um preço irreal para eliminar essa limitação - é um abuso intolerável. Estamos falando de um serviço essencial ao desenvolvimento do país e de seus cidadãos, e que já não pode mais ser tratado como algo supérfluo.

Sugestões da ANATEL como "procurar usar jogos que não usem a Internet"14, assim como sugestões similares que possam ser feitas - "compre DVDs e Blu Rays" ou "Vejam a Rede Goebbels de Televisão" - são tacanhas, obscurantistas até, e tentam não apenas atrasar o progresso, mas causar retrocesso. São sugestões absurdas, como se uma cidade como São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília não tivesse densidade de usuários de Internet suficiente para custear a infraestrutura. Mesmo com todos os subsídios governamentais. E a despeito de todos os exemplos em dezenas e dezenas de países do mundo que demonstram claramente o contrário.

As Soluções

Não dá para negar que o "uso da Internet para tudo" impõe desafios às empresas. A demanda de transferência de dados tem crescido muito e, além do tráfego legítimo, também existe o tráfego dispensável - olá você, que já baixou uns 300 anos de músicas e filmes - e certa racionalização é necessária. Essa racionalização tem, de fato, feito com que exista certa tendência, na maior parte dos países, de haver algum limite de transferência de dados - ou seja, a malfadada franquia15. No entanto, um advento para promover racionalização não pode restringir o uso normal. Da mesma forma que não é razoável que todo mundo resolva fazer download na velocidade máxima 24 horas por dia, também não é admissível que se estabeleça uma franquia que impeça uma pessoa de usar a Internet normalmente - ao ponto de ouvirmos sugestões escabrosas como as propostas pela ANATEL.

Nos outros países em que é possível observar a existência de franquia, via de regra ela é muito mais generosa, mesmo considerando a telefonia celular - cuja infraestrutura costuma ser bem mais cara que a Internet "fixa". E, ainda assim, não se ouve falar de "cortar a conexão", mas sim da velocidade ser limitada a um valor mais baixo, mas ainda satisfatório para a maioria das funcionalidades. De qualquer forma, o que se observa nesses países é o uso da franquia como uma forma de coibir abusos - pessoas ou empresas que deveriam contratar uma conexão dedicada, mas contrataram uma conexão compartilhada. No entanto, para atingir esse nível de qualidade, é necessário que as empresas invistam em infraestrutura.

O fato é que, infelizmente, as empresas não estão interessadas em investir. Elas agem como uma concessionária de rodovia que, tendo construído uma estrada de faixa simples, passe a cobrar um pedágio absurdo "porque tem muita gente querendo usar a rodovia", mas jamais pense em ampliar o número de faixas. É uma situação insustentável e, pelo andar da carruagem, vai exigir ainda mais intervenção estatal - o que, em geral, não é bom... a não ser quando as empresas agem com a má fé que estamos testemunhando.

A única solução significa investimento. Investimento significa custo e, principalmente, tempo. E até lá?

Até lá as empresas precisam parar de vender sonhos. Se uma empresa não pode vender 10 megabits por segundo, venda apenas o que pode entregar. Na prática, seria uma questão de adaptar o discurso ao serviço que realmente é prestado.

Hoje se vende "conexão de 15 megabits por segundo com franquia de 80 gigabytes"... mas o que se entrega é "conexão de 0,25 megabit por segundo que, quando houver poucos usuários, pode chegar a 15 megabits por segundo"16. Afinal, se você fizer as contas, verá que, em um mês, consumindo continuamente 0,25 megabit por segundo, você fará um download de 80 gigabytes!

Obviamente as empresas não querem essa mudança de discurso, pois isso mostraria o quão precário é o serviço que prestam, a um preço exorbitante - para se ter uma ideia, o plano citado no parágrafo anterior não sai por menos de R$ 90,0016!

Considerando os preços e condições praticados internacionalmente, a franquia só faz sentido para coibir abusos ou para oferecer planos muito mais baratos que os atuais, visando pessoas que fazem uso eventual da Internet - muitos idosos, por exemplo. Os preços cobrados hoje, no Brasil, ao serem comparados com o de outros países, são altos até mesmo para a velocidade cheia e sem nenhum tipo de franquia. Querer impor franquia, com os valores e garantias hoje existentes, só mostra uma profunda falta de visão e desconexão do empresariado com a realidade.

É exatamente por essa razão que os "provedores de acesso à Internet" se associaram às empresas de telecomunicações, como emissoras de TV e TV a Cabo - que tem um gigantesco poder sobre os políticos e estão perdendo suas audiências para serviços mais modernos e práticos com o NetFlix17 e YouTube - para tentar impor esse modelo antiquado, lesivo ao usuário e, para piorar, que promove o atraso generalizado.

O desenvolvimento de nossa sociedade não pode ser amarrado por empresas anacrônicas como emissoras de TV aberta ou fechada. Que se adaptem à modernidade, que mudem de ramo ou que fechem suas portas. Não existe mais espaço para exigir que as pessoas aguardem acabar a "novela das oito" para assistir a um filme de quatro anos atrás; não existe mais espaço para obrigar artistas a pagarem produtoras e caríssimas distribuições físicas de CDs e DVDs; não existe mais espaço para que as pessoas sejam impedidas de fazer home office quando necessário.

A evolução é inexorável e a sociedade se recusará a retroceder à realidade do século XX.

 

Daniel Caetano

 

 

1) Não acredite em mim... analise o ranking da velocidade de Internet do Brasil em 2014, da Veja.

2) Veja o que o G1 diz sobre as franquias de dados.

3) Não acredite em mim, veja a análise do CGI.Br em 2011 e a análise do G1 em 2015. Há uma análise comparativa do TecMundo, de 2014, também. Em termos de preço, veja análise no UOL, de 2013 ou a análise de 2011, da ViaWeb. Você pode sair por aí consultando os sites de empresas em outros países. Lembre-se, é claro, de dividir isso pela renda média do país... ou pelo menos comparar com o preço do BigMac.

4) Não acredite em mim! Conheça o Plano Nacional de Banda Larga, os incentivos fiscais para expansão da rede de fibra óptica, a Banda Larga Popular e o incentivo ao consumo de aparelhos de acesso à internet, como notebooks, tablets e celulares.

5) Veja a resolução da ANATEL que oficializa essa aproximação entre a velocidade contratada e a velocidade real.

6) Esse artigo explica um pouco mais sobre como fazer o cálculo do limite.

7) Apesar de "proibido" pelo Marco Civil da Internet, pode ser que a sua provedora pratique o traffic shaping. A TecMundo fala sobre isso e como verificar.

8) Conheça a Lei 12.965 de 2014, que ficou conhecida como Marco Civil da Internet.

9) Conheça mais sobre neutralidade da rede.

10) Não acredite em mim! Veja matéria de 2009, da TecMundo, já falando sobre franquia de dados.

11) Se tiver curiosidade, veja como funciona a rede de telefonia comutada.

12) Esse texto fala de "gato de internet", mas no quadro fala sobre a redução pelo compartilhamento... isso ocorre também com o cabo do seu provedor de internet.

13) Veja só a comparação esdrúxula do presidente da ANATEL.

14) Olhe a sugestão divertida do presidente da ANATEL.

15) Segundo a TecMundo, franquia na Internet fixa é, realmente, uma tendência mundial.

16) Olhe, como exemplo, a tabela do Vírtua, da NET.

17) Não acredite em mim, veja a matéria do site Adoro Cinema!

Seg, 16/Mar/2015, 6:07

Por: Daniel Caetano

Um Povo Tão Perdido Quanto seus Governantes

4 Votos

Nos últimos dias o Brasil – e em especial São Paulo – presenciou duas grandes manifestações populares1 “contra o governo”. Foram eventos importantes e ambos carregaram sua beleza por não ter havido violência2 e, principalmente, por revelar o nível de politização3 de cada grupo que se manifestou. Em comum, no entanto, apenas a insatisfação e a incapacidade de propor soluções sistemicamente viáveis4.

No dia 13 vimos um ato “em defesa da Petrobrás” – seja lá o que isso signifique5; havia algumas bandeiras mais específicas – pela reforma política, contra as mudanças nos direitos trabalhistas e contra a ideia de um impeachment, mas nada que realmente toque no ponto central do problema vivido pelo país. De qualquer forma, isso foi apenas um ensaio para o show que veríamos no domingo.

No dia 15, pessoas se reuniram para protestar, primariamente “contra a corrupção”. Sem dúvida é um protesto válido, do qual ninguém discorda; um dos problemas é o caminho apresentado para isso, variando desde impeachment – como se cortar uma mão pudesse resolver um câncer no fígado –, “intervenção militar constitucional” – também na categoria “seja lá o que isso signifique” – contra o “comunismo” – claro, porque ninguém tem iPhone nem come no Burger King – e outros menos cotados, com suásticas e quetais6.

A legitimidade de ambas as manifestações é óbvia, apesar do pessoal do dia 15 desqualificar o do dia 13 por “serem sindicatos de apoio ao governo” e os do dia 13 desqualificar os do dia 15 “por serem grupos que votaram no candidato derrotado”. A verdade é que tem muita gente insatisfeita, mas aparentemente não são capazes de colocar para fora com clareza o que, exatamente, está errado... Assim como não querem ouvir uns aos outros. Parecem se esquecer de que estamos todos no mesmo barco.

O “governo”, por sua vez, é uma entidade amorfa, incapaz de se entender e de entender ao povo... e “governo” aqui não apenas inclui o congresso, mas é principalmente o congresso. O sistema político brasileiro ainda vive numa espécie de monarquia, em que o congresso é um tipo de “corte”; uma corte que crê piamente que os problemas da população são “menores”, que relevantes mesmo são seus problemas pessoais – e os de suas famílias.

Na realidade, os problemas da população e do país são inúmeros; passam por desvios de dinheiro público que não são investigados corretamente7, economia desindustrializada que não agrega valor à produção, pouca capacidade de investimento público para desenvolver a infraestrutura, inapetência por investimento de um setor privado acostumado a ganhos financeiros fáceis, captura da classe política por interesses divergentes daqueles da sociedade... e lista vai embora. E o que os políticos têm nos oferecido para sanar esses problemas? Qual a luz no fim do túnel? Viramos à esquerda ou à direita para chegar onde, mesmo?

Nosso sistema político está falido, precisa de uma revisão urgente... Mas, para que isso possa acontecer, as pessoas precisam não apenas falar, mas também ouvir umas às outras. Precisam parar de achar que seus problemas são maiores do que os outros ou que, porque têm menos ou mais dinheiro, sua posição conta mais. Precisamos de soluções boas, não de reclamações e choramingos. Que não está bom, todo mundo já percebeu; que não há soluções fáceis ou mágicas, também é algo que todos deveriam saber.

Gostemos ou não, o governo que temos é esse8. Alguns não gostam da Dilma e do PT, outros abominam Bolsonaro, Feliciano, PSDB e DEM. Eu, particularmente, personifico o problema no PMDB9 e seus supremos representantes modernos, atualmente nas presidências das casas legislativas. O fato é que todos têm o direito a espernear, mas isso não vai adiantar: o jogo tem regra.

A real dificuldade, no momento, é imaginar uma saída desejável e sistemicamente viável para propor ao – e cobrar do – governo. Um governo, diga-se, que está paralisado, capturado pelos interesses econômicos e comerciais de grandes grupos financeiros e de mídia, nacionais e internacionais.

Os membros do governo, se têm alguma leve ideia do que estão fazendo, têm obrigação de vir a público e explicar – e as pessoas deveriam ouvir, ao invés de rotular e bater panelas como se crianças mimadas fossem, tampando o ouvido e dizendo “eu não vou ouvir nada”. Bata panelas, mas faça isso em outro horário, pois quem não quer ouvir perde o direito de exigir audiência.

Os movimentos sociais evoluíram bastante, mas ainda parecem não entender que o momento do Brasil não permite sectarismo, cada um olhando pro seu próprio umbigo. Essa visão de mundo – que não é, de forma alguma, exclusividade dos movimentos sociais – foi uma das responsáveis pelo país ter chegado à situação atual.

A oposição à esquerda parece já ter uma ideia do que entende que deve ser feito, mas muitos ainda creem em movimentos espasmódicos como solução para problemas delicados. Vão discordar de mim e ignorar o que eu vou dizer, mas é preciso que se diga: soluções viáveis são transições suaves que, paulatinamente, proporcionem a mudança para aquilo que se acredita melhor.

A oposição à direita, se tem alguma ideia, devia expor mais – ainda que sejam as usuais propostas de privatização. Não consigo concordar com essas ideias, mas é importante que a discussão se dê às claras para que a população tome sua posição e pressione o governo para agir de acordo com o que quer. Não acredito que alguém queira ser massa de manobra de pessoas que querem nossos votos, nossos gritos em protestos, mas, assim que conseguem o que desejam, nos querem ver pelas costas.

Dói, mas é preciso que gastemos nosso tempo pensando e propondo mais... E nos odiando menos.

Ou vamos todos afundar juntos.

Daniel Caetano

1) Ainda que ambas tenham sido financiadas de diversas formas por grupos de interesse, ninguém leva tantas pessoas para a rua sem que cada um tenha suas motivações.

2) Não ocorrer violência não significa, em absoluto, que ambas foram manifestações pacíficas ou pacifistas.

3) Não estou querendo dizer que é alto!

4) Algo que as une às manifestações de junho de 2013.

5) Eu até tenho a minha interpretação do que é “em defesa da Petrobrás”, mas cada um tem a sua. O pessoal do PSDB, por exemplo, acredita que é fatiando ela e se desfazendo das partes menos relacionadas à produção de petróleo.

6) Olá! Vivemos em 2015, não em 1945! Se falar em “FHC” é velho e ultrapassado, lutar contra o comunismo é o quê? Arqueologia?

7) Me recuso a ficar dando lista de coisas não investigadas/não resolvidas, mas para ficar na atualidade, temos o “escândalo do Cartel do Metrô de São Paulo” – que tem inúmeras semelhanças com o “escândalo da Petrobrás” – ou o encerramento do “escândalo dos aloprados” da eleição de 2006, em que nada ficou definido. Dá pra fazer uma lista infinita de casos de não investigação... ou de investigação infrutífera... ou investigação que condenou pelo crime errado...

8) E embora eu seja de esquerda, não considero esse governo de esquerda. O governo era de centro-esquerda até o ano passado... No momento, na melhor hipótese, é de centro. Me sinto até como se o eleito tivesse sido Aécio Neves.

9) Com honrosas exceções históricas, como o Ulysses Guimarães e Pedro Simon; não concordo com todas as ideias deles, mas sempre considerei pessoas sérias e comprometidas com ideais positivos e democráticos.

Qui, 12/Mar/2015, 5:32

Por: Daniel Caetano

A Furada que é o Impeachment

2 Votos

Eu tenho escrito textos longuíssimos nos últimos anos, mas hoje vou tentar ser breve. Serei breve porque o impeachment é uma ideia tão ruim que nem é necessário elaborar muito. Resumirei em cinco curtos tópicos.

I. Não Adianta

A principal razão para pedir o impeachment parece ser a “corrupção”. É a típica solução milagrosa, à lá “Sassá Mutema” , que só dá certo em novelas da Globo (ou nem nelas). A corrupção é um problema tão arraigado e disseminado – em todos os três níveis de governo e empresariado – que é muita ingenuidade achar que a simples troca de presidente1 vai resolver alguma coisa.

II. Não é o que o Brasil Precisa

O Brasil precisa aprimorar a sua estrutura democrática e republicana, não jogar o pouco que foi conquistado no lixo. Como existe corrupção no governo e ela é fruto do ciclo vicioso “financiamento de campanha/eleição/retribuição em obras”2, fica explícita a necessidade de uma reforma no sistema político. Sejam mudanças no sistema eleitoral, sejam alterações que facilitem a troca de governante no meio de um mandato (o chamado recall). O caminho para isso não é impeachment, é pressão em cima do executivo e, principalmente, em cima do legislativo – em outras palavras, em cima do congresso.

III. Não é Conveniente

Além de se livrar da corrupção, é necessário que o país volte a crescer, a se industrializar e a se inserir nas cadeias internacionais de produção. Isso só é possível com credibilidade e segurança institucional, isto é, a garantia que as regras não serão mudadas no meio do jogo. Uma ruptura do sistema, ainda que por uma suposta “vontade do povo”3, vai totalmente na contramão do que se espera em termos de segurança institucional; se o que se deseja é crescimento e oportunidades, impeachment não é o caminho.

IV. Não é Legal

A despeito do que o senhor doutor Ives Gandra Martins tenha escrito, “culpa por má administração”4 não é motivo para impeachment. Há uma infinidade de aspectos altamente subjetivos nessa avaliação e opiniões muito discordantes em toda parte. Se “má administração” deve passar a ser motivo de troca de mandatário, o caminho é aquele discutido no item II, para evitar os problemas do item III.

V. Não é Sábio

Conforme o dito popular, “inteligente é quem aprende com os próprios erros” e “sábio é quem aprende com os erros dos outros”. Não é necessário se aprofundar muito na história do Brasil para ver que estamos vendo o passado se repetir; na última “indignação ‘popular’” encaramos 20 anos de ditadura, onde a grande maioria dos problemas do sistema político atual se aprofundou e tomou a forma que possui hoje5 - inclusive foi na ditadura que se formaram os políticos que temos hoje, de situação e oposição. Ruptura democrática é tão bom para aperfeiçoar a política quanto “gastar mais do que ganha” é bom para quem está devendo.

Conclusão

Diante de tudo isso, resta perguntar: a quem interessa o impeachment? Com que objetivos? Tem certeza que quer fazer parte da massa de manobra?

Daniel Caetano

1) Curiosamente, trata-se do primeiro governante brasileiro que se dispõe, ao menos pública e explicitamente, a combater a corrupção.

2) Em outras palavras, corrupção pelo poder econômico.

3) E olha que “vontade do povo” é forçar muito a barra, por mais que você ache que todo mundo está com esse ódio todo do governo; afinal, mesmo que muitos estejam desgostosos com o governo, o governante atual acabou de ser reeleito para mais 4 anos de mandato. Você não gostou? Eu também não gostei que FHC tenha ganho uma segunda vez, mas nem por isso pedi um impeachment.

4) Obviamente, considerando que você pense como eu, isto é, que a administração atual está sendo muito ruim.

5) Obras superfaturadas – e algumas desnecessárias –, relação promíscua entre políticos e empresários – em especial, das construtoras –, “toma-lá-dá-cá” no congresso – inclusive com o desvirtuamento da câmara e instituição de um número mínimo de deputados por estado, para aumentar a influência dos estados “fiéis à ditadura” –, acobertamento e conivência com crimes políticos por parte da mídia... só para citar alguns.

Ter, 3/Fev/2015, 8:33

Por: Daniel Caetano

Profecias Autorrealizáveis

1 Voto

Desde nossa primeira infância percebemos as relações de causa e efeito no mundo. Em grande parte, o raciocínio cognitivo é desenvolvido com base nesse tipo de relação, treinado à exaustão em disciplinas como matemática, física ou química.

Não é surpreendente, portanto, que nosso lado racional nos pregue algumas peças, se não estivermos preparados. Por exemplo: tome uma criança que nunca tenha visto uma pessoa loura, mas conheça muitas morenas. Para essa criança será muito fácil concluir que todas as pessoas do mundo são morenas.

Podemos nos sentir satisfeitos ao evitar esse processo de "generalização", mas infelizmente isso ainda não nos impede de sermos surpreendidos. Ainda que na maioria dos casos a nossa opinião sobre um assunto - ainda que seja a mesma opinião de todas as pessoas do mundo - não tenha consequências reais, isso nem sempre é verdade.

Obviamente, mesmo que todos os humanos pensem que o Sol gira em torno da Terra, isso não muda o fato de que é a Terra que gira em torno do Sol... por outro lado, se todos pensarem que um determinado produto é ruim... pode ser que ele se torne ruim.

Como assim?!?

Simples: se há um boato que diz que uma nova marca de um produto é muito ruim, talvez as pessoas deixem de adquirir o produto dessa marca sem nem mesmo experimentá-lo. Sem vender, a empresa que o produz pode fazer uma de duas coisas: a) parar de produzi-lo ou b) reduzir seu preço... o que, quase invariavelmente, implicará na redução de sua qualidade1

É o princípio de que não basta ser honesto, é preciso parecer honesto... ou que não basta ser bom, é preciso ser conhecido como tal. A "fama" de algo pode influenciar no seu futuro.

Infelizmente isso não é algo raro. Em muitas relações da vida humana a expectativa com relação a alguma coisa acaba tendo influência direta sobre o futuro dessa coisa. Em quase tudo que há interferência do comportamento humano, o futuro é feito não apenas de fatos, mas também - e principalmente - de expectativas.

Vejamos a bolsa de valores: crie a expectativa de que as ações de uma empresa irão cair (ou que ela não dará lucro em um determinado trimestre) e assista, comendo pipoca, à queda das ações. Se a expectativa for transferida com sucesso a um número suficientemente grande de investidores, pode-se disparar um "efeito-manada", que faça com que os valores das ações despenquem.

As agências de risco, grupos econômicos especializados em avaliar o risco de se emprestar para determinadas empresas e países, levam em conta esse tipo de "tombo" no mercado acionário; com base nesses tombos e nas expectativas do "mercado", podem reduzir o "grau de investimento" da empresa, fazendo com que se torne mais caro para essa empresa tomar empréstimos e dificultando novos investimentos... o que, finalmente, pode fazer com que, de fato, essa empresa não dê lucro no trimestre! Em outras palavras, fazendo com que aqueles que "plantaram" a expectativa inicial se deliciem com a concretização de sua profecia.

Parece distante isso, não? Só que não. Tem acontecido todos os dias, todos os anos, na última década.

E isso tem sido tão frequente e contínuo - já escrevi sobre isso no passado, inclusive - que chegamos ao ponto de a maior empresa do País, uma das maiores do mundo - além de ser a mais importante e rentável do Brasil - estar sendo comparada a "lixo" no subconsciente dos mais incautos. Já tem tanta gente achando que a Petrobrás e a OGX são a mesma coisa que, pasmem, dizer diferente tem sido motivo de chacota.

Mas qual o interesse nisso?

Bem, primeiramente, seja em qual tipo de expectativa criada no "mercado", quem a cria tem um único interesse: lucrar. Seja um concorrente que quer quebrar - e comprar - outro, seja alguém que quer lucrar comprando e vendendo ações da empresa...

No caso da Petrobrás, entretanto, como se diz no popular, o buraco é mais embaixo... é de petróleo que estamos falando. E não é pouco petróleo, não. E é o mesmo petróleo que decidiu a Segunda Guerra Mundial, que causou duas invasões no Iraque, que motivou a guerra no Afeganistão3 e que faz a economia girar4 no mundo todo. Petróleo dá poder e não é do interesse do resto do mundo que o Brasil tenha mais poder5.

Nos últimos 15 anos os governos trabalhistas meteram os pés pelas mãos em um monte de coisas. Uma política fiscal equivocada6, a inexistência de uma política industrial7, a inexistência de uma política de comunicação condizente com o que tem sido feito - e que a mídia se esforça por esconder8.

Por outro lado, a despeito de todos os desvios e desmandos, a Petrobrás tem crescido e, se o valor de suas ações tem caído, isso tem muito mais a ver com a grande demanda por investimentos desde a descoberta do pré-Sal - ou seja, menos dividendos para os acionistas - e com a política de reajuste da gasolina no Brasil do que propriamente com outros elementos9. É claro que os problemas de governança (vulgo: corrupção, superfaturamento etc.) têm influência no valor da empresa no mercado; mas não têm necessariamente essa importância toda que a eles tem sido atribuída. Não compactuo de maneira alguma com os desvios - que são execráveis - mas a empresa tem se mantido rentável e realizando infindáveis investimentos mesmo com esses desvios.

Esses investimentos, aliás, são o que de mais importante a Petrobrás tem feito para o País e, de mais a mais, é essa a parte da importância da empresa que não entra na conta dos que acham que "é mais barato comprar lá fora". Os investimentos em pesquisa, a reativação da indústria naval10... e mesmo os investimentos em construção. Focos de corrupção? Desvios? Superfaturamento? Sim, tenho consciência. E creio que os desvios devem ser corrigidos. Mas se no processo a empresa e o pouco que resta de nossa indústria for destruído, o País será destruído junto.

Quando uma criança tem vermes na barriga, a solução é dar vermífugo - e não matar a criança. Não se pode jogar o bebê fora, junto com a água do banho.

1) Consideremos que o primeiro caso não faz sentido, pois há um grande capital investido nas fábricas do tal produto2. No segundo caso, reduzir o preço significa reduzir margem de lucro ou reduzir custos. Reduzir o preço com base na redução da margem de lucro tem um limite e, se essa redução não for suficiente, pode reforçar ainda mais a imagem de produto ruim sem, contudo, atrair vendas. Pessoas que compram de outras marcas, continuarão comprando de outras marcas. Assim, no caso de uma má imagem inicial da marca, a redução no preço do produto deve ser tal que atinja um público diferente: um público que não compraria as outras marcas por não ter condição financeira, por exemplo. Isso pode funcionar, mas se foi com base pura e simplesmente na redução da margem de lucro, isso pode significar que o produto esteja sendo vendido por um preço abaixo do custo - o que torna a operação inviável... a menos que se reduza a qualidade do produto (reduzindo o custo). A alternativa é reduzir o custo de cara e reduzir o preço sem reduzir (tanto) a margem. De uma forma ou de outra, a expectativa de que o produto fosse pior que os outros fez com que ele, de fato, se tornasse pior que os outros.

2) É importante ressaltar que, caso o produto não seja mais produzido, ele não terá se tornado ruim, mas a situação se torna irrelevante para a nossa análise visto que não é razoável comparar a qualidade de um produto existente com um inexistente.

3) Torres Gêmeas foi uma desculpa perfeita, não? Pearl Harbour também. Coisas horríveis que são feitas pelo "ouro negro"...

4) Às vezes me surpreendo com as pessoas pensando em petróleo apenas como combustível, se esquecendo que boa parte dos lubrificantes, gás, plásticos, borrachas, pesticidas, implementos agrícolas e uma infinidade de outros produtos são derivados ou de produção relacionada à do petróleo, inclusive alimentos e medicamentos.

5) E isso não é novo. A Petrobrás foi criada sob fogo cerrado da mídia e dos "formadores de opinião" do país, que sempre acharam que o Brasil devia deixar o petróleo para quem sabe explorar e comprar de fora porque é mais barato. Primeiro diziam que era ridículo, que o Brasil não tinha petróleo. Depois diziam que o petróleo do Brasil era ruim e caro. Depois que era pouco. Quiseram vender a exploração para as estrangeiras, com o modelo de concessão, para que a Petrobrás não tivesse que "se arriscar". Quando descobriram o pré-Sal, disseram que ele não existia. Quando foi comprovado, disseram que o Brasil não conseguiria explorar, que não tinha tecnologia. Quando começaram a extrair, diziam que só iam conseguir explorar o superficial, que era pouco. Quando começaram a extrair em grande quantidade e mais profundo... bem, aí descobriram corrupção e depois veio uma queda do preço do barril, provavelmente momentânea, mas o suficiente para justificar dizer que a empresa quebrou.

6) Cadê reduzir impostos nos produtos e reequilibrar os imposto de renda cobrando mais dos mais ricos? Cadê imposto sobre grandes fortunas? Cadê a redução de impostos na produção e o aumento de impostos nos rendimentos financeiros? Ainda que muitas dessas coisas não sejam as soluções definitivas, que não resolvam todos os problemas, pelo menos tornariam a nossa tributação mais humana, moral e socialmente responsável.

7) O Brasil não tem política industrial positiva desde o fim da ditadura. No governo Sarney era tanto problema que ninguém tinha tempo de pensar nisso; no governo Collor e Fernando Henrique, a política industrial era não ter indústria - "vamos importar que é mais barato" - e nos governos Lula e Dilma... deixaram como estava para ver como ficava.

8) Quantas vezes o leitor viu a transposição do Rio São Francisco, a Ferrovia Norte-Sul, as hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, a Refinaria de Abreu e Lima... sem ser nos programas eleitorais do governo ou em denúncias de atraso/crime ambiental/corrupção? Da até a impressão que o governo nem tem feito nada certo, não é?

9) A política de preços da gasolina - reajustes bastante espaçados - tem efeitos deletérios sobre a capacidade de investimento (e de pagamento de dividendos) da empresa, isso é um fato; por outro lado, essa política é o pouco que tem sido feito de imediato no sentido de melhorar a competitividade dos produtos brasileiros, já que o custo dos combustíveis entra no preço de todos os produtos, seja na sua produção, seja no seu transporte. Vale lembrar que uma das razões para o governo controlar o reajuste é que o preço do petróleo sobe e desce no mercado internacional, mas os nossos comerciantes, historicamente, sobem e não abaixam - quando o preço cai para eles, eles "repõem a margem de lucro". Ademais, ainda que não seja exatamente a mesma coisa, outros países - como os EUA - têm políticas de subsídio aos combustíveis exatamente pela mesma razão de melhorar a competitividade de seus produtos.

10) Uma das poucas que o governo do PT realmente conseguiu reativar. A indústria ferroviária ainda patina... e outras nem esperança de luz do dia ainda veem.

Sex, 17/Out/2014, 5:07

Por: Daniel Caetano

Não Aguento Mais Corrupção!

5 Votos

“Não aguento mais tanta corrupção”, foi o que ouvi ontem, ao perguntar a um colega, aqui em São Paulo, porque ele pretendia votar em Aécio. E não foi a primeira vez: o paulistano médio tem dado muito essa resposta. Curiosamente, no entanto, quando confrontados contra a questão “E por que votou em Alckmin, com toda a corrupção no estado?” a pessoa argumenta que faltava opção. Por que seria válido “Arriscar no Aécio para tentar acabar com a corrupção do PT”, mas não foi válido “Arriscar com o Skaf” ou “Arriscar com o Padilha” ou com qualquer outro para “acabar com a corrupção do PSDB”?

Por que os paulistanos têm aceitado tão facilmente essa do “votar em qualquer um para acabar com a corrupção do PT”, mas essa mesma máxima não vale quando se trata de acabar com a corrupção do PSDB? São dois pesos e duas medidas, estimulados há anos pela “grande imprensa”. São “anos de indignação seletiva”, de denúncias que são repetidas à exaustão quando são contra um partido específico – o PT – e ignoradas ou rapidamente esquecidas quando se referem ao PSDB.

 

Vou contar a história da minha “iniciação política” para que o leitor entenda as razões pelas quais eu me angustio com o que estou vendo acontecer.

 

Conheci bem o que é o PT – e a maioria dos partidos de esquerda – quando fiz parte do movimento estudantil, em pleno governo Fernando Henrique Cardoso. Na época, eu e um grupo de amigos nos colocamos como oposição ao grupo que dominava a agremiação estudantil (PT/PCdoB), com uma aparente bênção da direção da faculdade. Queríamos trabalhar, produzir coisas para os alunos, e achávamos que seria muito mais produtivo fazer tudo isso “sem desviar verba para o partidão”, como dizíamos.

No entanto, queríamos trabalhar e explicitávamos nossa independência partidária. Isso, essa coisa de “apartidário” que ressurgiu agora, pensamos nisso pelo menos uns 15 anos antes1. Acreditávamos firmemente que o movimento estudantil tinha que pensar no bem dos estudantes e não se envolver nem se posicionar sobre problemas mais amplos2. E, de muitas formas, isso não deve ter agradado à direção da instituição, que fez o famoso “enrola, engana, engaveta”. O diretor neutralizou o nosso ânimo com muita eficiência e nos deixou desacorçoados.

Mais tarde descobrimos que nosso diretor era partidário do PSDB e, de repente, eu me toquei que havíamos nos metido em meio a uma guerra partidária. Os partidários do PT discutiram com a gente e, em várias ocasiões, debateram conosco, tentando nos mostrar como, na visão deles, estávamos equivocados; o partidário do PSDB fez de conta que encampou nossa ideia, mas agiu sorrateiramente para nos desarticular. Fomos a “Marina Silva” da vez, a terceira via que acreditou no PSDB e com isso desmanchou no ar.

Mais tarde descobri que muitos dos professores de minha escola eram partidários do PSDB - a grande maioria daqueles que recebe o salário e não quer dar aula, usa o nome da instituição para conseguir bons projetos e ganhar um por fora. Em geral, alimentam as “fundações caixa-preta”, que são administradas pelos colegas do PSDB – muitos deles participando ativamente dos governos tucanos como secretários e assessores. Para piorar, vivem falando mal das universidades públicas, ainda que "trabalhem" em uma.

Ao longo dos anos, a maioria dos meus amigos daquele grupo do movimento estudantil se tornou partidário ou defensor do PSDB. Os que são mais explícitos dizem que é “a tática vencedora e com os quais é possível ganhar mais dinheiro”, outros simplesmente ficaram com nojo do que viram do PT – e apesar de terem sentido na pele o impacto da ação do PSDB, dizem “não ter visto nada demais”.

De minha parte, nunca achei que muitas das “táticas” usadas fossem éticas ou morais – e estou falando de ambos os partidos. E reforcei essa convicção quando percebi que esse mesmo “modo de operação” se reflete quando esses partidos estão no poder: o PT age como uma gangue, o PSDB age como a máfia italiana. Em termos de corrupção a diferença está na omertà3 imposta pelo segundo.

Os anos me mostraram, porém, que a corrupção não é exclusividade dos partidos. São empresas que compram sindicatos, pagam propina para fiscais, sonegam impostos, estimulam ou conduzem trabalho escravo, “corrigem” leite estragado com água oxigenada ou soda cáustica, financiam campanhas políticas para cobrar contratos superfaturados... E o pior, não para por aí.

Longe de querer relativizar a questão, é preciso perceber que a corrupção está arraigada na nossa sociedade (no mundo todo); ela está naquela “pequena” fraude para pagar menos Imposto de Renda, manifesta-se ao não devolver o troco que recebeu a mais por equívoco do comerciante, ao “dar gato” no serviço, ao pensar em subornar o guarda, ao beber e dirigir, ao dirigir a uma velocidade maior que a permitida – e ainda se indignar com a existência dos radares, a “indústria da multa”...

A crise moral e ética é da sociedade, também. Quando se joga a bituca do cigarro pela janela, quando se recebe aumento e não se dá um reajuste justo aos empregados, quando se pensa em ser funcionário público “para não trabalhar”, quando alguém se apropria do trabalho alheio para subir na empresa e na vida...

Ainda assim, a grande maioria das pessoas têm suas virtudes e fazem coisas boas também. E é preciso fazer um balanço. Ninguém é “escória” porque jogou a bituca do cigarro pela janela ou porque lhe fechou no trânsito – por mais que você se revolte com o sujeito.

No caso dos partidos, é muito claro o que cada um deles fez pelo país. Sim, eu sei que ambos se apropriam de ideias alheias, mas eles também têm sua parcela de participação. Não importa apenas quem criou e organizou o Plano Real - Itamar Franco (PMDB); foi, aos trancos e barrancos, também com muitos erros, que FHC (PSDB) deu andamento na coisa. Não importa apenas que Cristóvam Buarque (na época, PT) tenha inventado o Bolsa Escola, no Distrito Federal, e FHC (PSDB) o tenha implantado no Governo Federal; foi Lula (PT) que, também com muitos erros e tropeços, organizou as diversas “Bolsas” e permitiu sua concessão em larga escala.

Se é importante que Jamil Haddad (PSB), durante o governo Itamar Franco (PMDB), tenha inventado os Genéricos, também é importante que José Serra (PSDB) tenha dado um empurrão na universalização dos mesmos. Sabemos que foi Getúlio Vargas (PTB) que criou o salário mínimo, mas desde que João Goulart (PTB) o dobrou em 1954, seu valor foi corroído. Ele foi levemente elevado no governo FHC (PSDB), mas foi Lula (PT) e Dilma (PT) que criaram a regra que permitiu realmente que ele deixasse de ser uma piada – ainda que esteja longe de ser suficiente ao cidadão médio.

Mas todas essas coisas, como gostam de dizer os candidatos do PSDB, é olhar no retrovisor. É história antiga. E dizer que o Plano Real é responsável por tudo de bom que aconteceu nos últimos anos beira à má fé, é cinismo do pior tipo. É como dizer que tudo que deu certo nos últimos 30 anos teria ocorrido automaticamente, por milagre, só porque Getúlio Vargas criou a CLT e a Petrobrás.

Entretanto, deixando as mudanças econômicas4 e sociais de lado... no concreto, qual foi o partido que, no governo, criou universidades, construiu e está construindo hidrelétricas, está recriando as ferrovias, se movimentou para a expansão dos portos, ampliou e investiu na indústria naval? Com qual partido no governo houve a maior expansão das reservas e na produção de petróleo, nas obras de combate a seca, no transporte e iluminação públicos?

E qual foi o outro partido que, no governo, “deixou para a iniciativa privada”5 as ferrovias, universidades, hidrelétricas, livrou-se da boa parte da Petrobrás, da Vale e várias outras empresas que compunham o patrimônio brasileiro e, hoje, dão muito pouco lucro para os brasileiros?

Enfim, qual partido que, no governo, ampliou o patrimônio do povo brasileiro? E qual foi o que vilipendiou esse mesmo patrimônio?

 

Por tudo isso, me assusta como a grande mídia conseguiu levar tantas pessoas, supostamente bem informadas, a agir da forma com que estão agindo. “Não suporto mais tanta corrupção” é a lavagem cerebral que a oposição fez para que as pessoas aceitassem trocar um governo cheio de defeitos – mas que construiu muito nesse país – por outro também cheio de defeitos – mas que em seu tempo desmontou o país e, ainda hoje, desmonta os estados em que governa6.

 

É importante lembrar que, quando existe uma insistência muito grande para que se olhe apenas uma folha de uma árvore, há sempre sempre um desejo de esconder o que está acontecendo com a floresta como um todo.

1) E, é claro, tenho certeza que uma infinidade de jovens mal informados pensaram nas mesmas coisas muitas e muitas vezes antes de nós.

2) Acredito nisso, em algum nível, até hoje; no entanto, entendi que as coisas não podem ser tão pretas no branco; é papel do movimento estudantil fomentar a discussão, já que é assim que se complementa a formação dos cidadãos.

3) Omertà, segundo a Wikipédia, significa “silencio obstinado, muito comum no sul da Itália onde as pessoas têm medo da Máfia e, ao fazer uma denuncia, arriscam a própria vida, porque as organizações mafiosas são extremamente vingativas e solidificam o seu poder sobre o medo de pessoas humildes”. No caso do PSDB, ela se manifesta na perseguição de jornalistas (e até outras pessoas) que denunciam suas ações. Em oposição, aqueles que fizerem voto de silêncio, são protegidos pela máfia.

4) Sim, bem ou mal, o PSDB estabilizou a moeda. Entretanto, é difícil encontrar números da economia atual que estejam piores ou que tenham crescido menos no governo liderado pelo PT do que no governo liderado pelo PSDB.

5) Com os maravilhosos resultados que todos conhecemos: 20 anos depois que o PSDB assumiu, ainda não foi possível tirar o atraso!

6) Cadê a água em São Paulo? Cadê a educação em Minas e São Paulo? São Paulo dominada pelo transporte particular porque não se investe o necessário em transporte público? Cadê a segurança pública, em tempos de PCC? Para quais estados foram as indústrias de São Paulo, mesmo?

Qua, 15/Out/2014, 18:24

Por: Daniel Caetano

Propostas dos Presidenciáveis 2014

2 Votos

Nos últimos dias tenho ouvido um "mimimi" do candidato Aécio Neves, dizendo que ele quer fazer uma campanha propositiva e que a Dilma só ataca e faz campanha do medo.

Como eu não sou fã de "Campanha Regina Duarte", resolvi organizar as propostas que ambos os candidatos (e seus asseclas) apresentaram em entrevistas e programas eleitorais para saber o que, de fato, cada um está propondo e ter uma boa base de comparação.

É óbvio que entre prometer e fazer há um abismo profundo e infinito, mas propostas claras mostram, no mínimo, a disposição de comprometimento que cada candidato tem.

Para manter a clareza da exposição, eliminei tudo aquilo que já existe e que nenhum dos candidatos mencionou, caso contrário a lista seria enorme, prejudicando uma comparação de propostas novas. Só são mencionados programas já existentes quando um dos candidatos sugeriu, explicitamente, reduzir ou modificar os mesmos.

Se eu tiver esquecido alguma coisa, por favor, entrem em contato e me avisem.

TemaDilmaAécio
Educação
  • Ampliar o ensino em tempo integral
  • Melhorar o piso salarial dos professores (verba do pré-sal)
  • Modificar a constituição para permitir que a União participe mais da educação (nível básico e médio)
  • Universalizar creches
  • Ampliar significativamente o Pronatec (Pronatec 2)
  • Melhorar nível médio para reduzir evasão
  • Ampliar o ensino em tempo integral
  • Pagar "bonus" aos professores por "produtividade"
  • Pagar salário mínimo para que alunos que não finalizaram os estudos voltem a estudar
Saúde
  • Mais Especialidades (rede nacional de clínicas, consultas exames e tratamento
  • Ampliação das UPAs
  • Universalizar o SAMU
  • Ampliar os cursos de medicina e as vagas nos cursos existentes
  • [Cri cri cri...]
Segurança
  • Modificar a constituição para permitir que a União participe mais da segurança
  • Modelo de Segurança Integrado
  • Universalização dos Centros de Comando e Controle
  • Casa da Mulher brasileira
  • Redução da maioridade penal para crimes hediondos
Previdência
  • [Cri cri cri...]
  • [Cri cri cri...]

Aécio retirou a proposta de acabar com o fator previdenciário em entrevista à globo, no Bom Dia Brasil

Habitação
  • Ampliar o Minha Casa Minha Vida
  • Manter os programas de financiamento subsidiado (CEF)
  • Reduzir a participação dos bancos públicos no financiamento de moradia)
Trabalho
  • Aprimorar legislação para acabar com trabalho escravo
  • Regulamentar melhor a terceirização já prevista
  • "Flexibilizar" a CLT
  • Ampliar os limites de terceirização
Investimento Social
  • Aprimorar o Bolsa Família
  • Substituir o Bolsa Família pelo Família Brasileira
Mobilidade Urbana
  • Ampliar os investimentos em transportes públicos (metrôs, VLTs, BRTs, corredores...)
  • [Cri cri cri...]
Agricultura
  • Manter os programas de crédito subsidiado
  • Criar a Agência nacional de Assitência Técnica e Extensão Rural (ANATER)
  • Reduzir a participação do Estado nos financiamentos
Reforma Política
  • Reforma política com participação do povo por plebiscito (proposta)
  • Fim do financiamento privado de campanha (proposta)
  • Acabar com a reeleição - em 2022, após a sua própria reeleição, claro
Combate à Corrupção
  • Transformar em crime enriquecimento injustificado de agentes públicos
  • Transformar em crime eleitoral a prática de caixa 2
  • Criar mecanismos para confisco de bens adquiridos de maneira ilícita
  • Modificar a legilação para acelerar processos envolvendo verbas públicas
  • Criar meios para agilizar investicação e processo de agentes com foro privilegiado
  • [Cri cri cri...]
Combate à Inflação
  • Usar todos os recursos para controlar a inflação dentro da meta, mas sem prejudicar emprego e renda (bom, pelo menos essa é a intenção!)
  • Armínio Fraga
  • Ampliar juros para reduzir a inflação a 3% ao ano
  • Reduzir ou limitar a valorização do Salário Mínimo
  • Medidas impopulares
Impostos e Carga Tributária
  • Universalizar o Simples Nacional
  • Criar o Simples Internacional (para exportações)
  • [Cri cri cri...]
Gastos Públicos e Superávit Primário
  • Manter a política anti-cíclica para manter emprego e renda
  • Ampliar o superávit, reduzindo o investimento e gastos públicos
Custo Brasil
  • Desburocratizar os processos de abertura de empresas
  • Trazer de volta a "credibilidade"
Política Externa
  • Manter e expandir os acordos multilaterais
  • Fortalecer o BRICS
  • Lutar por mais participação em outros organismos (ONU, BM, FMI...)
  • Restabelecer acordos bilaterais com EUA e países europeus "desenvolvidos"
Direitos LGBT
  • Criminalização da Homofobia
  • [Cri cri cri...]
Comunicações
  • Banda Larga para Todos
  • Controle Econômico (impedir monopólios/oligopólios)
  • [Cri cri cri...]

Parece que não há tantas propostas assim na coluna da direita. Seria legal se Aécio tentasse ser mais propositivo.

Qua, 10/Set/2014, 11:51

Por: Daniel Caetano

Por que votar em Marina Silva?

7 Votos

Sou um dos muitos que acha que o governo Dilma deixou bastante a desejar; acho que poderia ter feito mais, cedido menos aos “de sempre”, enfrentado mais o poder econômico0 e tratado melhor os trabalhadores1.

Diante disso, meu voto do primeiro turno deve ir para algum outro candidato, um desses que não tem chance alguma; em um segundo turno, entretanto, só sei em quem não vou votar: Marina Silva.

Quando expresso essa ideia, alguns me olham com surpresa: se não está satisfeito com Dilma, por que não votar em Marina? A resposta é um pouco longa, mas gostaria de guiá-los por minhas razões, dividindo-as em dois grandes grupos: aquelas relacionadas ao plano de governo... e aquelas relacionadas à postura pessoal da candidata.

Razões relacionadas ao Plano de Governo

Porque os ideólogos econômicos dela representam a treva

Começo por essa - uma afirmação forte e complexa - que reflete a minha principal objeção a um eventual governo de Marina Silva. Após um exame cuidadoso, pude verificar que a política econômica sugerida pelo seu plano de governo vai na mesma direção daquela proposta pelo PSDB de Aécio Neves, a qual eu considero absolutamente equivocada2.

O leitor não precisa, entretanto, crer em minhas palavras: um dos principais “gurus” econômicos de Marina, Eduardo Giannetti, afirma isso clara e abertamente. Para situá-lo, Eduardo Gianetti é o cara que disse que, por questões ambientais3, "o preço da carne teria que ser muito caro"; ele, reconhecidamente, tem orientação excessivamente liberal (no sentido econômico da coisa), o que é retratado por afirmações como "O Estado brasileiro não cabe no PIB" - o que poderia ser traduzido como: "o Estado gasta demais (com os pobres)".

Já que comecei falando da parte econômica, convém falar de outro dos "gurus" de Marina: André Lara Resende. Resende é, normalmente, reverenciado como um dos pais do "Plano Real". Por outro lado, poucas vezes comentam que, segundo Collor, ele foi um dos que defendeu o confisco das poupanças que levou muitos ao suicídio. Ou, ainda, que foi presidente do BNDES do governo Fernando Henrique e que teve de renunciar às pressas devido a um escândalo na privatização da Telebrás4. Hoje, além de dar pitacos econômicos no plano de Marina, curte seu Porshe e cuida de seu haras nas horas vagas5.

De qualquer forma, não acredito ser adequado avaliar um governo apenas pelo passado das pessoas que o constroem; segundo seu plano e discursos mais recentes, os principais projetos econômicos da candidata Marina Silva são o fortalecimento do "Tripé Econômico"6 e a promoção da "independência do Banco Central"7; ambas as medidas teriam o objetivo de controlar a inflação8.

Imagino que poucos duvidem que essa estratégia pode funcionar9; ainda assim, seria imprudente desconsiderar que o custo pode ser muito alto: crescimento do desemprego, redução dos salários, do poder de compra... coisas que ainda são passado no Brasil mas, infelizmente, são uma realidade muito atual na Europa, cujos países seguiram as receitas propostas pela candidata.

O governo atual tem controlado a inflação de uma maneira discutível, mas tem conseguido sucesso e tem mantido a economia em estabilidade razoável, estimulando o consumo, reduzindo custos em folha de pagamento, facilitando empréstimos, promovendo a nacionalização de produtos... É fato que tais estratégias podem estar mostrando suas limitações10 na promoção do crescimento, mas o "resultado ruim" não passa nem perto da desgraça que se abateu na Europa. No velho continente o problema não é a inflação, mas a solução era a mesma austeridade que sustenta o tal tripé. O resultado foi o desemprego e dificuldades similares às que o Brasil enfrentava quando seguia à risca esse "tripé", no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (aí sim com o propósito de controlar a inflação).

Observando os dois casos onde o "tripé" foi mantido com "austeridade" - o Brasil da década de 1990 e a Europa de agora - podem parecer disparatadas as propostas da candidata Marina. Nesses casos, quando uma proposta parece "doida demais", convém sempre fazer uma pergunta: a quem interessa essa proposta?

Em nosso caso, reforçar o "tripé" significa um aumento das taxas básicas de juros, acompanhado de redução de investimentos para garantir verba para pagar esses mesmos juros. Ora, os maiores interessados no aumento de juros são os bancos - ou o "mercado" (financeiro). Os bancos, como se sabe, não são nem um pouco "bonzinhos" (quem já deveu para banco sabe como é). Submeter a economia do país a eles, ainda mais com um Banco Central independente, é similar a entregar o galinheiro para ser cuidado pelas raposas (razão pela qual o Nobel de economia Joseph Stiglitz é contra essa ideia).

Porque ela não concorda que o povo quer mais direitos

Aumentar os juros básicos já seria problema suficiente por tornar os empréstimos para investimentos mais caros, mas eles causam uma consequência ainda pior: encolhimento e precarização dos serviços públicos.

Mas isso está no programa de Marina?

Não e, ao mesmo tempo, sim. Apesar de, em seu plano de governo, a candidata propor uma série de melhorias nos serviços públicos, a ideia que aparece nas entrelinhas do plano econômico de Marina Silva é a de "exugar o estado"11.

Para compreender o porquê, é preciso entender que "reforçar o tripé macroeconômico" pressupõe ampliar o "superávit primário"... e ampliar o superavit primário significa que o governo terá que gastar muito menos com serviços e custeio, para sobrar mais para pagar juros (para os rentistas). De enxugamento explícito, a candidata só sinaliza que irá reduzir o número de ministérios, mas isso não economizará o suficiente12. Em outras palavras, "reforçar o tripé" pode ser lido como "investir menos, oferecer menos serviços"... ideia claramente incompatível com as propostas de prestar mais e melhores serviços para a sociedade.

Para uma candidata que se arvora eleita pelos que querem mudança, sufando na onda das manifestações de junho de 2013, parece que ela não compreendeu bem o recado. A ideia das manifestações de junho de 2013 não pareceu ser por "menos estado", mas sim pelo oposto disso: por "mais e melhores serviços públicos". Isso pode ser verificado em propostas como a do transporte público gratuito (Movimento Passe Livre) ou na ideia da "educação padrão FIFA"13. Deseja-se que o governo seja mais eficiente... mas não com o objetivo de gastar menos; o objetivo é de fazer mais e com melhor qualidade.

Indo na contra-mão desse desejo por melhorias nos serviços públicos, Alexandre Rands (colaborador de Marina) afirma que poderá haver cortes nos gastos públicos da ordem de 100 bilhões. Mais uma vez a "justificativa" é o controle da inflação.

Essa afirmação de Rands vai de acordo com o programa econômico de Marina, que parece colocar o controle excessivo da inflação acima de outras necessidades da sociedade. É sempre importante frisar que inflação relativamente baixa não é sinônimo de distribuição de renda e "qualidade de vida". Se assim fosse, os mandatos de Fernando Henrique teriam sido indiscutivelmente bons (muitos julgam que foram um pesadelo). Outra coisa importante é que um Banco Central independente estaria muito mais preocupado com a inflação e a lucratividade dos bancos do que com os recursos que sobram ao governo para garantir a qualidade dos serviços públicos.

Para adicionar tempero na história toda, Marina propõe em seu plano de governo (págs 75 e 76) algo do interesse da "indústria": ampliar a terceirização, permitindo que uma empresa terceirize até mesmo sua atividade fim13.1, sob a justificativa que isso deve melhorar a "eficiência"... universalizando o "direito" de todo trabalhador a ter um trabalho precário e sem qualquer tipo de segurança. É claro que isso seria aplicado também no serviço público, piorando o que já não é bom13.2.

Na administração pública, com a restrição de recursos que já há naturalmente, não existe essa história de que "menos é mais". Se uma pessoa tiver dor de dente, não adiante ter apenas um urologista muito bom à disposição. O povo quer Estado de Qualidade, não Estado Mínimo (e Precário).

Porque ela é contra o desenvolvimento do país

Bem, mas se ela é a favor de enxugar o Estado, ao menos deve pensar no desenvolvimento do país, certo? Ou a ideologia ambientalista prejudica essa análise?

Antes de mais nada, é importante ressaltar que o ambientalismo não é um problema "em si". Além do mais, está na moda e todos gostam de ser "verdes". É fácil obter aprovação do público dizendo que se deve preservar o ambiente, proteger o bagre e o macaquinho dourado. Todos batem palmas para esse discurso. Proteger o bagre é legal... mas se isso significar que vai faltar energia para tomar banho quente ou assistir à novela das oito, aí o bicho pega14, não é?

Em resumo: "é mais fácil ser idealista quando estamos com a barriga cheia."

O que talvez não esteja tão claro é como essas duas coisas estão ligadas, mas vamos chegar lá. Primeiro é preciso compreender que a vida é feita de escolhas; sendo assim, preservar o ambiente significa abrir mão de algo, limitar alguma coisa, por definição. A questão é que a população precisa decidir se está disposta a se privar de algumas coisas para manter outras. O que se está ganhando sempre é ressaltado, mas o que se está perdendo, normalmente é escamoteado da opinião pública.

Vamos então falar aqui de algumas consequências não tão óbvias, quando as propostas econômicas do plano de Marina se unem ao seu idealismo ambientalista ameaçando o desenvolvimento, mesmo sem considerar o efeito deletério dos altos juros15 ou potenciais "tarifaços"16.

Tomemos como exemplo inicial a "redução do foco no Pré-Sal" - ou, em outras palavras, no Petróleo. Por que isso seria feito? Seria interesse de quem...? E a que custo?

Aparentemente Marina trata o petróleo como uma simples fonte de energia, que pode ser substituída pelo etanol, oriundo da cana. Sim, o etanol é um excelente combustível para substituir a gasolina em veículos automotores; por outro lado, uma substituição completa da gasolina pelo etanol exigiria certamente uma produção muito maior, ocupando muito mais áreas produtivas destinadas a alimentos. Mas, sejamos otimistas e suponhamos que é possível substituir todo o consumo de gasolina combustível por etanol sem afetar a produção de alimentos. Isso basta para esquecermos o petróleo?

O que a presidenciável aparentemente se esquece é que hoje o petróleo está em muito mais coisas: fertilizante, plásticos, pavimentação, lubrificantes... é base de muitos insumos que o Brasil precisa para poder, finalmente, deslanchar... crescer e se desenvolver. Substituir essas coisas pelo etanol - ou mesmo por subprodutos de outras matérias primas - é muito mais complicado e, essencialmente, mais caro. Se temos problemas de competitividade no Brasil, essa substituição não parece vir no sentido de resolver o problema.

Muito mais problemático do que o problema acima, entretanto, é uma consequência indireta de um possível desleixo com a exploração do pré-sal: dificuldades adicionais para melhorar a qualidade da educação que, como todos sabem, é a mãe do desenvolvimento. Mas como uma coisa está relacionada à outra? Bem, já há uma lei aprovada que destina a maior parte dos lucros com o pré-sal para a educação; no entanto, se o pré-sal não for explorado, não há lucro. E se não há lucro, não há o que ser distribuído. Uma simples decisão retira do orçamento da educação e saúde recursos da ordem de trilhões de reais, em valores atuais.

Mas as consequências de um possivel descaso com o pré-sal não param por ai: a própria exploração do pré-sal tem exigido desenvolvimento de tecnologia de ponta, com uma grande taxa de nacionalização (partes e tecnologias desenvolvidas no Brasil). São pesquisas, empregos, produtos... tudo relacionado à cadeia do petróleo, incluindo a recém revivida indústria naval nacional. Isso tudo é desenvolvimento do Brasil que deixa de existir sem exploração do pré-sal (ou sem ampliá-la em prazo adequado).

Mas permitir esse tipo de interferência prejudicial não seria uma insensatez?

Bem, vejamos o que ocorreu com relação às grandes hidrelétricas em construção e a história de suas licenças ambientais14. Além dos atrasos, a capacidade de reservação de água foi severamente limitada para reduzir as áreas alagadas. Isso parecia uma excelente ideia para reduzir muito o impacto ambiental, mas apenas se ignorarmos o fato que, em anos secos como o atual, seremos para sempre obrigados a acionar as usinas térmicas, mais caras e mais poluentes. E, de repente, a troca já não parece mais tão boa assim.

Ainda no campo da energia, o plano de governo de Marina também deixa claro que a energia nuclear não tem vez. Essa não é uma posição nova da parte dela e, embora ela certamente esteja pensando nos efeitos dos acidentes em usinas nucleares de geração de energia - ou, talvez, em bombas atômicas -, é provável que ela tenha se esquecido de alguma coisa. Ou ela deve ter descoberto um inovador projeto de submarino movido à energia eólica ou solar. Ou talvez ela pense que não será necessario investir em segurança nacional, se o pré-sal for explorado por estrangeiros17.

Essas posições fazem crer que Marina dá mais ouvido às ONGs Internacionais do que aos interesses nacionais. E que o Brasil se torne uma grande potência é tudo que as grandes potências do mundo - que têm dinheiro para financiar esse tipo de ONGs - menos querem. Isso é ainda mais complicado diante da perspectiva apresentada no plano de privilegiar os acordos "bilaterais" com grandes potências em detrimento dos acordos multilaterais (Mercosul, BRICs, acordos Sul-Sul) usuais dos últimos anos. Pode ser uma fé ingênua de que esses países querem o melhor para nós, mas também pode ser aquele típico excesso de confiança que faz os incautos se darem muito mal ao negociar com trapaceiros experientes. Será que é tão legal ter nosso comércio externo atrelado a alguns poucos países?18

Para complicar ainda mais a situação de quem quer investir e produzir aqui, como se o Brasil já não tivesse complicações o suficiente, ela pretende reduzir a atuação da Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e BNDES na concessão de juros subsidiados para produção, moradia e agropecuária... "para que a participação dos bancos privados aumente". Ora essa! Como se o governo ou algum banco público amarrasse e/ou impedisse os bancos privados de emprestar! Os bancos privados têm pouca participação nessas áreas porque não emprestam dinheiro, praticam estelionato oficial. E é óbvio que os brasileiros só irão pegar dinheiro em bancos privados se não houver outra opção. Não só é difícil imaginar como essa medida possa ser melhor para o cidadão e para os empresários, como fica evidente um interesse em privilegiar as instituições bancárias privadas, que já obtêm lucros exorbitantes (e não só os privados!).19

Enfim, alguém que pretende impor tantas restrições ao desenvolvimento do país... só pode ser contra esse mesmo desenvolvimento!

Porque ela não diz como vai chegar onde quer

Para quem leu até aqui, mas ainda não leu o plano de Marina, pode parecer que ela só propõe coisas ruins. É óbvio que isso não é verdade. Há muitas coisas boas!20 O problema, nesse caso, é que ela não é capaz de dizer como vai chegar lá, como vai fazer tudo acontecer.

A bem da verdade, a grande maioria dos candidatos não apresenta um caminho claro de como implementar as coisas. Entretanto, os outros planos de governo não propõem avanços sociais e, ao mesmo tempo, uma política economica tão contracionista. A pergunta que fica, sobre o plano de governo de Marina, é: será que é possível construir algo bom diante de uma política econômica tão perversa?

Vamos voltar um pouco na questão da sustentabilidade. Marina sempre diz que é possível conciliar crescimento com sustentabilidade. O mundo inteiro quer ouvir como fazer isso - sustentabilidade é um desejo de todos - mas, por enquanto, Marina não dá nenhuma dica, nem um sinal de onde começa esse caminho. Não é uma questão de "não ser possível", mas sim de "como fazer com as restrições economicas que temos"21. Em outras palavras: qual a mágica?

Em perspectiva, considerando todas as restrições que ela pretende impor ao crescimento, por posições ideológicas ambientais ou econômicas, qual a mágica para equilibrar a nossa balança comercial? Essa pergunta é pertinente porque fica difícil imaginar um crescimento e um comércio rentável por acordos bilaterais, se os produtos brasileiros custarem muito caro, por mais "sustentáveis" que sejam. Esse equilíbrio da balança comercial será ainda mais complicado se a redução da importância do petróleo entrar na conta, ainda mais sem o agronegócio, sem o desenvolvimento da indústria por meio das políticas de conteúdo nacional na produção22. Isso tudo, somado à proposta de reduzir as barreiras de importação vão inviabilizar o equilíbrio da balança comercial, agravando ainda mais o cenário de desindustrialização.

Nesse contexto, qual a mágica para estruturar o crescimento do país? Some-se ao já dito o fato de Marina ter sido contrária a várias das grandes obras de infraestrutura no país e ter como proposta o uso de fontes energéticas que são incapazes de permitir, hoje, competitividade em um mundo globalizado, têm-se um quadro complexo de incremento expressivo do famigerado "custo Brasil". Como isso será compensado? Com redução dos benefícios dos trabalhadores?

Aproveitando o gancho do aspecto social, alguns "pensadores" dizem que "sustentabilidade envolve inclusão social", com o que concordo plenamente. Entretanto, também é difícil imaginar como um enxugamento do Estado entra em concordância com a inclusão social. Qual a mágica para continuar distribuindo renda quando se pretende restabelecer regras macroeconômicas baseadas em arrocho e recessão?

Marina não mostra, ainda, como vai resolver o problema do financiamento da educação e saúde sem os recursos do pré-sal. Diz, por exemplo, que vai valorizar o professor - e já o dizia em 2010 -, mas não diz de onde vai sair o dinheiro. É sempre importante lembrar que o dinheiro não aparece por "geração espontânea": o dinheiro que vai para um lugar (educação, por exemplo) tem que sair de outro (saúde, por exemplo). A menos que exista uma fonte nova de recursos, como o pré-sal... que ela não quer priorizar. E, por certo, há uma "pequena" diferença de ordem de grandeza entre a perda de receita sem exploração do petróleo em comparação com o que se pode economizar reduzindo o número de ministérios. Mesmo se ela conseguir eliminar totalmente toda a corrupção do Brasil, ainda vai ficar difícil substituir os rendimentos do petróleo. Um trilhão e trezentos bilhões não se acha aí pela esquina, não.

Finalmente, mas não menos importante, Marina não apresenta a mágica que vai permitir que faça as reformas tributária e política que promete; talvez ela não tenha observado que todos os governos desde o primeiro mandato de Fernando Henrique tentaram aprovar tais reformas, mas nenhum conseguiu.

Porque ela propõe uma "nova política" contra a "roubalheira" e "tudo que está aí"

A explicação possível para que ela consiga fazer a tal reforma é que ela seja parte de uma suposta "nova política", diferente da "antiga política". A tal "nova política" teria sido exigida nas manifestações de Junho de 2013. Falemos um pouco desse movimento, então.

Junho de 2013 foi um momento ímpar no Brasil. Foi um momento em que pessoas de todo o Brasil manifestaram a indignação entalada em suas gargantas por mais de 500 anos. Uma indignação contra a péssima qualidade de serviços públicos, a despeito do alto valor que se paga pelos mesmos. Foram manifestações mais do que legítimas em que se procurou explicitar o caráter apartidário, que alguns menos informados classificaram como "apolítico"23.

Uma série de grupos de interesses contrários ao governo, liderados pela mídia, entretanto, tentou tomar posse dessas manifestações. Esses grupos e a mídia definiram pautas que não existiam e elegeram responsáveis específicos quando os verdadeiros responsáveis eram essencialmente difusos - todos os grupos que exercem o poder, incluindo a própria mídia.

No entanto, com a estratégia do "vamos repetir algo tantas vezes que as pessoas vão acreditar", criou-se uma animosidade anormal com relação aos políticos e, de certa forma, contra a própria estrutura democrática brasileira. Os menos informados e mais influenciáveis começaram a relacionar as manifestações à uma suposta "roubalheira"24 e "tudo que está aí", em uma referência a que todos os políticos fossem "farinha do mesmo saco".

Na mesma toada, demonizou-se a negociação política - ou seja, quando um grupo abre mão de algo para conseguir colaboração de outro grupo para aprovar um projeto - como se fosse algo espúrio, ao invés de apresentá-la como aquilo que realmente é: uma simples negociação - tão natural quando dizer para o filho que pode jogar videogame depois que terminar a lição... ou que ganhará um doce se comer toda a refeição.

Nesse contexto, a candidata Marina Silva, política por definição, tendo já passado por diversos partidos - PT, PV, PSB etc - com o objetivo de chegar à Presidência da Repúplica, tenta apropriar-se desse movimento, apresentando-se como a criadora dessa tal "nova política". A principal características dessa "nova política" é que grupos de interesses antagônicos - PT e PSDB, Ambientalistas e Ruralistas etc. - magicamente irão entrar em acordo, sem negociação, sem "toma lá, dá cá".

O discurso da "nova política", no entanto, mostra-se extremamente frágil quando é feito simultaneamente a uma associação com "seres" do tipo da família Bornhausen (de Santa Catarina) e Heráclito Fortes (do Piauí), ambos políticos extremamente conservadores e tradicionais, ex-DEM, representantes da mais velha política do universo conhecido25.

Fica claro, portanto, que essa "nova política" não é nada mais, nada menos, que puro marketing. E, a menos que se pretenda dar um golpe de estado, a tal nova política não vai ajudar a ninguém a governar de um jeito novo. É importante lembrar que eleger um presidente não é como eleger um imperador. Por mais bem intencionado que seja o Presidente da República, suas "vontades" são sempre submetidas ao congresso. E isso não é um problema, em essência: o congresso representa o povo, com seus diferentes grupos e matizes - ou assim deveria ser26. O problema é que o mesmo "povo que quer mudança" e troca o tempo todo de presidente, pulando de uma filosofia a outra - de Getúlio Vargas a Dilma Rousseff, passando por Jânio Quadros e Fernando Henrique Carodoso -, insiste em eleger sempre o mesmo congresso. Ou seja: em última análise, não trocamos de governo há bem mais de 50 anos. Troca-se o confeito do bolo, mas o bolo em si... continua o mesmo.

Não se pretende aqui negar que o discurso de Marina seja muito sedutor. E isso é tão certo como o fato de que outros políticos já descobriram esse discurso muito antes dela. Quando Marina foi comparada a Jânio e Collor, ela e seus aliados não gostaram. A resposta de Marina, entretanto, mostra que ela não compreendeu a comparação27: ninguém sugeriu que ela fosse inexperiente28. A comparação se refere à imagem de "pureza" projetada pela candidata, que sugere que irá governar sem corrupção - similar à vassourinha de Jânio e a guerra contra os marajás de Collor - e que não precisará de negociações, comuns à política, para governar. Observe que foi exatamente esse pensamento que, em última análise, levou à queda de Jânio e de Collor.

Finalmente, frise-se que, depois desses governos, o caminho de "recuperação" foi muito dolorido. No primeiro caso, a "Ditadura Militar", com seu "milagre econômico" e a repressão e violência contra o povo; no segundo caso, o governo de Fernando Henrique Cardoso, com sua "estabilização da moeda" e o arrocho, destruição da indústria nacional, destruição de toda a infraestrutura do país29.

Razões relacionadas à postura pessoal da candidata

Porque ela diz uma coisa e depois se desdiz, de acordo com as conveniências eleitorais

Ao longo do tempo, independente da época e qual o cargo ocupado por ela, o comportamento e posicionamento de Marina Silva com relação a diversos assuntos tem se mostrado muito "variável". Ela se coloca frontamente contra alguma coisa e, depois de algum tempo, aparece dizendo que sempre foi a favor. Nada contra a mudança de opinião, mas um político deve refletir um pouco melhor antes de enunciar e publicizar suas convicções.

Por exemplo: ela e a candidata do povo ou dos banqueiros? No momento em que for necessário escolher entre um ou outro, qual será o escolhido? Ademais, seria uma "evolução" trocar a companhia de trabalhadores como Chico Mendes pela companhia de herdeiros de banqueiros?

Atualmente não dá nem para afirmar se ela é de esquerda ou de direita. Se ela pretende ser caminho do meio, vale lembrar que o único "caminho do meio" é o PMDB, famoso "partidão" da era moderna, que sempre fica do lado do próprio bolso. Eles também vivem mudando de opinião, de acordo com a conveniência.

Em toda sua vida, Marina já foi "dura" contra implantação das grandes hidrelétricas, depois não tinha uma posição fechada sobre o assunto, em seguida passou a dizer que interromperia as obras e, agora, diz-se responsável pela liberação das obras.

Com relação aos transgênicos também "mudou" de opinião: primeiro apresentou um projeto de lei contra os mesmos (PLS 84/1997), mas agora diz que não é contra os transgênicos, que isso é uma "lenda". Teria isso a ver com seu vice, que é um dos nomes por trás da soja transgênica no Brasil?

Outro caso que salta aos olhos é a questão da Lei da Anistia. Há alguns anos Marina considerava a tortura crime hediondo, o que significa que considerava inválida a Lei da Anistia (da ditadura militar). Mais recentemente mudou de opinião, alegando ser contra a revisão da tal lei. Teria isso a ver com um interesse em obter apoio da caserna?

No caso do petróleo e da Petrobrás, Marina nunca foi de falar muito abertamente, mas recentemente construiu seu plano de governo e não deu atenção alguma ao assunto. Dedica uma mísera parte de seu plano de governo ao pré-sal, limitando-se a dizer que aplicará os repasses das áreas já concedidas (ou seja, não pretende ampliá-las). Recentemente, ao ser pressionada pela candidata governista, Marina mudou o discurso, ainda que de maneira tímida (mas pediu direito de resposta na campanha de outro partido).

Em tudo isso fica claro que realmente a Marina é a candidata da "mudança de opinião"... e que muda sua opinião de acordo com a conveniência do momento. Isso não me parece muito "nova política".

Porque ela não é capaz de entrar (e se manter) em acordo com ninguém

Curiosamente, espera-se que uma pessoa que seja tão flexível com relação aos seus princípios não teria problema em se "miscigenar" em qualquer grupo que fosse. No entanto, isso aparentemente não é possível. Quando ela não julga conveniente a mudança, torna-se bastante intransigente. Isso aparece ao longo de toda sua história política.

Marina surgiu no movimento sindical, sob as asas de Chico Mendes. Apesar do ativismo ambiental de Chico Mendes ser um meio para sua finalidade - proteger a atividade dos trabalhadores seringueiros -, Marina Silva enveredou muito mais para o lado do Ambientalismo que do Sindicalismo, sendo o primeiro uma "moda" emergente à época, em detrimetno do segundo. Era conveniente mudar, já que o sindicalismo estava saindo de moda.

Sua atuação política começou no PT, que a apoiou na obtenção de seus cargos públicos. No governo Lula se tornou Ministra do Meio Ambiente. Membro da Comissão Nacional Técnica de Biossegurança, teve postura tão inflexível que inviabilizou o funcionamento da comissão, obrigando uma revisão do estatuto para que algum resultado prático pudesse ser produzido.

No campo das obras, ainda no governo de Lula (PT), criou enormes dificuldades e atrasou obras que precisavam ser iniciadas "ontem" para recuperar a infraestrutura do Brasil, criando um grande atrito com Dilma. Ciente da importância de tais obras para o desenvolvimento do Brasil - e todo brasileiro sente hoje as consequências dos atrasos - Lula deu razão à Dilma, o que aborreceu Marina. Intransigente, renunciou a pasta do Meio Ambiente, que passou a ser ocupada por Carlos Minc, que não poupou esforços para dar andamento aos licenciamentos que se arrastavam, sem descuidar da preservação ambiental.

Sentindo-se contrariada e julgando inconveniente mudar seu jeito de ser, seu próximo passo foi o mais natural: filiou-se ao Partido Verde. No PV candidatou-se a presidente, mas não sem impor sua marca no plano de governo. Passada a eleição, mesmo com 20 milhões de votos, não conseguiu se firmar como liderança dentro do partido, provavelmente por negar bandeiras históricas do mesmo 30 e, mais uma vez, contrariada, pegou o rumo da estrada.

Confiante em seu público de 20 milhões de votos, teve a ideia de montar sua própria legenda, mas demorou para começar a coletar assinaturas. Como consequência, não logrou o mesmo sucesso que outros partidos (como o PROS e o Solidariedade), ficando sem uma legenda para chamar de sua. Diante da embaraçosa dificuldade de organizar a coleta de assinatura de seus correligionários, colocou a culpa nas "forças ocultas" (cartórios).

Quando entrou no PSB, usando-o de barriga de aluguel para sua não fundada "Rede", foi como vice de Eduardo Campos. O objetivo era tentar "engordar" as intenções de voto para candidato pernambucano, o que não ocorreu.

Infelizmente, Eduardo Campos veio a falecer e, como consequência, Marina Silva assumiu a cabeça de chapa. Coisa estranha: uma "candidata sem partido" na cabeça de chapa para uma eleição presidencial. O programa de governo, como já exposto acima, quase tão direitista quanto o de Aécio Neves, nem parece ter sido gestado em um partido com o termo "Socialista" no nome. Sua conhecida inabilidade política fez com que criasse uma situação bastante desagradável dentro do PSB, renegando apoios negociados por Campos antes de sua tragédia (apesar de mantê-los).

Mais recentemente, percebendo que no PSB pode fazer o que bem entender, já que o dono da casa não volta mais, candidata decidiu abandonar a Rede sem nunca ter sido, de fato, parte dela. Parece que, por enquanto, com a possibilidade de chegar ao poder, não há mais a necessidade de pular de galho em galho.

Como um aparte, compará-la a Lula - como a Folha sugeriu - após uma análise desse historico chega a ser um despropósito; a despeito do que cada um possa achar do sindicalista, uma coisa ninguém nega: ele se manteve bem mais fiel aos seus princípios, além de ter uma habilidade de negociação e composição política como poucas vezes se viu em um político no Brasil. É evidente, doravante, que há características mais marcantes na personalidade de uma pessoa do que ter nascido pobre e ter estudado pouco na infância.

Porque ela não consegue separar Estado da religião

Alguns diriam que a mudança de Marina se manifestou até mesmo na religião; no entanto, acredito que a mudança na religião foi menos drástica, visto que ela permaneceu cristã. Entretanto, também aqui aparecem as posições extremamente rígidas (até que ela resolva mudá-las).

Uma prova que ela abraça com fé toda posição que toma é a defesa do indefensável Marco Feliciano, sugerindo que ele é discriminado por sua religião, e não pelas bobagens que fala.

Como toda religiosa fervorosa, de fé e que tenha um mínimo de bom senso, ela tenta separar o que é assunto de Estado do que é assunto da religião... mas não consegue. Ela tenta, mas fica sempre dividida. Esse comportamento pode ser observado na rápida atenção que ela deu às críticas de Malafaia sobre o casamento civil homoafetivo. Talvez, pelo mesmo motivo, ela não volte a propor, enfaticamente, a discussão do aborto pela sociedade (como sugeriu em 2010, perdendo o apoio de Malafaia na ocasião para o Serra). Talvez ela concorde com Malafaia e pense que o povo brasileiro não tem capacidade para tomar esse tipo de decisão... talvez ela se sinta uma líder enviada por deus, para tomar as decisões por nós, brasileiros.

Como pode ser observado em inúmeras situações na história, a mistura de religião e Estado é tão ruim... mas tão ruim... que é de causar pânico a mera suspeita de interferência entre eles.

Conclusões

Marina Silva se apresenta como uma mudança, uma novidade. O povo brasileiro já quis isso antes, na democracia recente, ao fim do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Naquela época, no entanto, o país vinha de 4 anos de crescimento pífio, com inflação da ordem de 10% ao ano, taxas de juros SELIC de 45% ao ano, sem capacidade de honrar seus compromissos externos, desemprego alto e em alta, arrocho salarial... não havia quase nada a se perder caso o líder metalúrgico fosse eleito. "Pior do que está, não tem como ficar", as pessoas pensavam.

Não se trata de "política do medo". O fato é que a situação hoje, embora não seja a ideal, não é nem próxima do caos que se viveu naquele passado nem tão distante. Hoje há muito mais que se pode perder do que há 12 anos, o que nos faz lembrar que nem todas as mudanças são para melhor. O brasileiro ganhou muitos direitos... e quer ainda mais. Nesse sentido, votar em Marina Silva, por tudo exposto, considerando seu plano de governo e sua postura pessoal, pode ser um caso explícito de "levar gato por lebre".

Não é uma questão de "intriga da oposição"; todas os fatos estão relacionados a matérias e documentos públicos, oriundos de sites considerados confiáveis. Basta analisar os documentos indicados nas afirmações acima, na forma de links, e seguir o raciocínio das conclusões. É sempre importante lembrar que, no que se refere a candidatos e seus programas de governo, é preciso ler todas as letras miúdas do contrato e sempre prestar atenção nas "entrelinhas". É imprescindível compreender que o grande problema do Brasil tem nome e sobrenome: poder econômico, resumido em grande parte pela sigla PMDB e pela corrupção dos demais partidos pelo financiamento privado de campanha.

Alguém quer melhorar o Brasil? Uma nova política de fato?

Nem com essa premissa consigo enxergar uma razão para votar em Marina Silva. Na minha opinião, uma estratégia muito melhor seria limpar o congresso, não votando em deputados e senadores do PMDB, DEM e quetais, os quais representam a mais fina flor e vanguarda do atraso deste país.

0) Ter cedido, por meio do Banco Central, e subido a taxa SELIC de 7,25% para 11%, por exemplo, ao invés de ter usados outros instrumentos macroeconômicos para o controle da inflação... complicando os investimentos, as contas do governo e fazendo a alegria dos bancos e dos rentistas.

1) Como, por exemplo, no caso das greves da Universidades Federais, em que a postura do governo foi bastante rígida.

2) Assim como o vice-presidente do PSB, que agora assiste passivamente o seu partido adotar a política que ele mesmo repudiou.

3) Uma das razões da bizarrisse afirmada seria que a "flatulência" bovina provoca mais efeito estufa que os veículos. Ok, isso pode ser verdade, mas será que a melhor forma de "atacar" o problema é por meio de um imposto? Ou por pesquisa e busca de alimentos que minimizem o efeito dos bovinos? Ou ainda reduzir as emissões dos veículos para que possamos continuar a consumir carne?

4) Ele acabou absolvido porque, segundo o TCU, "não houve evidências de que ele tornou a privatização da Telebrás menos lucrativa para a União", sendo inocentado por falta de provas, algo muito comum para eventos ocorridos no governo federal até o ano de 2002. Fernando Collor, por exemplo, também foi.

5) Nada contra, mas isso exemplifica a classe social à qual ele pertence. Certamente ele sabe o que é melhor para ele... mas será que ele é abnegado ao ponto de prejudicar sua classe para beneficiar o povão?

6) "Tripé Econômico" é, para quem não sabe, o regime de "metas de inflação", "câmbio flutuante" e "responsabilidade fiscal". Nada contra esses três, não fosse o fato que a "receita" usual para manter as metas de inflação é o aumento de juros "SELIC" que, como sabemos, atrai "investimento" especulativo estrangeiro, que valoriza nossa moeda e prejudica as exportações e quebra a indústria nacional. Para piorar, a "responsabilidade fiscal" significa gastar apenas o que sobra da receita, depois de pagar todas as dívidas, ou seja, quanto maior a dívida, menos o governo tem para gastar com serviços públicos. Mas... hey! A dívida sobe com os juros "SELIC", o que significa que quanto mais alta a "SELIC" menos o governo investe em serviços. Isso se traduz em: inflação baixa com crescimento baixo e desemprego, o que normalmente leva a uma redução do valor da força de trabalho... com salários baixos se compra menos e, como está endividado, o governo também compra menos: a economia esfria ainda mais e forma-se um ciclo vicioso muito ruim!

Tem um post sobre isso!

7) "Independência do Banco Central" é algo tão perigoso quanto bizarro de se propor. Uma analogia ajuda a entender: imagine que você trabalha e ganha seu salário, mas seu vizinho é quem administra suas contas. Esquisito, não é? Pois é isso que é "independência do banco central". A função do Banco Central é, grosso modo, manter o valor da moeda (inflação) e manter o crescimento (em resumo, manter a sanidade da economia). No entanto, os instrumentos que o Banco Central dispõe para fazer os ajustes necessários são, dentre outras menos usuais, a taxa de juros SELIC e o depósito compulsório. O "depósito compulsório", que é um valor que o Banco Central impede que os bancos "gastem", diminui a atividade econômica reduzindo o volume que os bancos podem emprestar; o aumento da SELIC reduz a atividade econômica, supostamente, diminuindo a atratividade dos empréstimos, devido ao aumento em seu custo para quem precisa do empréstimo. Os bancos odeiam o controle pelo depósito compulsório, pois isso reduz o seu lucro; os bancos adoram altas na SELIC, porque isso aumenta os seus lucros. Por outro lado, o governo (e o povo) odeia o aumento da SELIC, pois isso aumenta os gastos com pagamento de dívida e diminui os investimentos; o aumento do depósito compulsório, por outro lado, praticamente não afeta as contas do governo. Ao ler isso, fica óbvio que o instrumento preferido do Banco Central é o tal do Depósito Compulsório, certo? Errado! Como o Banco Central sofre grande influência de praticamente todos os bancos (já que eles influenciam muito na economia... também recebem o nome de "mercado"), a tendência é usar a taxa de juros SELIC para os ajustes, mesmo nas situações em que um aumento do depósito compusório resolveria a situação. Isso só não ocorre "à vontade" justamente porque o governo mantem uma espada sob a cabeça do presidente do Banco Central. O governo é mais ou menos como o professor que cobra que o aluno se esforce: se o Banco Central não cumprir corretamente sua função, troca-se o presidente. É importante lembrar que o governo representa - ou deve representar - o povo. Um Banco Central independente do governo é um Banco Central indepentende dos interesses do povo - mas certamente não independente dos interesses dos bancos (o "mercado").

8) Vale lembrar que a inflação do Brasil é considerada por muitos como do tipo inercial, ou seja, tem muito mais a ver com a indexação da dívida pública e das tarifas (de reajuste programado), do que com outros fatores. A melhor forma de controlar isso é justamente eliminando os títulos públicos indexados e esses "reajustes automáticos", algo que o liberalismo do programa de Marina não leva a crer que ela vá fazer. Em termos de desindexação, no programa dela encaixa-se muito mais à eliminação da política de reajuste do salário mínimo, o que reduz a influência dessa inflação inercial à custa de arrocho, mas não a elimina, porque não elimina a sua fonte.

9) "Funcionam" no mesmo sentido em que "matar pobre" acabaria com a pobreza. Em outras palavras, é uma "não solução" e pessoas sensatas não deveriam sugerir isso como alternativa. Principalmente não depois da crise de 2008.

10) Muito embora, é verdade, nem todos acreditem que o problema seja de um esgotamento do modelo.

11) Ainda que o enxugamento não esteja explícito como no programa de Aécio Neves.

12) O gasto com os ministérios é irrisório perdo do que é necessario para custear a ampliação do superávit primário. Vale notar que a não observância da "importância" do superavit primário é a crítica implícita ao governo atual.

13) Obviamente ninguém estava falando de "corrupção padrão FIFA", mas sim das exigências de qualidade feitas pela mesma instituição.

13.1) Para quem não entende a tosqueira da proposta, terceirizar atividade fim permitiria, por exemplo, que uma gráfica, por exemplo, não tivesse um único funcionário e uma única impressora: ela receberia todos os serviços e os repassaria para que outras empresas criassem e imprimissem o material - e, claro, ganharia seu luvro pela intermediação. Num caso ainda mais bizarro, isso permitiria que um funcionário que ganha R$5.000,00 contratasse um outro para fazer o seu serviço por R$2.500,00, e ficasse em casa, vivendo com a diferença. Terceirização irrestrita é o sonho dos trambiqueiros que querem lucrar sem fazer nada, apenas intermediando e tornando tudo mais caro.

13.2) Ou alguém já viu algum serviço melhorar ao ser terceirizado?

14) As hidrelétricas em construção estão atrasadas, em grande parte, por "obra" de Marina Silva, que durante o governo Lula era ministra do meio ambiente - e daí a necessidade, por exemplo, de acionarmos as usinas térmicas para não faltar luz. A licença de Belo Monte, por exemplo, só foi liberada com a substituição de Marina por Carlos Minc. O pior disso tudo é que mesmo que as hidrelétricas estivessem prontas, ainda em consequência de ações ambientalistas, não estaríamos a salvo das térmicas, visto que o projeto dessas obras foi elaborado/modificado para não ter um grande reservatório - ou seja: quando falta chuva, não tem água pra gerar a energia.

15) Observe o que aconteceu com o crescimento do Brasil em 2014, em consequência da alta da SELIC que o Banco Central promoveu em 2013, devido à histeria midiática com a alta de inflação.

16) Recentemente Alexandre Rands, outro dos distintos colaboradores de Marina, desfilou a ideia de ampliar a meta de inflação "para recuperar a credibilidade de nossa economia". A sugestão é que seria expediente similar ao que Lula adotou no início de seu primeiro mandato; a diferença, porém, é que Fernando Henrique Cardoso deixou de herança uma inflação de mais de 15% ao fim de 2002 (anualizada acima de 12%), excepcionalmente acima do teto da meta então em vigor, de 5,5%. No caso atual, a inflação anualizada não passa do teto de 6,5%. A única justificativa para ampliar esse teto é a previsão de uma inflação generalizada no início do próximo mandato, algo com probabilidade bem baixa de ocorrer... a menos que Rands pretenda sugerir a autorização de reajustes abusivos em energia elétrica, combustíveis, dentre outros. O famoso "tarifaço", para "recuperar os lucros dos acionistas" das referidas empresas. Marina Silva, por sua vez, veio a público mostrar que também não se entende com seus consultores, desautorizando Rands; afinal, se alguém mais desconfiar do "tarifaço", a chance dela se eleger cai, não é?

17) Algumas pessoas, que acreditam que o Brasil não tem condição de desenvolver essa tecnologia, podem até achar que essa seja uma boa ideia. No entanto, analisando a história e vendo o que aconteceu no Brasil colonial, pode-se observar que ter permitido que a metrópole levasse o ouro e riquezas naturais, além de transformar o país em um grande canavial, não trouxe nada de bom. Só fez enriquecer Portugal e Inglaterra... e marginalizar um sem número de pessoas que foram trazidas da África como escravos. Pessoas essas que, ainda hoje, não recebem do Brasil condições dignas de vida.

18) Será que um pequeno produtor consegue tirar alguma vantagem quando negociam com o Carrefour? Ou será que o Carrefour o explora comprando pelo menor preço... e se não aceitar, fica sem vender para ninguém? Será que o pequeno produtor tem mais chance de negociar ao se unir a uma cooperativa? Pois então: a lógica é a mesma: nos acordos multilaterais, os países mais fracos se unem para negociar bons acordos com os gigantes e, com isso, conseguem melhores negócios.

19) Teria isso a ver com o apoio de Neca Setúbal à candidata?

20) Mas, para adicionar infâmia à injúria, os membros da equipe da campanha de Marina fazem questão de desdizer tudo que está em seu plano de governo, de acordo com a platéia para a qual discursa!

21) Os produtos "sustentáveis", "amigos do ambiente", são muito bem-vindos... mas, em geral, custam muito mais caro, pela simples razão de que uma série de processos, cuidados e custos adicionais são necessários durante sua produção. Em tempos de globalização e crise mundial, oferecer produtos "sustentáveis" mais caros para concorrer com produtos "made in china" mais baratos é simplesmente "pedir para quebrar". O caminho na "direção verde" é um caminho que terá de ser seguido por todos os países ao mesmo tempo. Se alguém tentar seguir na frente sozinho, terá sua indústria completamente dizimada... algo, aliás, que não está muito longe de acontecer com a nossa.

22) É importante ressaltar que políticas de conteúdo nacional não significam apenas um comprometimento nas compras do governo e de suas empresas; existe toda uma política de desenvolvimento, aprimoramento da cadeia produtiva e capacitação de pessoal relacionada às mesmas.

23) Classificar um movimento social - e aquele movimento de junho de 2013 foi, acima de tudo, social - de "apolítico" mostra, no mínimo, uma boa dose de ignorância acerca do que é "política". A ação política, de maneira muito grosseira, pode ser apresentada como o processo de negociação entre partes para definir a forma de atuação do Estado com relação a algum tema. A palavra "Política" tem origem na palavra grega "pólis", que designa aquilo que é público. Sendo assim, a reivindicação de direitos por parte de uma categoria é, acima de tudo, um gesto político, uma demonstração de insatisfação que tem força pelo número de pessoas envolvidas e/ou representadas. É uma manifestação de um grupo de indivíduos com o objetivo de pressionar o Estado a modificar suas políticas públicas.

24) "Roubalheira" que, segundo a mídia, seria maior do que em qualquer outra época; como se antes não houvesse e como se o fato de delinquentes não serem expostos ou condenados no passado tornasse seus crimes nulos ou inexistentes.

25) Esse discurso é tão esquisito quanto aquelas associações do PT com Paulo Maluf (a cara de pau deste último é indiscutível, por exemplo, quando ele diz que "é comunista perto de Lula").

26) Infelizmente o sistema político-eleitoral do Brasil faz com que só sejam eleitos representantes de grupos que possuem muito dinheiro, o que explica haver poquíssimos representantes de classes trabalhadoras - bancários, operários, professores etc. - mas haver um número extremamente alto de representantes dos grupos capitalistas - banqueiros, industriais, empreiteiros, ruralistas, "religiosos" etc. Observe a incoerência: em uma democracia, os menores grupos são super-representados; já os grupos maiores, são extremamente sub-representados.

27) A má interpretação da crítica feita é algo um tanto difícil de compreender, considerando a formação de historiadora de Marina Silva.

28) Afinal, Collor não era inexperiente, já havia sido prefeito, deputado federal e governador quando foi eleito Presidente da República - e algo similar pode ser dito sobre Jânio.

29) Destruição das ferrovias, inauguração de décadas de não investimento em portos, rodovias, refinarias... doação de patrimônios nacionais com a Vale do Rio Doce, sucateamento da grande maioria das universidades federais etc.

30) Bandeiras como a descriminalização da maconha e do aborto.

Qui, 28/Ago/2014, 20:12

Por: Daniel Caetano

Entendendo os Partidos da República de Pindorama

3 Votos

A República de Pindorama tem hoje quatro grandes partidos:

PMDB: O mais antigo da turma é, também, o maior partido. Até hoje, só conseguiu eleger vice-presidentes, mas sempre mandou em todos os governos. Unindo uma grande infinidade de clãs que nem sempre se entendem, o Partido dos Meliantes, Delinquentes e Bandidos sabe que a melhor forma de roubar é convencer alguém a roubar por você... e lhe dar a maior parte do roubo para que você fique quieto.

PT: O segundo mais velhinho da turma é também o mais imaturo. O povo o achava muito violento e teve de se tornar mais "paz e amor" para que pudesse ser eleito. No entanto, mesmo com todo o tempo de estrada, os membros do Partido dos Trombadinhas não aprenderam a roubar: se sujam por pouco e todo mundo acaba descobrindo seus esquemas. São pés de chinelo, mas, por pura incompetência e teimosia, levam a culpa por tudo de errado que acontece.

PSDB: Fruto de uma dissidência do PMDB: acreditavam que o mesmo não era sério e focado o suficiente na missão. Seu sucesso inicial se deveu, em grande parte, à rejeição aos maus modos do PT. O Partido dos Safados, Delinquentes e Bandidos aprendeu, logo cedo, que o mais importante é o marketing: não importa o quanto ou de quem você roube, desde que ninguém diga que algo foi roubado. Perdeu relevância porque o povo descobriu que não sabem avaliar o produto do roubo e acabam por vender tudo por 1/10 do preço de mercado.

PSB: O mais novo da turma, vem com uma proposta igualmente nova. Tem recebido a simpatia de todos porque promete inovar e renovar. Ninguém lá ainda sabe direito como roubar, mas o Partido dos Super Bandidos se propõe a trabalhar com os melhores de cada um dos outros partidos: estão procurando os melhores doleiros, as melhores lavadeiras de dinheiro, os melhores gestores de caixa dois... e, assim, já pretendem começar a carreira num patamar acima dos demais, roubando mais, dividindo por menos pessoas, e convencendo a todos que isso é o melhor que pode ser feito pelo país.

NOTA: Qualquer semelhança com a realidade de um certo país... é mera coincidência.

Os demais partidos não atingiram o mínimo de 6% das intenções votos, então não comentaremos sobre eles.

Qui, 29/Mai/2014, 6:02

Por: Daniel Caetano

"Que saudades do centro da meta!"

2 Votos

Hoje ao ouvir o comentário de Miriam Leitão na CBN eu fiquei curioso.
Miriam Leitão dizia: "Que saudade do centro da meta [de inflação]!".

Fiquei curioso porque a gente tem saudade de coisas boas que tivemos no passado; fiquei pensando aqui, com os meus botões, quando é que foi que tivemos consistentemente alguns anos de centro da meta de inflação atingido; que me lembrasse, bem poucas vezes isso teria ocorrido.

Fui então ao site do Banco Central, verificar o histórico das metas de inflação e o histórico de inflação1 para verificar se minha memória estava falhando. O resultado da pesquisa foi o gráfico que construí abaixo:

Oficialmente, como se pode observar, inflação igual ou menor ao centro da meta de inflação2 só foi atingida em quatro oportunidades (em 15 anos): 2000, 2006, 2007 e 2009, uma delas no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, uma no primeiro mantato de Lula e duas no segundo mandato de Lula. Curiosamente, no mandato de FHC o centro da meta foi atingido, mas o centro da meta de então era 6%, quase o teto da meta atual, que é de 6,5%.3

Desde o início do regime de metas, o teto da meta foi superado em 50% dos anos sob o governo de Fernando Henrique Cardoso; o teto da meta foi superado em 12,5% dos anos sob o governo de Lula e nunca foi superado sob o governo de Dilma Rousseff.

Observe agora a distância média entre a inflação real e o centro da Meta, indicada na figura abaixo:

Observe que nos últimos governos a inflação esteve consistentemente mais próxima do centro da meta - inclusive em anos de uma crise mundial que faz com que todas as anteriores do período recente pareçam brincadeira de criança. Aparentemente, os governos mais recentes têm sido mais eficazes no controle da inflação, em especial se for considerado que no período de 1994 a 2002 o controle da inflação foi feito com base no quase congelamento de salários - em especial do funcionalismo público - e os governos recentes têm ampliado muito os salários - em especial o salário mínimo4 - o que, em si, seria uma pressão inflacionária.

    Há inflação? Sim. Ela aborrece e atrapalha nossa vida? Sim.

Mas parece que analistas econômicos querem fazer parecer que a coisa está pior do que está. Será que isso tem a ver com o fato de que, segundo esses mesmos analistas, inflação se combate com alta da taxa de juros - que, como já explicado em outros posts, nada mais é do que transferir impostos dos contribuintes para os bancos? Ou será que isso tem a ver com querer fazer parecer que o governo atual é pior que os anteriores e, portanto deve ser trocado, apelando para a falta de memória dos cidadãos?

Mídia5 mal intencionada é, talvez, a maior desgraça que pode sofrer uma nação.

(1) Medição pelo IPCA, o índice oficial. Alguns dados - os mais antigos - foram extraídos do site da Exame porque não os encontrei rapidamente no site da receita. Não confia no IPCA? Compare esse gráfico do IPCA com esse gráfico do IGPM, disponíveis em uma excelente análise nesta página. Nesta outra página também há dados interessantes. Observe que o IGPM (medido pela insuspeita FGV, que nada tem a ver com o governo) muitas vezes supera o IPCA, outras vezes ele é inferior ao IPCA. Por que isso ocorre? Bom, eles medem coisas similares, porém diferentes. Essa explicação merece um post exclusivo. :)

(2) O regime de metas de inflação só foi estabelecido e regulamentado no Brasil em 1999 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, conforme pode ser observado nos documentos disponíveis no site da Receita Federal.

(3) Outra coisa curiosa de se observar é que o presidente Fernando Henrique só instituiu o regime de metas em 1999, depois de sua reeleição, sabendo das consequências político-eleitorais de perseguir essas metas. E sim, ele "fez" uma inflação muito baixa em 1998, à custa de gastar toda e qualquer reserva de dólares que o país tinha, inclusive pedindo empréstimos ao FMI, para manter o real artificialmente desvalorizado com relação ao dólar, o que fez a cotação do dólar explodir após sua reeleição e continuar subindo após isso - lembra que cada dólar era comprado por quase quatro reais? Se não lembra, confira neste site, a cotação no último dia de cada um dos anos de 1998 (R$1,208), 1999 (R$1,788), 2000 (R$1,937), 2001 (R$2,319) e 2002 (R$3,532).

(4) Observe o gráfico do documento do Dieese (o último do documento) que mostra a evolução do valor real (corridido com a inflação) do salário mínimo de 1983 a 2014. Observe que nos anos de Sarney (1985-1990) ele caiu de R$683 para R$381 (queda de 44%); depois, nos anos Collor/Itamar (1990-1994) ele caiu de R$381 para R$326 (queda de 17%); já no período FHC (1995-2002) houve uma elevação de R$326 a R$395 (aumento de 21% em 8 anos); no governo Lula, de 2002 a 2010, o salário mínimo foi elevado de R$395 para R$625 (aumento de 58% em 8 anos); e, finalmente, no governo Dilma, um aumento de R$625 para R$724 (crescimento de 16% em 4 anos - o que dá uma estimativa de 34% em 8 anos). Observe que, por ano, o crescimento médio dos governos foi: FHC(2,4%), Lula(5,9%), Dilma(3,7%). Ou seja: mesmo com 4 anos enterrados na maior crise do mundo desde a de 1929, o governo atual conseguiu, ao mesmo tempo, manter a inflação mais sobre controle que FHC e ampliar o salário mínimo a uma taxa 54% maior que FHC. Saudade de quê?

(5) Também conhecida como "Quarto Poder".